Renato Freitas: ‘Curitiba não aceita pessoas como eu no poder’

Deputado estadual afirma que processo de cassação na Alep é perseguição política, racial e institucional
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Por Cleber Lourenço

Alvo de processo de cassação em andamento na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o deputado Renato Freitas acredita que o resultado já está previamente definido e faz parte de uma perseguição política articulada para retirá-lo da disputa política no estado.

Em entrevista ao ICL Notícias, Renato acusa a existência de seletividade dentro da Casa, afirma que deputados envolvidos em denúncias graves seguem impunes e sustenta que o caso envolvendo a briga com um manobrista no Centro de Curitiba, em novembro de 2025, está sendo usado como instrumento político para cassar seu mandato.

O parlamentar reclama que as imagens usadas no processo foram editadas e descontextualizadas. Denuncia também que o governador Ratinho Júnior atua contra ele e diz que o Código de Ética da Alep foi criado sob medida para cassá-lo.

“Curitiba não aceita pessoas como eu no poder”, afirmou o deputado.

ICL Notícias – O senhor acredita que há uma tentativa de transformar uma briga de rua em pretexto para tirá-lo da política?

Renato Freitas – Com toda certeza. Todas as representações contra mim no Conselho de Ética têm como justificativa fatos que são cortinas de fumaça, muitas que ativam a memória racista e coletiva de que homens negros são naturalmente violentos ou criminosos. Mas o que todos os meus denunciantes têm em comum é o desejo de silenciar as denúncias que eu faço sobre os crimes deles.

Sobre o caso da briga em si, eu esclareci os fatos quando fui ouvido no Conselho de Ética. Falei exatamente o que aconteceu e uma análise séria dos fatos não foi feita porque não interessa, inclusive nem se deram ao trabalho de exigir as filmagens na íntegra porque a decisão de me cassar já estava tomada antes do desenrolar do processo. Qualquer outro deputado em condições parecidas seria acolhido como alguém que agiu em legítima defesa. O que querem é tirar o meu mandato e me deixar fora da disputa política.

ICL Notícias – O senhor vê seletividade no procedimento da Alep?

Seletividade e hipocrisia. Vejam o que aconteceu com o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Ademar Traiano: provei que é corrupto confesso e a punição dele foi presidir a CCJ, comissão mais importante da Casa, por onde passa tudo.

Mas ele é apenas um dos que cometeram crimes e ficaram impunes. O deputado Nelson Justus, por exemplo, que era o presidente da Alep na época do escândalo dos Diários Secretos, chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Paraná, mas nunca respondeu por nenhum dos crimes.

Tem deputado condenado por falso testemunho porque mentiu sobre um atropelamento provocado por ele, mas assumido pelo assessor. Tem deputado com áudios públicos de ameaça de morte contra a ex-esposa. Teve deputado que foi acusado pelo MP de assassinar um homem rendido e algemado.

E vários outros casos de deputados com processos na Justiça e denúncias graves, outros que fizeram acordos com o Ministério Público confessando algum crime para não responder em processo. Todos seguem impunes e ainda são, para a Assembleia, exemplos de integridade e decoro.

ICL Notícias – Na sua visão, esse processo seria diferente se o senhor não fosse um deputado negro, periférico e de esquerda?

Seria diferente se eu não representasse tudo que eles desprezam e odeiam. Mas também se eu me mantivesse calado e obediente aos senhores. Eu enfrentei os coronéis, isso é imperdoável.

ICL Notícias: O Conselho de Ética está julgando um episódio fora do exercício do mandato. O senhor acredita que estão criando um precedente para usar o decoro parlamentar como arma política?

Sim, estão criando um precedente perigoso, mas também sabemos que irão usar quando for conveniente dentro do jogo político feito por eles.

Como citei, há vários deputados com atitudes, falas e com processos na Justiça que nunca foram e nem serão representados no Conselho de Ética porque não desagradam as estruturas.

Essa é a razão que me faz acreditar que o Código de Ética aprovado no ano passado, o primeiro da história da Alep, foi feito sob medida para cassar o meu mandato.

ICL Notícias – O senhor sente que existe, dentro da elite política do Paraná, uma tentativa permanente de criminalizar sua atuação desde o episódio da Igreja do Rosário?

Com toda certeza, começando pelo governador Ratinho Júnior, que naquele momento se colocou contra mim e agora continua junto com a sua base na Assembleia, incluindo o deputado Ademar Traiano, ex-presidente da Casa, que provei que ele era um corrupto confesso.

Certa vez, um deputado bolsonarista subiu na tribuna para dizer que havia uma investigação em curso contra mim na inteligência da Polícia Militar.

Só este ano, eu já fui confrontado pela polícia do Paraná em duas situações. Em uma delas o agente me fez uma ameaça dizendo que eu não seria deputado pra sempre. Então, a perseguição contra a minha pessoa extrapola os muros da Assembleia e tem cúmplices em todos os poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

ICL Notícias – A defesa afirma que as imagens usadas contra o senhor estão recortadas e descontextualizadas. O que o vídeo completo mostraria que, segundo o senhor, desmonta a narrativa construída pelos adversários?

Os vídeos, por completo, poderiam mostrar que eu me defendi e defendi a minha família. O agressor jogou o carro em cima de mim e da mãe da minha filha, ainda em seu ventre.

As imagens mostrariam que no primeiro conflito, o Wesley me intimou pra briga e ainda assim não fui eu quem o golpeou e sim meu amigo Carlos.

Mostrariam o agressor vindo atrás do nosso carro, quando se inicia o segundo conflito onde, neste sim, eu entrei no confronto, acabei sofrendo uma fratura no nariz, mas consegui conter o agressor.

O vídeo exibido por eles foi entregue pelo próprio Wesley a sua defesa, está acelerado e contando a narrativa que eles querem contar.

ICL Notícias – Como a elite  do Paraná lida com a presença de um deputado negro, periférico e de esquerda ocupando esse espaço?

O Paraná, e especialmente a cidade de Curitiba, não quer pessoas como eu no espaço central, só me aceitam no fundão da periferia. Estar nas esferas de poder é ocupar o lugar que eles reservaram para eles e seus herdeiros.

É fácil inferir que a minha presença é alvo de rejeição quando olhamos para o histórico de Curitiba, por exemplo, que é uma das cidades com grande quantidade de células neonazistas mapeadas no Brasil.

Foi também a única capital que deu vitória a Plínio Salgado nas eleições presidenciais de 1955, uma figura que defendia o nazismo e criou um movimento para apoiar essa ideia.

Em 2022, Curitiba também foi uma das capitais que votou majoritariamente em Bolsonaro.

ICL Notícias: Caso a cassação avance, o senhor pretende levar o caso ao STF novamente?

Tomarei todas as medidas judiciais cabíveis. Há diversas violações de garantias justamente por se tratar de perseguição política. Nós acreditamos que um processo julgado com imparcialidade jamais nos condenaria à cassação.

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