Por Catarina Duarte — Ponte Jornalismo
O sargento da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) Thiago Guerra será julgado por júri popular pela morte da adolescente Victória Manoelly dos Santos, de 16 anos. Ela foi atingida por um disparo durante uma abordagem policial em 9 de janeiro deste ano, na Vila Minerva, zona leste da capital. A decisão, assinada pelo juiz Renan Oliveira Zanetti, foi publicada na terça-feira (5).
Guerra vai responder por homicídio qualificado — quando há agravantes, como a dificuldade de defesa da vítima. O juiz aceitou o pedido do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), avaliando que há elementos suficientes para que o policial seja julgado. A prisão preventiva do sargento também foi mantida.
Segundo depoimento do irmão da vítima, Kauê Alexandre dos Santos Lima, 21, ele estava com Victória, a mãe e amigos em uma adega do bairro quando uma viatura da PM subiu na calçada e parou próxima ao local. Um dos policiais desceu e correu atrás de uma pessoa. Kauê relatou que, após a prisão de um suspeito, um segundo policial se aproximou, mandou que ele se deitasse no chão e o agrediu com uma coronhada. Em seguida, o jovem foi virado de costas e recebeu um segundo golpe, momento em que a arma disparou. O tiro atingiu Victória.

Sargento da PM alegou que Kauê resistiu à abordagem
Kauê afirma que foi algemado e colocado na viatura, onde foi ameaçado de ser amarrado com cordas. Dentro do veículo, viu a mãe pedindo socorro. Um vídeo divulgado pela TV Globo à época mostra o momento em que Kauê é informado da morte da irmã. Ele chorava enquanto era levado à delegacia. Foi liberado apenas no dia seguinte, por volta do meio-dia.
Em sua versão, Thiago Guerra disse ter sido acionado para dar apoio a uma ocorrência de roubo. E que ao chegar foi informado de que Kauê e Victória corriam e foram apontados como suspeitos. O sargento alegou que Kauê resistiu à abordagem e o agrediu com um tapa ou soco. Durante a contenção, Guerra segurava a arma com a mão direita e, com a esquerda, tentava afastar a blusa do jovem. Ao recuar, ouviu o disparo.
Imagens da câmera corporal de Guerra registraram parte da abordagem. É possível ouvir Kauê dizendo “tira a mão de mim”, ao que o policial responde: “Como que é, mano? Você é louco?”. Em seguida, o PM segura Kauê pela gola, aponta a arma e dá uma coronhada. O tiro é disparado nesse momento.
Na decisão, o juiz apontou que o processo reúne provas da ocorrência do crime e indícios suficientes de autoria, com base nos depoimentos, na fala do próprio acusado e nas imagens das câmeras corporais.
O ponto central, segundo a sentença, é se o policial assumiu o risco de causar a morte — o chamado dolo eventual. Para o juiz, a forma como Guerra abordou Kauê, armado, em local público e com outras pessoas ao redor, permite considerar essa possibilidade. Como a questão ainda não está esclarecida, a Justiça determinou que o caso seja decidido por um júri.
A defesa pediu a absolvição imediata, alegando que o tiro foi acidental ou poderia ter sido disparado por outro agente. O juiz rejeitou o pedido, afirmando que ainda não é possível afastar a hipótese de dolo eventual. Também foi negado o pedido de desclassificação do crime para homicídio culposo — quando não há intenção de matar.
O juiz manteve a qualificadora de dificultar a defesa da vítima. Segundo ele, as imagens mostram Kauê cercado por policiais e sem chance de reagir antes do disparo. Pela legislação, essa qualificadora só pode ser retirada se for considerada claramente improcedente, o que não ocorreu neste caso.
A Ponte procurou a defesa de Thiago Guerra, representada pelo advogado João Carlos Campanini, mas não obteve resposta.