Por Gabriel Gomes
“Pessoas poderão perecer, desidratadas, sem socorro e sem espaços onde possam se proteger”. O alerta do padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, resume a preocupação com os possíveis impactos de um Super El Niño sobre a população em situação de rua e os trabalhadores que dependem dos espaços públicos para viver e garantir sua renda.
O “Super El Niño” é uma expressão que se popularizou entre meteorologistas, pesquisadores e na cobertura climática para definir eventos excepcionalmente intensos, marcados por um aquecimento muito acima da média nas águas do Pacífico Equatorial. Na quinta-feira (11), a Noaa (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional) já confirmou o início de um El Niño.
No Brasil, o fenômeno costuma provocar redução das chuvas na Amazônia, além de temperaturas mais elevadas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. Também está associado ao aumento das precipitações no Sul e à diminuição das chuvas no Norte e Nordeste.
Preocupado com os efeitos de um “Super El Niño”, o padre Júlio Lancellotti ressaltou, em entrevista ao ICL Notícias, que grandes cidades como São Paulo não contam com uma rede suficiente de pontos de hidratação. Segundo ele, a ausência de infraestrutura adequada para enfrentar temperaturas elevadas pode colocar milhares de pessoas em risco.
“Se alguma dessas pessoas tiver insolação ou qualquer desgaste pela exposição ao calor excessivo, como é que elas serão socorridas?”, questionou.
‘Todas as pessoas que têm a rua como espaço de vida e de trabalho serão afetadas’
Padre Júlio destacou que trabalhadores que exercem atividades ao ar livre também estão entre os mais vulneráveis. Ele citou descarregadores de caminhões, garis, catadores de materiais recicláveis, entregadores e outros profissionais que permanecem expostos ao sol durante longos períodos. “Todas as pessoas que têm a rua como espaço de vida e de trabalho serão afetadas”, disse.
“Imagine alguém na rua sem nenhum conforto de refrigeração, sem acesso a água potável. Essas pessoas poderão perecer porque estarão desidratadas, sem socorro e sem espaços onde possam se proteger”, afirmou.

Diante disso, o padre Júlio Lancellotti, que também é pároco da Paróquia São Miguel Arcanjo, na capital paulista, elaborou, junto a membros da igreja, uma proposta para a instalação de pontos emergenciais de hidratação em São Paulo. A iniciativa prevê a oferta de água, soro, medição de temperatura corporal, aferição de pressão arterial e atendimento inicial para pessoas com sintomas de insolação.
Para o religioso, as autoridades já dispõem de informações suficientes para agir preventivamente. “Já deveríamos ter coisas encaminhadas para isso”, afirmou, ao defender a adoção de medidas emergenciais antes que as temperaturas atinjam níveis críticos.
Super El Niño
O “Super El Niño” reapareceu em análises da NOAA, da Organização Meteorológica Mundial (WMO), do ECMWF europeu e de outros centros internacionais de monitoramento climático, que passaram a alertar para a possibilidade de um novo ciclo de extremos em um planeta já profundamente alterado pelo aquecimento global.
A preocupação para 2026 surgiu quando diferentes modelos começaram a indicar aquecimento acelerado do Pacífico, aumento do conteúdo de calor abaixo da superfície e probabilidade crescente de intensificação ao longo do segundo semestre.
Algumas projeções passaram a apontar anomalias acima de 2°C. Em determinados cenários, os modelos chegaram próximos de 3°C. É nesse ponto que parte dos pesquisadores e da imprensa utiliza o termo super El Niño.