PF e Ministério Público apuram se empresária do transporte atuou em desvios no ABC

Procurada, defesa de Maria Beatriz Setti Braga não se manifestou, investigação diz que nome da empresária aparece em planilhas de operador financeiro do prefeito afastado Marcelo Lima (Podemos)
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Por André Fleury Moraes

(Folhapress) – A Polícia Federal vê indícios de que a empresária Maria Beatriz Setti Braga, fundadora de um conglomerado de transportes no ABC Paulista, pode ter realizado pagamentos à organização criminosa que, segundo a corporação e o MP-SP (Ministério Público de São Paulo), desviava recursos da Prefeitura de São Bernardo do Campo.

O caso culminou no afastamento do prefeito Marcelo Lima (Podemos). Procurada, a defesa do mandatário não se manifestou até a publicação deste texto.

O advogado de Setti Braga, que defende também familiares da empresária e a MBR Participações, citada na investigação, também não deu retorno. Ele foi procurado em três ocasiões; a primeira por telefone e as outras duas por mensagens.

Relatórios da PF a que Folha de S.Paulo teve acesso afirmam que o nome de Maria Beatriz aparece grafado como “Bia” em planilhas e mensagens encontradas com Paulo Iran Paulino Costa.

Segundo as investigações, ele é apontado como operador financeiro do prefeito afastado. Iran teve a prisão preventiva decretada em agosto, decisão mantida no início de setembro.

Em nota, sua defesa afirmou que a operação é nula e que vai contestar a validade da operação. “A defesa buscará nos autos a nulidade das apreensões e de todas as provas dela derivadas, pois não existia ordem judicial para entrada no domicílio. Os agentes cometeram verdadeira pescaria probatória, o que é vedado pelos nossos tribunais”, disse.

As menções a “Bia” aparecem em planilhas ou anotações ao lado de números. Em abril de 2025, por exemplo, Paulo teria escrito “Bia 400” numa mensagem direcionada a ele mesmo no WhatsApp. Em outubro de 2024, “100 bia”. O nome aparece também numa planilha manual apreendida pela polícia com diversas menções a “800” ou “500”.

A PF não diz o que significam os números ao lado dos nomes supostamente correspondentes a Setti Braga. Em trechos sobre outras anotações, porém, afirma que os números correspondem à quantia paga em milhares de reais.

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Maria Beatriz Setti Braga, é suspeita de ter realizado pagamentos à organização criminosa que, segundo a PF e o MP-SP, desviava recursos da Prefeitura de São Bernardo do Campo (Foto: Reprodução)

Em uma conversa entre Paulo e o prefeito Marcelo Lima, por exemplo, há uma planilha com nomes e o número “500”. “É possível verificar que os valores como 500 aparentam ser, na verdade, R$ 500 mil”, diz a PF em um dos documentos aos quais a Folha teve acesso.

No caso de Setti Braga, diz a corporação, as suspeitas se estendem a uma outra empresa ligada à família: a MBR Participações S.A. Relatório da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros da PF aponta que as empresas “representam um pilar fundamental no esquema investigado, caracterizado pela obtenção de contratos públicos milionários e pela subsequente movimentação de valores que retornam como vantagens indevidas pagas a servidores públicos”.

A sociedade anônima é presidida por Milena Braga Romano, filha de Maria Beatriz. Um dos diretores da empresa, segundo as investigações, estava registrado no telefone de Paulo Iran como “Amigo de Bia Braga”. Procurada, a defesa da empresa e a de Milena Braga Romano não se manifestaram.

O TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) determinou a quebra dos sigilos bancários e fiscal da MBR, que em 21 de agosto ingressou nos autos pedindo acesso ao inquérito. Não acolheu, contudo, o pedido contra Maria Beatriz Setti Braga e sua filha Milena.

Transporte público no ABC Paulista

À frente de concessionária de transporte público no ABC Paulista há décadas, a família Setti Braga também mantém relações próximas com políticos.

Em 2023, por exemplo, inaugurou as instalações da Eletra, ramo de veículos elétricos do conglomerado empresarial, em cerimônia da qual participaram o presidente Lula (PT), seu vice Geraldo Alckmin (PSB) e ministros. “Somos um bom exemplo da nova indústria que está nascendo no país”, disse Milena Braga, sócia da Eletra e da MBR durante a solenidade.

Em nota, a secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que a participação do governo na solenidade “teve caráter estritamente institucional e público e foi amplamente acompanhada pela imprensa”.

“A proposta da agenda presidencial foi reforçar a centralidade do Estado no fortalecimento da indústria brasileira e destacar o papel de ônibus elétricos para o futuro sustentável da mobilidade no país”, disse.

Além de Lula e Alckmin, destacou a pasta, “o evento interministerial contou com a presença de vários outros ministros, entre eles Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego; e Renan Filho, dos Transportes, além de prefeitos de municípios paulistas e parlamentares, funcionários, colaboradores e clientes da empresa”.

Duas décadas antes, em 2002, o empresário João Antônio Setti Braga, irmão de Maria Beatriz, disse que era obrigado a pagar propina a integrantes do governo Celso Daniel (PT), em Santo André.

Ele reafirmou a declaração em depoimento ao Senado durante a CPI dos Bingos, em 2006. “A propina mensal, que classifico de uma autêntica extorsão, era considerada como um custo político para a gente trabalhar sossegado”, disse.

João Antônio não chegou a ser denunciado pelo Ministério Público, que anos depois acusou outros empresários de integrar o esquema. O depoimento de Setti Braga foi utilizado para embasar o caso na Justiça.

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