Por Cleber Lourenço
A possibilidade de uma delação premiada envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro passou a circular com mais intensidade em Brasília nos últimos dias, impulsionada por movimentos recentes da própria defesa e por sinais emitidos no entorno do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em conversa com a reportagem, o advogado Roberto Podval afirmou que seguirá atuando na defesa de Vorcaro, mas não participará de qualquer negociação envolvendo colaboração premiada. “Sigo no caso mas não participarei de eventual delação”, disse.
A declaração ocorre em meio a uma inflexão no ambiente do caso. Na última terça-feira (17), o advogado José Luis Oliveira Lima, que também integra a defesa de Vorcaro, se reuniu com o ministro André Mendonça, do STF. Embora o encontro tenha sido tratado formalmente como protocolar, interlocutores apontam que a possibilidade de delação foi um dos temas abordados.
O simples fato de o assunto ter entrado na mesa foi suficiente para alterar o clima em Brasília. Nos bastidores do Judiciário e da política, a avaliação é de que a hipótese de colaboração deixou de ser apenas especulativa e passou a ser considerada, ainda que em estágio inicial.
Apesar disso, não há qualquer formalização de negociação. Até o momento, não foi apresentado pedido oficial à Polícia Federal ou à Procuradoria-Geral da República, que são as instituições responsáveis por conduzir e validar acordos de delação premiada.
Sondagem sobre acordo
O que existe, segundo relatos obtidos pela reportagem, é um movimento de sondagem. A defesa busca mapear quais seriam os termos exigidos, os limites da negociação e a disposição das autoridades em avançar com um eventual acordo.
Nos bastidores, a percepção é de que não haveria resistência prévia do ministro André Mendonça a uma eventual delação, desde que ela cumpra os requisitos legais. Ainda assim, o avanço esbarra em um ponto considerado crítico: a exigência de integralidade das informações.
Esse fator é visto como o principal entrave. Uma eventual colaboração teria que ser ampla e consistente, com potencial de alcançar autoridades com foro privilegiado — incluindo ministros do próprio Supremo. Esse cenário eleva o grau de sensibilidade do caso e aumenta o custo político de qualquer decisão nesse sentido.
É nesse contexto que a posição de Podval ganha peso. Ao permanecer na defesa, mas se afastar de qualquer tratativa de delação, o advogado estabelece um limite claro dentro da estratégia jurídica e sinaliza uma divisão de atuação no time que representa Vorcaro.
Na prática, a defesa passa a operar em duas frentes: uma mais cautelosa, que rejeita a via da colaboração, e outra que, ao menos, busca discutir cenários possíveis.
Por ora, não há acordo, proposta formal ou negociação efetiva em curso. Mas a combinação entre a reunião com Mendonça, a movimentação da defesa e o ambiente de pressão crescente indica que o tema deixou de ser periférico e passou a ocupar o centro do caso nos bastidores de Brasília.