Publicada originalmente às 06h52 do dia 16/05*
Errata: O ICL Notícias havia publicado no dia 16/5, com base em registros de endereços vinculados a Eduardo Bolsonaro nos EUA, que ele morava em Arlington, no Texas. No entanto, conforme revelado pelo Intercept Brasil, o ex-deputado vive atualmente em Southlake, no mesmo estado. A correção foi feita no texto.
Por Alice Maciel
Uma casa em Arlington, no Texas (EUA), estado onde vive o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL/SP), foi comprada numa operação que envolveu o ex-secretário de fomento à cultura André Porciúncula e uma trust ligada ao advogado Paulo Calixto.
Radicado nos EUA, Calixto é o representante do fundo que, segundo revelou o The Intercept Brasil, recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para supostamente financiar a produção do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Conforme apurou o ICL Notícias com base em documentos do estado do Texas, o imóvel foi adquirido em 27 de fevereiro deste ano por 726,3 mil dólares, cerca de R$ 3,6 milhões. Porciúncula, que já foi sócio de Eduardo Bolsonaro numa empresa em Arlington, é quem assina o negócio como representante da Mercury Legacy Trust.
A Trust — que é uma estrutura jurídica usada para administrar bens – por sua vez, é controlada pela Calixsan Capital Management, empresa em que Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana são sócios. A Mercury Legacy Trust foi registrada em Dallas (Texas) no mesmo endereço do fundo Havengate Development Fund LP, por onde passou o dinheiro Daniel Vorcaro.

De acordo com o The Intercept Brasil, a transação foi feita por meio da Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com os negócios de Vorcaro. A Polícia Federal investiga se a verba do ex-dono do Banco Master foi usada para bancar Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro negou que tenha sido beneficiado com o dinheiro de Vorcaro e disse que a suspeita da PF é “tosca” porque, segundo ele, seu status de migração vedaria recebimento de valores.
Após a publicação da reportagem, o deputado federal disse também em vídeo nas redes sociais que não mora em Arlington. Ele afirmou que vive em um imóvel alugado, sem revelar o nome do locador e negou qualquer vínculo com a propriedade comprada por meio do trust.
Flávio Bolsonaro também negou que seu irmão tenha sido beneficiado com os recursos. A reportagem tenta contato com Porciúncula, Calixto e Santana. Caso haja resposta, o texto será atualizado.

Em resposta à Folha de S.Paulo, Porciúncula afirmou que a residência adquirida pelo fundo Mercury não tem “nenhuma relação com Eduardo Bolsonaro” e nem com o banco Master. “A casa não tem relação com nenhum dos dois”, ressaltou. Questionado quem seria o destinatário da residência, ele afirmou ao jornal que “esta informação não é de interesse público”.
Daniel Vorcaro transferiu ao menos R$ 61 milhões
Mensagens publicadas pelo The Intercept Brasil indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de Dark Horse.
Pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências – foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, de acordo com o The Intercept Brasil.
Em outra reportagem, o The Intercept Brasil mostrou que Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mário Frias — ex-secretário de Cultura do governo de Jair Bolsonaro, que foi chefe de Porciúncula — atuaram como produtores-executivos de Dark Horse, com responsabilidades e poder sobre a gestão financeira do projeto.
Segundo o site, Eduardo Bolsonaro, junto a Mario Frias e outros produtores, teriam responsabilidade sobre as decisões sobre como os recursos seriam captados e gastos. Não há informação, porém, sobre quem, de fato, executou essas funções.
André Porciúncula
Contrato para filme coincide com período em que Eduardo Bolsonaro abre empresa nos EUA
Trechos do contrato de produção publicado pelo Intercept Brasil, indicam que, apesar de o documento ter sido assinado apenas em janeiro de 2024 por Eduardo Bolsonaro, ele foi elaborado em novembro de 2023. Em março do mesmo ano, o então deputado federal fundou uma holding nos EUA, a Braz Global Holding, em sociedade com André Porciuncula e o empresário Paulo Generoso – que apoiou os atos golpistas de 8 de janeiro.
A empresa foi registrada por Generoso no endereço de uma casa em Arlington. No mesmo local, em um curto espaço de tempo, Paulo Generoso abriu outras duas empresas: a Liber Group Brasil, em 13 de janeiro, e o Instituto Liberdade, em 8 de fevereiro. Nessas, Eduardo Bolsonaro não apareceu oficialmente como sócio, apenas Generoso, André Porciúncula e outra ex-servidora do governo Bolsonaro, Raquel Brugnera. A informação foi revelada pela Agência Pública em parceria com o portal Uol e o Centro Latinoamericano de Investigação Jornalística (CLIP).
A Braz Holding administrou de 31 de março a 27 de julho de 2023, uma empresa com sede na Flórida que se definia como “especialista no fornecimento internacional de alimentos frescos e congelados”. Cerca de um ano depois, a Braz Holding foi encerrada.
Das três empresas abertas por Eduardo e seus sócios em 2023, quando seu pai fugiu para os EUA, apenas o Instituto Consevador Liberal continua ativo. A organização passou a ser administrada por Paulo Calixto, o advogado encarregado do processo imigratório de Eduardo Bolsonaro nos EUA, envolvido no fundo que recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.
A relação entre os dois não é de hoje. Calixto e o deputado cassado se conhecem ao menos desde de agosto de 2023, quando divulgaram nas redes um encontro que aconteceu no Brasil.