Por Cleber Lourenço
A escalada da violência policial se consolidou como uma das marcas da gestão do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo. Ao longo dos últimos anos, episódios de agressões, mortes em abordagens e uso reiterado da força contra pessoas já rendidas passaram a se repetir com frequência em diferentes regiões do estado.
Levantamento realizado pela reportagem identificou quase 80 casos reunindo ocorrências com vítimas rendidas, ações com desfecho letal e divergências entre versões oficiais e os elementos posteriormente apurados em cada situação.
Todos os episódios listados estão documentados, tiveram cobertura da imprensa e são alvo de apurações internas e investigações conduzidas pela corregedoria da Polícia Militar, ainda sem conclusão na maior parte dos casos.
O conjunto de registros, distribuídos entre 2023 e 2026 — período que coincide com o atual governo — permite identificar um padrão que não apenas se mantém, mas se intensifica. A Polícia Militar de São Paulo, historicamente marcada por episódios de violência, aparece neste levantamento atuando de forma reiterada em ocorrências com uso desproporcional da força, muitas vezes sem qualquer comedimento.
Em muitos episódios, as vítimas já estavam imobilizadas, sem oferecer resistência, quando passam a ser agredidas com socos, chutes, golpes de cassetete e até armas de fogo. O padrão não é pontual nem isolado: ele se repete em diferentes regiões, contextos e tipos de abordagem.
Há também recorrência de situações em que o contexto inicial da ação policial não indicava risco imediato — como fiscalizações, dispersão de eventos, verificações de suspeita ou infrações administrativas — mas evoluiu rapidamente para violência.
Além da repetição dos episódios, o levantamento aponta um elemento político relevante: declarações públicas do governador Tarcísio de Freitas reforçando uma postura de endurecimento na atuação policial. Em uma das falas que ganharam repercussão, o governador afirmou que “não está nem aí” para críticas e que poderiam “chamar a Liga da Justiça”, em referência à atuação da polícia.
Esse tipo de posicionamento é interpretado por especialistas e por setores da sociedade civil como um sinal de endosso político a uma atuação mais agressiva da corporação, em um contexto em que os mecanismos de controle e responsabilização não acompanham a escalada dos episódios.
Casos recentes, concentrados sobretudo entre 2025 e 2026, ilustram esse padrão. Em Americana, um homem foi espancado no chão enquanto uma mulher com um bebê no colo tentava impedir as agressões e acabou também atingida. Na capital, cinco policiais foram flagrados agredindo um jovem já rendido após um baile funk. Em outro episódio, dois homens foram atacados durante a dispersão de uma festa, mesmo sem reação.
Na zona leste, a morte de uma mulher baleada por uma policial ganhou repercussão pelo tempo de espera por socorro. Já em Morro Agudo, um homem em surto foi imobilizado e agredido com golpes sucessivos. Em São Vicente, uma mulher caída no chão foi chutada no rosto. No Ibirapuera, durante o Carnaval, um militar do Exército foi cercado e espancado por policiais.
O levantamento também reúne episódios envolvendo múltiplos agentes atuando simultaneamente. Em diversas ocorrências, grupos de policiais cercam uma única pessoa, já contida, e continuam as agressões. Em vários casos, outros agentes presentes não intervêm para interromper a violência.
Outro ponto recorrente é a divergência entre versões oficiais e o que foi posteriormente apurado. Testemunhas, familiares e elementos de investigação frequentemente entram em choque com os registros iniciais feitos pelos próprios policiais.
Recortes: quem são os principais alvos
A análise dos episódios revela que determinados grupos aparecem de forma recorrente entre as vítimas das ações violentas:
Moradores de periferia e jovens negros
Grande parte dos casos ocorre em bairros periféricos e envolve jovens, em sua maioria negros. As ocorrências incluem espancamentos durante abordagens, mortes em ações policiais e agressões coletivas, frequentemente sem resistência aparente por parte das vítimas.
Trabalhadores informais e população de rua
Ambulantes, entregadores e pessoas em situação de rua aparecem com frequência entre os atingidos. Há registros de vendedores cercados por diversos policiais, trabalhadores agredidos durante o expediente e moradores de rua mortos ou espancados em abordagens.
Mulheres
O levantamento inclui episódios de violência direta contra mulheres, incluindo agressões físicas, uso de força em situações de contenção e casos em que elas são atingidas ao tentar intervir para proteger terceiros.
Adolescentes e estudantes
Há registros de adolescentes submetidos a agressões coletivas, como corredores de cassetetes, além de ações policiais com uso de bombas e spray de pimenta contra estudantes.
Pessoas em situação de vulnerabilidade
Também aparecem casos envolvendo pessoas com deficiência, indivíduos em sofrimento psíquico e vítimas em contextos de extrema vulnerabilidade social, que são contidas com violência mesmo sem oferecer risco imediato.
A seguir, a relação completa dos casos:
2026
- 1. Americana (22/04) — Homem é espancado no chão durante abordagem; mulher com bebê tenta intervir e também é agredida.
- 2. São Paulo (08/04) — Cinco policiais agridem jovem já rendido após baile funk.
- 3. Zona sul de SP (05/04) — Dois homens são agredidos na dispersão de festa, sem reação.
- 4. Zona leste (03/04) — Mulher baleada por policial aguarda cerca de 30 minutos por socorro.
- 5. São Paulo (02/04) — Tenente-coronel preso por feminicídio é aposentado com salário integral.
- 6. Morro Agudo (31/03) — Homem em surto é contido com violência física em via pública.
- 7. São Vicente (19/03) — Mulher caída no chão é chutada no rosto por policial.
- 8. Ibirapuera (17/02) — Militar do Exército é cercado e espancado durante Carnaval.
- 9. Brás (12/02) — Vendedor ambulante é cercado por vários PMs e agredido.
- 10. Centro de SP (08/02) — Foliões são agredidos por policiais durante bloco de rua.
- 11. Interior de SP (02/02) — Jovem rendido é espancado com cassetetes e chutes.
2025
- 12. Zona leste (dez) — Moradores, incluindo pessoa com deficiência, são agredidos durante ação.
- 13. Zona norte (dez) — Jovens são forçados a passar por corredor de cassetetes.
- 14. Zona leste (out/dez) — Ação com agressões generalizadas e versões conflitantes.
- 15. ABC paulista (25/10) — Jovem é espancado durante abordagem noturna.
- 16. Araçariguama (18/09) — Mulher leva tapa no rosto em frente a unidade de saúde.
- 17. Paraisópolis (15/07) — Homem é morto a tiros mesmo já rendido.
- 18. Capão Redondo (11/07) — Policial civil é baleado por equipe da Rota.
- 19. Centro de SP (13/06) — Morador de rua é morto com tiros de fuzil.
- 20. Santos (29/05) — Homem é espancado por três policiais durante abordagem.
- 21. Zona sul (18/05) — Vítima no chão é agredida por múltiplos agentes.
- 22. Vila Andrade (18/05) — Jovem é morto dentro de casa diante da mãe.
- 23. Piracicaba (12/04) — Adolescente negro é agredido durante o trabalho.
- 24. Brás (11/04) — Imigrante é morto dias antes do nascimento do filho.
- 25. Piracicaba (10/04) — Advogado é intimidado por policiais com arma longa.
- 26. Piracicaba (01/04) — Jovem é morto ao tentar proteger esposa grávida.
- 27. Zona sul (21/03) — Homem negro rendido é espancado por PMs.
- 28. São Paulo (18/03) — Homem é agredido por estar sem capacete.
- 29. Barueri (15/03) — Jovem é morto durante abordagem policial.
- 30. Ipiranga (13/03) — Casa é invadida sem mandado e casal é agredido.
- 31. São Paulo (26/02) — Homem rendido é ameaçado com arma no rosto.
- 32. Guarulhos (03/02) — Homem é agredido com golpes de fuzil.
2024
- 33. Osasco (25/12) — Homem é baleado ao filmar abordagem policial.
- 34. Itapevi (25/12) — Motociclista é agredido na noite de Natal.
- 35. Paraisópolis (17/12) — Homem rendido é chutado e ameaçado com arma.
- 36. Centro de SP (09/12) — Moradores de rua são agredidos; mulher desmaia.
- 37. Santo Amaro (08/12) — Motorista tem cabeça pisada durante abordagem.
- 38. Centro de SP (08/12) — Homem é morto por policial à paisana.
- 39. Interior (06/12) — Moradores são espancados durante ação policial.
- 40. Zona sul (04/12) — Mulher é agredida com socos e golpes enquanto imobilizada.
- 41. Barueri (04/12) — Idosa é agredida com cassetete na cabeça.
- 42. Zona leste (04/12) — Jovem é morto durante abordagem policial.
- 43. Grajaú (04/12) — Homem rendido é espancado; mulher também é agredida.
- 44. São Paulo (03/12) — Entregador baleado fica horas sem paradeiro conhecido.
- 45. Jacareí (03/12) — PM agride homem com pauladas dentro de comércio.
- 46. Jardim Miriam (02/12) — Homem é arremessado de ponte durante ação policial.
- 47. Zona norte (01/12) — Motociclista é espancado após perseguição.
- 48. Itanhaém (30/11) — Policial dispara arma contra crianças.
- 49. Dracena (28/11) — Mãe é agredida ao tentar defender filho.
- 50. Vila Mariana (20/11) — Estudante é morto após abordagem policial.
- 51. Zona leste (16/11) — Caso com indícios de manipulação de cena.
- 52. Zona sul (14/11) — Estudantes são reprimidos com bombas e spray.
- 53. Zona sul (11/11) — Homem é morto com tiros pelas costas.
- 54. Cambuci (06/11) — Policiais disputam racha com viaturas e causam acidente.
- 55. Baixada Santista (05/11) — Criança e adolescente são mortos em operação.
- 56. Campinas (21/10) — Mulher é socada até desmaiar.
- 57. Guarulhos (03/08) — Suspeito rendido é baleado na cabeça.
- 58. Zona leste (29/07) — Empresário é agredido após confusão.
- 59. Zona leste (24/05) — PM atira em policial civil durante discussão.
- 60. Interior (07/05) — Jovem é espancado e ameaçado de morte.
- 61. Zona norte (23/04) — Homem é imobilizado pelo pescoço e agredido.
- 62. Guarujá (18/04) — Empresário é agredido diante da família.
- 63. Estação da Luz — Mulher é agredida em espaço público.
- 64. Santos (fev) — Dois homens são mortos durante ação policial.
- 65. Baixada Santista — Jovem cego é morto dentro de casa; outro também é executado.
- 66. Botucatu — Homem é chutado na cabeça e desmaia.
- 67. Jacareí — Homem tem rosto fraturado após agressão.
- 68. São Vicente — Cinco jovens são mortos em operação.
2023
- 69. Carapicuíba — Homem é espancado por grupo de policiais.
- 70. Americana — Advogado negro é ameaçado e quase levado em viatura.
- 71. Santos — Série de invasões de casas e ameaças a familiares.
- 72. Campinas — Mulher é socada durante abordagem.
- 73. Centro de SP — Viatura atropela casal durante manobra.
- 74. Guarujá — Policiais comemoram morte de homem.
- 75. Baixada Santista — Disparos contra homens desarmados.
- 76. Ribeirão Preto — Advogado é agredido por policial.
- 77. Interior — Idosa de 70 anos é agredida.
- 78. Zona leste — Testemunha é agredida e tem celular levado.
- 79. São Paulo — Policiais matam jovens e alteram cena do crime.
Ao longo de todos os períodos, a divergência entre relatos oficiais e outros elementos das ocorrências aparece como um ponto central. Testemunhos, laudos e registros independentes frequentemente colocam em dúvida a narrativa inicial apresentada pelos agentes.
Procurada em diferentes casos citados, a Secretaria da Segurança Pública afirma, em notas oficiais, que não tolera desvios de conduta e que todos os episódios são apurados por meio de inquéritos policiais militares. A pasta sustenta ainda que medidas administrativas são adotadas quando irregularidades são comprovadas.
Os dados reunidos no material, no entanto, indicam repetição de padrões ao longo dos anos, com características semelhantes entre ocorrências registradas em diferentes regiões do estado, mantendo o tema do uso da força policial no centro do debate público.