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Jorge Mizael

Cientista político, doutorando pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), com foco em comportamento político e estudos sobre mudanças constitucionais. Fundador da Metapolítica, consultoria premiada no Oscar da Comunicação Política Mundial em 2020 pela The Washington Academy of Political Arts Sciences. Indicado, em 2021, como Consultor Político Revelação pela mesma instituição. Colunista do portal ICL Notícias, onde analisa questões políticas e institucionais com ênfase em governança e a relação entre o Legislativo e o Executivo.

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Que Centrão é esse?

O Centrão amplia seu domínio municipal e reforça sua influência sobre o orçamento federal, garantindo poder de negociação e adaptabilidade no cenário político brasileiro
31/10/2024 | 14h51
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O “Centrão”, termo recorrente e controverso no cenário político brasileiro, desafia os limites de uma definição formal, ao mesmo tempo, em que ocupa uma posição altamente influente na interação entre os poderes Executivo e Legislativo. Longe de ser um grupo político estático, o Centrão representa um bloco cujas articulações permeiam as dinâmicas de poder e redistribuição de recursos, configurando uma força intermediária capaz de moldar o andamento das pautas políticas.

A gênese do Centrão remonta à Assembleia Nacional Constituinte de 1987–88, que surgiu como uma resposta pragmática de parlamentares para enfrentar a Comissão de Sistematização, defendendo pautas específicas, como a manutenção do presidencialismo e a definição dos mandatos. Embora os integrantes e partidos do Centrão tenham variado ao longo das décadas, seu modus operandi permanece enraizado em estratégias de negociação com o Executivo, trocando apoio político por uma influência sobre recursos e cargos públicos.

Hoje, o Centrão opera com a mesma cartilha articuladora de poder desenvolvida na década de 1980, adaptando-se conforme novos partidos aderem às práticas de barganha política que o bloco institucionalizou. No entanto, o impacto e o alcance dessa articulação sobre a política brasileira permanecem temas centrais de debate.

Quais partidos fazem parte do centrão?

O Centrão, como bloco político informal e heterogêneo, destaca-se como uma força de negociação pragmática e adaptável na política brasileira contemporânea. Definir com precisão quais partidos compõem esse bloco, no entanto, revela-se um exercício desafiador, dada sua fluidez. Com base em perspectivas da literatura política e na atuação recente, identificam-se os partidos Avante, PP, Republicanos, PL, PRD, MDB, União Brasil, Podemos, PSD, Cidadania e Solidariedade como integrantes do Centrão atual. Historicamente, PP e PL ocuparam posições centrais. Esse conjunto é variado em ideologias, mas tem um objetivo comum: a ampliação da sua influência política.

A atuação do Centrão transcende a lealdade ideológica, adotando uma abordagem flexível que lhe permite negociar com governos de diferentes espectros políticos em troca de apoio para projetos prioritários ou posições-chave. Essa atuação reforça o Centrão como uma coalizão variável e adaptável, caracterizada por sua flexibilidade pragmática, que visa à maximização de sua influência.

No cenário político atual, o Centrão tem buscado protagonismo em postos de comando nacionais, elevando sua influência para além dos limites do Congresso. A presidência da Câmara dos Deputados e cargos na Mesa Diretora tornaram-se alvos prioritários, assim como posições estratégicas no Executivo, que possibilitam ao bloco ampliar seu alcance e consolidar seu papel como ator de peso nas dinâmicas do poder.

Desafios e limitações do Centrão

A influência do Centrão nas políticas públicas brasileiras reflete um jogo político de alta complexidade. Embora o bloco possa fornecer uma base de apoio considerável para o Executivo, esse suporte é condicionado a interesses pragmáticos. A relação entre o Centrão e o governo é caracterizada por uma negociação constante, onde a estabilidade política é “alugada” em troca de cargos, emendas parlamentares e outros recursos. Essa estabilidade, embora temporariamente vantajosa para a aprovação de projetos no Parlamento, é volátil. Quando as demandas do Centrão deixam de ser atendidas, o bloco pode retirar seu apoio, expondo a vulnerabilidade do governo.

Além da volatilidade intrínseca de sua atuação, o Centrão enfrenta dificuldades de coesão interna. Como visto, o bloco é composto por uma diversidade de partidos, cujas ideologias e objetivos frequentemente divergem, comprometendo a construção de uma agenda comum. A heterogeneidade dos interesses representados dificulta articular ações unificadas, limitando a eficiência do grupo ao buscar objetivos coletivos. Essa falta de unidade enfraquece o poder do Centrão, principalmente em temas de alta relevância para o país. Contudo, a criação de novos instrumentos, como as emendas parlamentares de relator e os “Pix” orçamentários, vem dando mais musculatura e aumentando a capacidade de atuação do bloco, que passa a dispor de ferramentas para redistribuir recursos com maior autonomia, mantendo sua influência mesmo em meio à fragmentação interna.

A atuação pragmática do Centrão ao longo dos anos resultou em uma imagem pública negativa. O bloco é amplamente associado a práticas fisiológicas e clientelistas, sendo percebido pela opinião pública como um ator mais interessado em benefícios próprios do que no avanço de políticas públicas. Essa imagem compromete seu apelo eleitoral. Embora o Centrão continue exercendo influência no Congresso, essa percepção negativa representa um desafio para a sua capacidade de atrair novas lideranças políticas.

O Centrão carece ainda de uma liderança carismática e elegível capaz de representar e unificar seus interesses. A ausência de uma figura central impede o bloco de consolidar uma imagem nacional coesa e direcionada. Diferente de partidos com líderes fortes, que conseguem engajar suas bases em torno de um propósito específico, o Centrão opera sem uma liderança que sintetize os interesses variados de seus integrantes e projete uma direção clara para o bloco.

O controle do orçamento é outro ponto importante para o Centrão, lembremos que os relatores da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025, respectivamente os senadores Confúcio Moura (MDB/RO) e Angelo Coronel (PSD/BA), pertencem a partidos do bloco. Coincidência? Parece que não, pois o Centrão sabe que o domínio sobre o orçamento federal e sobre emendas parlamentares o coloca em uma posição privilegiada no jogo político brasileiro.

Embora uma formalização do bloco fosse um caminho teórico para institucionalizar as suas ações, a dispersão de objetivos e a ausência de uma liderança coesa tornam essa possibilidade pouco provável no curto prazo. Essa formalização, por meio de um conjunto de fusões partidárias, implicaria assumir compromissos públicos e programáticos, algo que parece colidir com a estrutura pragmática e fragmentada que caracteriza o Centrão até aqui.

O que vem por aí?

As eleições de 2024 garantiram ao bloco o comando de um número significativo de prefeituras, o que fortaleceu ainda mais suas bases de poder local. Esse domínio municipal agora se soma à sua influência no Congresso, onde o Centrão continua a ser decisivo na definição do orçamento, com os relatórios nas mãos do MDB e PSD. Esse controle sobre os recursos orçamentários amplia a capacidade do bloco de direcionar verbas para atender a interesses específicos, consolidando seu papel como intermediário nas negociações políticas.

  • Turbinado pelo resultado eleitoral e confirmado no controle do orçamento, qual será o caminho do centrão?

Independentemente da resposta, sua presença no jogo político brasileiro parece garantida, seja qual for o presidente da República eleito em 2026.

Sim, o Centrão estará lá mais uma vez.

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