PF é acionada para periciar áudio de Vorcaro por suspeita de fraude eleitoral

Advogados do Prerrogativas apontam possível montagem ou uso de inteligência artificial em gravação divulgada pela Veja com acusações contra Lula, a 16 dias do segundo turno
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Por Cleber Lourenço

 

Os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, integrantes do grupo Prerrogativas, acionaram a Polícia Federal nesta sexta-feira (9) para pedir uma perícia urgente no áudio atribuído ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, divulgado pela revista Veja com acusações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A representação levanta suspeitas de que a gravação tenha sido adulterada, por meio de montagem de trechos ou uso de inteligência artificial, com a finalidade de interferir no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.

No documento, ao qual o ICL Notícias teve acesso, os advogados afirmam ter recebido informações de que o áudio poderia ter sido produzido a partir da junção de gravações feitas em contextos diferentes ou mediante síntese de voz. Eles ressaltam que a suspeita ainda precisa ser comprovada e solicitam que o Instituto Nacional de Criminalística examine a autenticidade e a integridade do material.

A representação aponta que a gravação foi divulgada sem identificação de sua origem, data, local, interlocutor ou responsável pelo registro. Também não há informações sobre quem armazenou o arquivo e como ele chegou à imprensa.

Segundo os advogados, essas lacunas impedem, neste momento, a verificação da cadeia de custódia, procedimento que permite rastrear a origem e o percurso de uma prova para identificar eventuais alterações.

A reportagem da Veja atribui a Vorcaro declarações sobre supostos pagamentos relacionados à produção de um filme sobre Lula e negócios envolvendo o governo federal. O áudio também menciona o financiamento de uma produção sobre Jair Bolsonaro (PL).

As acusações, segundo a representação, já teriam sido apresentadas pelo banqueiro durante tentativas frustradas de colaboração premiada. A Procuradoria-Geral da República não deu andamento às tratativas por falta de provas que sustentassem os relatos.

Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens do banqueiro, assim como ter autorizado terceiros a receber recursos em seu nome.

Data da gravação é um dos principais pontos questionados

Um dos elementos destacados pelos advogados é a cronologia das declarações atribuídas a Vorcaro.

Na gravação, a voz atribuída ao banqueiro compara os supostos pagamentos relacionados ao filme sobre Lula com o financiamento de uma produção sobre Bolsonaro. Ao mencionar o segundo caso, afirma que o dinheiro teria sido destinado por meio de um patrocínio regular.

A representação observa que essa explicação passou a ser apresentada publicamente por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) depois de maio de 2026, quando vieram à tona informações sobre sua negociação com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai.

O banqueiro, entretanto, está preso preventivamente desde março.

Por isso, os advogados consideram fundamental identificar quando a gravação foi produzida. Caso seja posterior à prisão, pedem que a PF investigue em quais circunstâncias ocorreu, quem participou da conversa e se houve autorização para realizar o registro dentro da unidade prisional.

Outro questionamento envolve a sequência das declarações. Em poucas frases, o áudio passa por referências ao Banco do Brasil, ao Instituto Lula, ao financiamento de um filme sobre o presidente e à produção sobre Bolsonaro.

O documento observa que a gravação apresenta hesitações, interrupções e um trecho inaudível. Embora essas características também possam ocorrer em uma conversa espontânea, os advogados sustentam que uma perícia é necessária para verificar se houve junção de segmentos diferentes.

Segunda representação em dois dias

O novo pedido complementa uma notícia-crime apresentada pelos mesmos advogados à Polícia Federal na quinta-feira (8).

Na primeira representação, os integrantes do Prerrogativas pediram a investigação de uma possível articulação entre Vorcaro e pessoas ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro para interferir no segundo turno das eleições e obstruir investigações relacionadas ao Banco Master.

O documento mencionava informações sobre a possível circulação de um HD contendo depoimentos atribuídos ao banqueiro, com acusações contra adversários políticos de Flávio, integrantes do governo Lula e ministros de Estado.

Agora, os advogados solicitam que a PF compare o áudio divulgado pela Veja com o material mencionado na representação anterior, para determinar se existe relação entre os dois episódios.

Também pedem a identificação de quem teve acesso à gravação e de como ela chegou a terceiros.

A representação destaca que, caso o conteúdo tenha integrado negociações de colaboração premiada, sua divulgação sem autorização judicial pode configurar violação de sigilo, independentemente de eventual adulteração.

Os advogados ressaltam que a investigação não deve atingir a atividade jornalística nem o direito constitucional ao sigilo da fonte. Qualquer solicitação de material à revista, segundo o pedido, deverá ocorrer por cooperação voluntária.

Perícia deverá investigar cortes e uso de inteligência artificial

Entre as providências solicitadas está a localização de eventual arquivo original apresentado durante as negociações de colaboração premiada conduzidas pela PF e pela PGR.

Os advogados querem que os peritos analisem a continuidade do sinal, os ruídos de fundo, os metadados, os vestígios de compressão e possíveis sinais de inserção ou supressão de trechos.

Também solicitam uma comparação da voz atribuída a Vorcaro com registros de depoimentos oficiais do banqueiro, além de exames para identificar eventual utilização de voz sintética ou modificada por inteligência artificial.

A suspeita de edição também foi levantada pelo editor de vídeo e áudio do ICL Notícias, Cesar Degani, que apontou indícios de que o material publicado pela Veja teria passado por edição. A avaliação foi divulgada em seu perfil na rede social X.

A existência de cortes ou edições, isoladamente, não comprova fraude. A perícia solicitada pretende verificar se houve manipulação capaz de alterar o conteúdo ou o contexto das declarações atribuídas ao banqueiro.

A representação também menciona um episódio ocorrido em março deste ano, quando circulou nas redes sociais um vídeo produzido com inteligência artificial que simulava a voz de Vorcaro para atribuir a ele falsas confissões de pagamentos a Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal. O conteúdo foi desmentido pela agência de checagem Aos Fatos.

Caso seja comprovada adulteração destinada a produzir falsas acusações ou interferir na disputa presidencial, os responsáveis poderão responder, conforme as circunstâncias apuradas, por crimes como fraude processual, imputação falsa de crime e delitos eleitorais relacionados à divulgação de informações sabidamente falsas.

Diante da proximidade do segundo turno, os advogados pedem que a PF produza um laudo preliminar sobre a autenticidade e a integridade do áudio no menor prazo possível, sem aguardar a conclusão de todos os exames. Também solicitam que as providências sejam comunicadas ao Supremo Tribunal Federal e ao procurador-geral eleitoral.

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