Paulo Cupertino foi condenado, em julgamento na sexta-feira (30), a 98 anos de reclusão em regime fechado por matar a tiros o ator Rafael Miguel e os pais dele, João e Miriam, em junho de 2019.
Ele foi condenado por triplo homicídio duplamente qualificado — por motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas. O crime também foi agravado porque o assassino fugiu do local. Apesar de ter recebido uma pena de quase 100 anos, Cupertino poderá ser solto daqui a 27, no ano de 2052.
No Brasil, o tempo máximo de cumprimento de pena era de 30 anos até a sanção do Pacote Anticrime, em dezembro de 2019, que aumentou o limite para 40 anos. Como Cupertino cometeu o crime em junho de 2019, antes da sanção da Lei 13.964/2019, deve-se aplicar a lei mais benéfica ao réu, conforme o princípio da irretroatividade da lei mais grave.
Cupertino foi capturado e preso em maio de 2022 e já cumpriu 3 anos da pena, restando 27 para o cumprimento total. Ele deve passar todo o período da prisão em regime fechado, sem progressão.

Julgamento de Cupertino
A sentença do juiz Antonio Carlos Pontes de Souza, da 1ª Vara do Júri da Capital, foi dada a partir da decisão majoritária dos quatro homens e três mulheres que foram jurados. O júri popular ocorreu nos dias 29 e 30 de maio, no Fórum da Barra Funda, em São Paulo.
Segundo o Ministério Público (MP), Cupertino matou o artista e a família da vítima com 13 tiros por não aceitar o namoro do rapaz com a sua filha Isabela Tibcherani, que tinha 18 anos à época. Rafael estava com 22. Câmeras de segurança gravaram o crime na frente da casa da jovem e a fuga do assassino.
O interrogatório de Paulo Cupertino foi gravado por uma câmera do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) com o consentimento do réu. Nas imagens, Cupertino aparece visivelmente alterado, levantando do banco dos réus, discutindo com suas advogadas e se dirigindo de forma ríspida aos promotores e ao juiz.
O que Cupertino disse no interrogatório:
O réu respondeu apenas às perguntas de sua defesa e iniciou declarando inocência:
Impossível, entendeu, eu ter cometido esse crime”, afirmou. “Eu não matei o Rafael, eu não matei a família.”
“Eu nunca na minha vida, eu nunca na minha vida, eu tive conhecimento do Rafael, eu tive conhecimento da senhora Mirian, eu tive conhecimento do senhor João, tá?”, repetiu.
Sem deixar as advogadas conduzirem o interrogatório, ele afirmou que possuía duas armas legalizadas, mas que não estava armado no dia do crime:
“As minhas armas de excelência, todas as duas, eu tinha porte e registro das armas. Um revólver calibre 38 e uma pistola 380. Agora, no dia dos fatos, eu não estava armado. Mostra para mim a filmagem que eu estava com a arma na mão. Mostra para mim eu atirando no Rafael. Mostra para mim eu atirando na senhora Mirian.”
Câmeras de segurança, no entanto, registraram Cupertino fugindo logo após os assassinatos.
O empresário também afirmou que só descobriu que Rafael era ator após o crime:
“A minha vida inteira, eu não teria motivo para matar eles”
“O pouco da história que eu sei do Rafael hoje é o que eu vejo na prisão. Era o Rafael, que era de trabalho de novela”, disse. “Quem era o Rafael na minha vida? Era aquele garoto que fazia o comercial da farinha láctea.”
“Seria o maior privilégio da minha vida ter conhecido o Rafael. Então, foi vetado. Não por mim, porque eu nunca proibi. Eu nunca soube que a Isabela namorava.”
Sobre sua relação com a filha, ele negou violência e afirmou que ela mentiu ao dizer que o ouviu atirando:
“‘Como é que você era como pai?’ Chato. Não tinha essa de bater, de espancar, de amarrar…”
“Eu tenho certeza disso para qualquer um. Para qualquer um de vocês. Ela [Isabela] não ouviu nada. Ela não presenciou. Ela não presenciou isso. ‘Ah, eu ouvi os disparos.’ Como é que ela ouviu se ela estava no quarto?”
“Eu acho que ela foi iludida, abduzida, ela foi aliciada psicologicamente”, completou. “Eu amo a Isabela. ‘Ah, você tem raiva.’ Não tenho um pingo de raiva da Isabela.”
Cupertino lamentou que a filha tenha deixado de usar seu sobrenome:
“Cupertino é o meu sobrenome, e é um sobrenome que eu trago com muito orgulho, porque é o sobrenome da minha mãe. A minha filha se chama Isabela Tibcherani Cupertino Matias. A primeira coisa que ela fez, Excelência, foi tirar o nome dela, Cupertino.”
O interrogatório virou uma discussão com sua própria defesa. A advogada Mirian Souza tentou intervir, mas foi interrompida pelo próprio réu:
“Ah, mas a sua filha fala que você matou. A sua ex-mulher fala que você matou. A minha filha, ela foi alienada. Não, doutora, não era isso que a senhora queria? Não era a verdade? Só a verdade em cima da verdade? Então, o juiz está aqui. Se ele mandar eu parar de falar, eu acho que eu tenho que parar de falar.”
Quando a advogada pediu que ele seguisse uma linha do tempo, foi rebatida: “Doutora, isso é um desabafo. Não tem linha do tempo, doutora. Então, a senhora está me cortando.”
Ao falar sobre os assassinatos, tentou atribuir o crime a uma terceira pessoa:
“Eu fui covarde porque eu poderia ter evitado, policial, eu poderia ter evitado a situação, porque, quando eu vi a cena, o vagabundo, o infeliz que estava lá, que cometeu isso.”
Cupertino também se voltou contra os promotores e o advogado de acusação. Levantou-se e partiu na direção deles, sendo repreendido pelo juiz Antonio Souza:
“Se você quer me cortar, fica à vontade”, disparou contra a mesa do Ministério Público.
“Primeiro, o senhor fica sentado. E segundo, que eu vou pedir que trate com urbanidade todo mundo aqui”, respondeu o juiz.
“Eu estou alterado”, justificou o réu. “Desculpa a forma de estar falando.”
Em outro momento, comparou sua forma de se expressar à de Lula e Bolsonaro:
“Por que o Bolsonaro foi lá e falou que tomou a vacina e não tomou? Por que o Lula falou que tem o [inaudível]?”, questionou. “Aqui é um homem empolgado, esmagado, calejado, sofrido. Entendeu? Numa cadeia maldita.”
Ao juiz, tentou se justificar:
“Em momento nenhum eu quis fazer desse plenário um circo.”
Finalizou, antes da decisão dos jurados: “Se acontecer de vocês me condenarem (…), não vem com cadeia de 20 anos, 30 anos, não, que eu não quero. Tem que ser chapoletada, porque é um triplo homicídio.”
O que disse Isabela Tibcherani

Isabela, filha do réu e ex-namorada de Rafael, prestou depoimento sem a presença do pai. Relatou episódios de violência e ameaças:
“Eu lembro que ele me pegou pelo pescoço, me prensou contra a parede, me chamou de mentirosa, dissimulada, falou que eu era igual a minha mãe… nós éramos muito mentirosas, e ele devia ter dado um tiro na minha cabeça e na dela”, afirmou.
Ela contou que, no dia do crime, chegou em casa com Rafael e os pais dele no carro da família, quando foi surpreendida pela presença de Cupertino:
“Foi no momento em que ele fechou a porta. Fechou agressivamente a porta, nem dando a possibilidade de conversa, nem nada.”
Isabela relatou que ouviu os tiros de dentro de casa:
“Quando eu escutei os disparos, eu abaixei no chão e… Tapei os ouvidos e falava: ‘Não, não, não’”, disse.
“E aí quando parou o barulho dos disparos, eu fui imediatamente correndo para fora da casa e foi onde eu me deparei com a cena dos corpos, que era o corpo da mãe do Rafael caído na guia ao lado do carro. O corpo do Rafael caído em cima do corpo da mãe, meio sobreposto. E o corpo do pai do Rafael ainda no meio da rua.”
Ela chorou ao lembrar do ocorrido: “De fato ele tinha morrido e o que estava acontecendo, enfim…”