Por Pamela Mércia e Mariana Franco Ramos*
Na manhã seguinte ao vendaval que atingiu o Rio de Janeiro, o roteiro parecia conhecido. Notícias sobre árvores arrancadas pela raiz, telhados destruídos, estações de transporte interditadas, bairros sem energia elétrica e duas pessoas mortas após a queda de um muro em Santa Teresa ocuparam as capas dos jornais e a abertura dos telejornais. Como costuma acontecer em eventos extremos, a cobertura concentrou-se na intensidade do fenômeno: rajadas superiores a 100 km/h, o encontro entre uma frente fria e uma massa de ar excepcionalmente quente, os efeitos do El Niño e as explicações meteorológicas para o episódio.
Explicar por que ventou tanto é indispensável. Reconhecer que a crise climática aprofunda desigualdades e evidencia dinâmicas de racismo ambiental, atingindo de forma desproporcional populações negras, periféricas e historicamente marginalizadas, é ainda mais importante. Mas o que muda quando já sabemos de tudo isso?
Sabemos onde as encostas apresentam maior risco de deslizamento, quais bairros concentram infraestrutura precária, quais territórios sofrem com alagamentos, ilhas de calor ou interrupções de serviços essenciais. Sabemos, inclusive, quais medidas e políticas públicas poderiam reduzir parte dessas vulnerabilidades.
Conhecimento não é mais o principal obstáculo. Os diagnósticos, os mapas e as soluções capazes de mitigar esses impactos já existem. O que falta é vontade política para transformar esse acúmulo de evidências em ação.
Petrópolis evidencia que a chuva não explica, por si só, o desastre. O Plano Municipal de Redução de Riscos, elaborado em 2017, identificava dezenas de áreas classificadas como de risco alto e muito alto. Depois dos eventos climáticos de 2022, novos relatórios voltaram a apontar praticamente os mesmos territórios como prioritários para intervenções. Os mapas vieram antes do desastre. As mortes vieram depois.
Os resultados da pesquisa cidadã Memórias das Chuvas em Petrópolis, desenvolvida pelo Instituto Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS) em novembro de 2025, mostram outra dimensão desse problema. Três anos depois da catástrofe, moradores continuam relatando medo de novas chuvas, sofrimento psicológico, perdas econômicas, dificuldades para reconstruir suas vidas e a sensação permanente de abandono pelo poder público. Para muitas dessas pessoas, a tragédia nunca terminou.
É comum haver certa timidez quando o debate chega à responsabilização. Discutimos a intensidade das chuvas, os impactos da crise climática, os desafios da adaptação e a necessidade de ampliar a resiliência dos territórios. Nada disso é secundário. Mas, quando o assunto passa a ser a responsabilidade diante de riscos amplamente conhecidos, a pauta perde força.
Evitamos discutir quem responde por essas omissões. Afinal, se estudos, mapeamentos e diagnósticos existem há anos, por que ainda aceitamos que políticas públicas estruturantes avancem em um ritmo muito mais lento do que a velocidade com que as tragédias se repetem?
O que ocorre no Rio e em Petrópolis está longe de ser exceção. Recife convive há décadas com deslizamentos recorrentes em áreas historicamente vulnerabilizadas. O Rio Grande do Sul viveu, em 2024, a maior tragédia climática de sua história. Neste ano, Ubá e Juiz de Fora, em Minas Gerais, voltaram a enfrentar enchentes e deslizamentos que deixaram famílias desalojadas e perdas materiais. Recentemente, um vendaval em São Paulo provocou mais uma morte.
Mudam as cidades, mudam os fenômenos e as paisagens. O que não muda é o fato de que, em boa parte desses lugares, os riscos já eram conhecidos antes que novas vidas fossem perdidas.
Desastres não começam quando chove. Começam quando obras são adiadas, planos permanecem sem execução, recursos deixam de ser destinados e populações continuam vivendo em áreas cujo risco já foi identificado. A chuva desencadeia o desastre; a omissão ajuda a produzi-lo.
Esse é o principal deslocamento que a crise climática exige de nós. Durante anos, a pergunta prioritária foi por que os eventos extremos se tornaram mais frequentes. Hoje ela já não basta. Se conhecemos os riscos e sabemos quem está mais exposto, a questão passa a ser outra: quem responde quando tragédias previsíveis continuam acontecendo?
Essa mudança também desafia a comunicação. Os grandes veículos cumprem um papel indispensável ao informar sobre riscos imediatos e orientar a população durante situações de emergência. Contudo, a cobertura hegemônica tende a espetacularizar a força da natureza e dedicar pouco espaço para investigar por que determinados bairros permanecem vulneráveis em que pesem sucessivos alertas.
Logo que as águas baixam, desaparecem as perguntas sobre quais obras nunca saíram do papel, quais planos de adaptação seguem sem financiamento, quais decisões foram adiadas e quais comunidades ainda vivem sob riscos conhecidos.
Ao concentrar a narrativa na excepcionalidade do fenômeno meteorológico, acabamos, muitas vezes sem perceber, naturalizando aquilo que é profundamente político. A crise climática não elimina a responsabilidade do poder público; ela a torna ainda maior.
Sem responsabilização, a adaptação climática corre o risco de produzir apenas novos mapas, novos planos e novos diagnósticos. O próximo evento extremo virá (a ciência não deixa dúvidas sobre isso). O que continua em disputa é outra coisa: até quando aceitaremos tratar como inevitáveis tragédias que, em grande medida, já estavam anunciadas?
*Pamela Mércia é fundadora do Instituto Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS), mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos pela UFRJ e pesquisa a omissão estatal diante das tragédias climáticas
*Mariana Franco Ramos é jornalista, mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos pela UFRJ e pesquisa desinformação climática