Seis PMs são denunciados à Justiça por morte de jovem que protegia esposa grávida

Júnior César Rodrigues, que atirou por trás em Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, poderá responder por homicídio duplamente qualificado. Já Leonardo Machado Prudêncio foi denunciado pelo MP-SP pela prática de tortura
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Por Paulo Batistella — Ponte Jornalismo

Seis policiais militares (PM) foram denunciados pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) à Justiça estadual nesta quinta-feira (10/7) por envolvimento na morte de Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, um jovem de 22 anos baleado por trás em Piracicaba (SP) em 1º de abril deste ano, quando tentava proteger a esposa grávida de uma abordagem policial violenta. A informação foi divulgada pelo MP-SP.

Júnior César Rodrigues, que atirou na vítima, poderá responder por homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e impossibilidade de defesa) e fraude processual, se aceita a denúncia. Já Leonardo Machado Prudêncio foi denunciado por tortura — na ocasião da ocorrência, ele agrediu a esposa de Gabriel, Rebeca Alves Braga, de 20 anos, com uma tapa no rosto e puxões de cabelo, além de tê-la mantido sob violência psicológica no camburão de uma viatura. Os dois PMs haviam sido presos temporariamente em junho.

Outros quatro PMs poderão responder por coação no curso do processo e violação do direito de advogado. Em 10 de abril, conforme mostrou a Ponte, eles protagonizaram uma abordagem truculenta contra o advogado Gustavo Pires, presidente da Comissão de Direitos Humanos da subseção de Piracicaba da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), e um estagiário de seu escritório, o estudante de Direito Brunno Barbosa — ambos prestavam apoio à família de Gabriel e a outras testemunhas do episódio. Os policiais insistiram para que os dois entregassem seus celulares e chegaram a intimidá-los com um fuzil. Um deles ainda questionou Gustavo se ele havia “entendido o recado”.

A denúncia partiu do promotor de Justiça Aluisio Antonio Maciel Neto, da 2ª Promotoria de Justiça Criminal de Piracicaba, responsável também por pedir as prisões temporárias no curso do processo.

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Seis PMs foram denunciados pela covardia feita com Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva (Foto: Divulgação / Secretaria da Segurança Pública)

Jovem viu esposa ter cabelo puxado por PM

Na ocasião em que Gabriel foi morto, a vítima e a esposa voltavam para casa, por volta das 19h30, após terem ido a um comércio na vizinhança comprar refrigerante. O jovem caminhava um pouco à frente na Rua Cosmorama, próximo à esquina com a Rua Raul Ataíde, no bairro Vila Sônia, quando foi abordado por dois policiais que chegaram ao local a bordo de uma viatura — a mulher de Gabriel ainda tentava alcançar o marido também a pé, após ter parado para comprar milho cozido com um ambulante.

Além do jovem, os PMs abordaram um outro rapaz que passava pelo local, alheio ao casal. Os dois homens foram colocados de frente para um muro e revistados, sob a alegação de que teriam um “volume suspeito”. Em dado momento, o policial Júnior César passou a agredir Gabriel.

A esposa dele, já mais perto da cena, repreendeu o agente e afirmou que aquilo não era necessário. O segundo PM da ocorrência, Leonardo, que até ali cercava o outro homem abordado, veio então em direção à mulher grávida e passou a agredi-la, com empurrões e puxões nos cabelos.

Foi quando Gabriel tentou interceder pela esposa e acabou baleado: “O policial me deu um empurrão que eu bati as costas na parede. Nisso, o meu marido tentou se soltar do outro policial para vir me ajudar. Ele conseguiu e correu. Quando ele correu e virou, eu escutei o tiro”, contou Rebeca à Ponte em abril, então grávida de oito meses. À época, ela e Gabriel tinham também uma bebê com 11 meses de vida e um menino de seis anos.

Demora no socorro

A vítima chegou a ser levada ao Hospital dos Fornecedores de Cana, mas não resistiu. Rebeca diz que o socorro demorou cerca de 40 minutos e só veio por insistência dos vizinhos que presenciaram a cena — eles chegaram a filmar em parte a ocorrência. Já os policiais tiveram reforço em cinco minutos e isolaram o local para que ninguém se aproximasse de Gabriel. Enquanto isso, a mulher grávida foi mantida no camburão. “O policial [Leonardo] tirava sarro: falava que meu marido era um lixo, que estava morrendo, que ia ligar na central para a ambulância demorar mais tempo para chegar.”

A mulher grávida foi levada após a ocorrência a uma unidade de pronto-atendimento (UPA) na Vila Rezende, a sete quilômetros do local da morte de Gabriel, apesar de haver uma outra UPA a menos de um quilômetro, no próprio bairro em que ela mora — a distância impediu que familiares, também moradores da Vila Sônia, fossem acudi-la enquanto recebia atendimento médico. Em seguida, ela foi levada para a sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) em Piracicaba.

Os PMs alegam ter agido em legítima defesa. Segundo eles, Gabriel teria pego uma pedra para atacá-los durante a abordagem, o que vizinhos negaram. Na denúncia do Ministério Público, consta que Júnior César recolheu duas pedras do local para apresentar como se tivessem sido arremessadas, por isso a acusação de fraude processual.

PM intimidou vizinhança

Conforme mostrou a Ponte, desde a morte de Gabriel, viaturas da PM, incluindo da Força Tática e do 10º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), passaram a circular com maior frequência pelo bairro Vila Sônia, onde o jovem foi baleado, no que a vizinhança viu como uma tentativa de intimidação.

No dia 6 de abril, familiares e vizinhos do bairro fizeram um protesto em Piracicaba pedindo por justiça. Eles também penduraram faixas na esquina em que o jovem foi morto. Na ocasião, policiais foram filmados circulando com viaturas em meio ao ato. Os moradores relataram que os agentes teriam retirado parte das faixas colocadas no local. Teriam dito ainda que, se fossem recolocadas, voltariam a retirá-las.

Já no dia 20 de maio, conforme noticiou a Ponte, viaturas da PM-SP circularam novamente pela vizinhança, ocasião em que comerciantes tiveram de baixar portas de seus estabelecimentos. Mais uma vez, os policiais também retiraram de um muro cartazes que cobravam justiça por Gabriel.

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