Uma avalanche de gelo e rochas provocada pelo colapso da parte inferior de uma geleira pode ter desencadeado a enchente que devastou uma região fronteiriça entre Nepal e o Tibete chinês nesta quarta-feira (26). O desastre provocou deslizamentos, soterrou prédios e deixou centenas de desaparecidos, muitos deles turistas estrangeiros. Ao menos 160 mortes já foram confirmadas.
Imagens de satélite da Planet Labs analisadas por especialistas indicam que uma parte da geleira, localizada a cerca de 5.200 metros de altitude, se desprendeu e caiu aproximadamente 1.200 metros até o fundo de um vale. A massa de gelo, rocha e sedimentos atingiu o curso de um rio e provocou uma onda de água e detritos.
Não ficou claro, contudo, o que causou o colapso da geleira. As causas ainda estão sendo investigadas.
“Está confirmado que uma parte substancial da ponta da geleira desabou, desencadeando o evento — provavelmente incluindo ou arrastando uma quantidade considerável de rochas e sedimentos”, disse Vikram Gupta, especialista em geologia de engenharia e professor da Universidade de Sikkim, na Índia.
Rastro de destruição
A enchente devastou localidades inteiras no Nepal e um vídeo de segurança mostrou um prédio de vários andares sendo arrastado por uma enxurrada de lama, enquanto seus moradores tentavam fugir no lado chinês da fronteira. A polícia nepalesa informou ter recuperado 157 corpos, enquanto socorristas tentam encontrar sobreviventes em uma área montanhosa e de difícil acesso, nas encostas do Himalaia.
A mídia estatal chinesa reportou mais cedo sobre “muitas vítimas” após a catástrofe e depois deu um balanço preliminar de três mortos e 265 desaparecidos.
Não está claro até o momento se havia alguma superposição entre os números chineses e os anunciados pelas autoridades nepalesas, pois a emissora estatal chinesa CCTV indicou que os dados das vítimas ainda estão em processo de verificação, ou seja, os números ainda podem aumentar conforme as equipes de resgate consigam acessar as áreas atingidas.
“Vi como as águas levaram pela frente oito ou nove caminhões, além de casas e pessoas”, contou Suman Chalise, professor de 34 anos, na localidade nepalesa de Nuwakot. “Foi absolutamente desolador (…) Fui testemunha de uma devastação de magnitude que nunca vi igual”, acrescentou.
O Ministério da Cultura, Turismo e Aviação Civil do Nepal informou que cerca de 403 turistas, 341 deles estrangeiros, seguem desaparecidos. Dentre eles, 142 indianos e turistas de Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Malásia, Países Baixos, Portugal, África do Sul e Coreia do Sul.

Intenso derretimento de neve
O cientista da Terra Dan Shugar, professor associado da Universidade de Calgary, afirmou que imagens de satélite indicam um intenso derretimento de neve nas 24 horas que antecederam o desastre.
“Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, explicou.
Shugar ainda afirmou que as obras realizadas no local também podem ter sido um fator e que “se as mudanças climáticas tiveram algum papel nisso, é algo que, sem dúvida, investigaremos em um futuro próximo”.
Ainda que as inundações e os deslizamentos sejam frequentes no Nepal e em todo o sul da Ásia na temporada das monções, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2023, as montanhas geladas do Nepal perderam quase um terço de seu gelo em pouco mais de 30 anos devido ao aquecimento global. A ONU já havia alertado que naquele ano, as geleiras do Nepalesas, situadas entre dois grandes emissores de carbono, no caso, Índia e China, derreteram 65% mais rápido na última década do que na anterior.

A avalanche
O distrito montanhoso de Rasuwa, uma das áreas mais atingidas pelas enchentes, abriga diversos empreendimentos hidrelétricos e tem aproximadamente 50 mil moradores. De acordo com a Agência Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal, o fenômeno aconteceu no rio Lhende após um deslizamento de terra registrado a cerca de 20 quilômetros a nordeste de um ponto de fronteira entre o Nepal e a China.
As primeiras informações levantaram diferentes hipóteses sobre o que teria provocado a avalanche e as inundações. Prakash Pokharel, geólogo da agência, porém, afirmou que as circunstâncias que deram início ao desastre ainda não foram completamente esclarecidas.
“As enchentes repentinas foram causadas por uma avalanche de gelo e rochas no lado nepalês”, disse Pokharel, após analisar imagens de satélite da Planet Labs.
O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas alerta que eventos extremos como enchentes, deslizamentos, avalanches e períodos de seca vêm se tornando mais frequentes e intensos na região do Hindu Kush-Himalaia. Para a organização, as rápidas transformações nas condições da água, do solo e da atmosfera representam uma ameaça crescente às populações que vivem na região.
Em comunicado divulgado nesta quarta-feira (26), o centro afirmou que a enxurrada provocou uma grande onda de água, sedimentos e rochas pelos sistemas dos rios Bhote Koshi e Trishuli. Na região de Galchhi, localizada rio abaixo, o nível da água teria aumentado em até nove metros em apenas 30 minutos.

As marcas da tragédia
David Fisher, diretor para o Nepal da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) afirmou que “povoados inteiros e zonas de mercados foram destruídos”. A organização está enviando suprimentos de emergência, entre eles cobertores, kits de primeiros socorros, macas e sacos para cadáveres.
O Exército nepalês realiza buscas aéreas e resgatou dezenas de pessoas no distrito de Rasuwa, um dos mais afetados, informou o governo. O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, fez um chamado à união, mas também pediu “paciência” à população.
“Quero assegurar-lhes que não estão sozinhos nestes momentos difíceis: o Estado está com vocês com todos os seus meios e recursos”, afirmou Shah em um comunicado publicado nas redes sociais.
Em Nuwakot, Raju Bhadel, de 56 anos, contou que seu cunhado tinha telefonado para ele esta manhã. “Estavam chorando e disseram que sua casa foi destruída. Três membros da família foram resgatados, mas seu irmão segue desaparecido”, relatou.
Qianggong Zhang, alto funcionário do Centro para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), encarregado de riscos climáticos e ambientais, alertou para a possibilidade de uma nova cheia.
“Dado que ainda há um bloco na parte alta do rio fronteiriço entre o Nepal e a China, as autoridades advertem que poderia ocorrer uma segunda enchente”, disse.