Julien Lecot, 28 de outubro de 2026, “Libération”
Muito engajado na esquerda brasileira, o campeão mundial de 1994, Raí, relata ao “Libération” seu alívio e relembra a longa mobilização que permitiu impedir o retorno da extrema-direita ao poder.
Com um lápis na mão e um quadro branco atrás dele, no qual está desenhado um campo de futebol, Raí adota — em um vídeo publicado no Instagram na véspera da eleição presidencial no Brasil — um tom professoral: “Aqui [dentro do campo] está o campo democrático, dos direitos humanos. Tudo o que está fora disso é impedimento. Nem deveria poder participar”. Na lateral do campo, leem-se as palavras: “Racismo”, “golpe de Estado”, “machismo” e até “torturadores”.
Em contrapartida, no gramado, estão escritos os nomes de Lula e de seu companheiro de chapa,
Geraldo Alckmin — “pessoas que têm um pensamento inclusivo, que trabalham para todos”, assegura ele.
O ex-atacante do PSG (eleito o melhor jogador da história do clube em 2020) e campeão mundial de 1994 com o Brasil conclui de forma lógica: “Então, no dia 25 (de outubro), votem 13” — o número de candidato de Lula. O presidente em exercício responde nos comentários: “Nosso camisa 10! A estrela do jogo democrático”. “Vamos lá, pessoal!”
Assim como em 2022, Raí intensificou, nas últimas semanas, os apelos pelo apoio ao líder da esquerda brasileira. O empenho do recém-mestre em políticas públicas pela Sciences Po Paris acabou dando resultado: para a surpresa de todos, e apesar de uma desvantagem significativa no primeiro turno, Lula foi reeleito, no domingo, 25 de outubro, contra Flavio Bolsonaro.
Dois dias depois, ele — que divide sua vida entre Paris e São Paulo — relata ao Libération seu alívio, o orgulho de ter visto um “imenso movimento popular” barrar a extrema-direita, e a esperança de que essa dinâmica continue.

Imaginamos que a noite de domingo tenha sido intensa em emoções…
Raí – Sim. No início, eu estava muito tenso e ansioso. Depois, à medida que a apuração avançava, sentimos que a eleição estava pendendo para o lado certo. Eu estava com minhas filhas e
algumas amigas delas. Começamos a cantar, a nos preparar para comemorar. Mas, no momento em que soubemos que estava decidido — que Lula tinha sido eleito —, fiquei paralisado.
Não conseguia mover um músculo sequer. Só chorava. Pensei em tudo o que aconteceu nas últimas três semanas, nesse movimento popular que foi o mais belo e comovente da minha vida. E no que poderia ter acontecido se o resultado tivesse sido outro. Senti um alívio incrível.
Você sempre acreditou que ele poderia vencer?
Raí – Honestamente, depois do primeiro turno, eu, assim como muitos, tinha perdido um pouco a esperança. Ela voltou aos poucos. Com tudo o que vi durante as três semanas entre os dois turnos — esse imenso movimento popular, essa solidariedade, as manifestações massivas —, recuperei a fé.
Na manhã de domingo, eu tinha certeza de que o movimento era grande demais para não se refletir nas urnas. Se, por acaso, Lula não vencesse, seria por causa de manipulações: de todas as mentiras do clã Bolsonaro, das interferências de Trump e do escândalo envolvendo a Meta, que claramente tentou tornar Lula invisível.
Como você explica essa reviravolta, já que todos previam a derrota de Lula?
Raí – Foi, de fato, o povo que decidiu o rumo desta eleição. Graças a esses milhões de pessoas que foram às ruas para convencer outras sobre o perigo que os Bolsonaro representavam para o Brasil — e sobre a importância de votar. Foi um movimento massivo e plural.
Uma amiga me contou que, por meio de conversas, convenceu quatro ou cinco pessoas a votar em Lula. Cada um desses votos valia em dobro, pois significava também um voto a menos para o outro lado. Isso, repetido milhões de vezes por todo o país, mudou a dinâmica. Todos os pequenos esforços contaram.
Tivemos a prova de que os valores humanos — o amor — ainda triunfam sobre a máquina tecnológica e digital que impulsionou Flávio Bolsonaro. Mas também sobre a grande imprensa brasileira, que o apoiou amplamente, e sobre os Estados Unidos de Trump, que fracassaram em levá-lo ao poder.
O que uma vitória de Flavio Bolsonaro teria representado para você?
Raí – Teria sido terrível. Teríamos tido uma milícia — no sentido literal do termo — no poder. Com este Congresso, que agora lhe é particularmente favorável, teria sido muito fácil para Flavio destruir o que há de melhor em nossa sociedade. Teria sido a ascensão da violência; haveria consequências dramáticas para o meio ambiente, para a Amazônia e para as comunidades que lá vivem.
Meus amigos franceses me diziam, nestes últimos dias, que os Bolsonaro não representam o Brasil que eles imaginam, nem o Brasil que os faz sonhar. Mas quem venceu foi justamente aquele que faz o mundo sonhar: um Brasil belo, caloroso e único.
Apesar do balanço catastrófico de Jair Bolsonaro e do balanço positivo de Lula, metade dos brasileiros votou, ainda assim, em Flavio Bolsonaro. Como você explica isso?
Raí – Muitos votaram nele não porque concordam com suas ideias, mas porque já não acreditam na política. São pessoas cansadas da política tradicional, que não se sentem mais representadas e que acreditam ser essa a única maneira de mudar as coisas. A extrema-direita consegue tirar proveito disso.
Eu diria que talvez 20% ou 30% dos brasileiros votem, de fato, em Flavio Bolsonaro porque possuem valores egoístas, pensando apenas em si mesmos e no curto prazo. Mas os outros, aqueles que podem definir o rumo da eleição, fazem isso mais porque estão profundamente decepcionados e perderam a esperança. É um fenômeno que não é exclusivo do Brasil; ele é encontrado em várias partes do mundo. São essas as pessoas que conseguimos despertar entre os dois turnos.
O que Lula deve fazer para que esses brasileiros voltem a acreditar na política?
Raí – Acho que é preciso ir além de Lula. Ele é um líder histórico; devemos ser eternamente gratos pelo que ele fez pelo Brasil, pelas vidas que ele transformou. Mas o movimento social precisa continuar, precisa se organizar a longo prazo, pois foi ele quem fez toda a diferença.
Nos últimos anos, centralizou-se tudo demais em torno de Lula e do PT [o Partido dos Trabalhadores, que ele fundou em 1980 — nota da redação]. Com o tempo, isso gera rejeição à sua figura.
Durante a campanha, institutos de pesquisa testaram Lula contra candidatos nanicos, que tinham apenas 2% ou 3% das intenções de voto. O resultado era um empate técnico (50/50) em um eventual confronto direto, o que prova que o voto em Bolsonaro foi, na verdade, mais um voto de rejeição do que de adesão.
É também por isso que perdemos a maioria no Congresso. Agora, é preciso que surjam novas lideranças, capazes de sair da sombra de Lula. O fato de ele ter sido reeleito não significa que devemos parar. É preciso manter a pressão sobre um Congresso hostil e manifestar, nas ruas, exigências — tal como faz a sociedade francesa. No Brasil, fomos passivos demais diante das injustiças sociais; aceitamos, por vezes, coisas inaceitáveis. Isso não pode continuar.
Você vê semelhanças entre o atual movimento social na França e aquele que permitiu a vitória de Lula no Brasil?
Raí – Em ambos os casos, trata-se de um movimento massivo e espontâneo. Será preciso tempo
para estudar esses movimentos sob uma perspectiva sociológica e política. Para compreendê-los.
Há alguns anos, a França tem sido uma espécie de navio sem comandante.
Hoje, a sociedade tenta reagir à falta de estabilidade econômica e política no comando do país. Espero que tudo isso resulte, na França, na eleição — daqui a alguns meses — de alguém humanista, progressista e que defenda a democracia.
Além disso, será necessária uma luta global, mundializada — uma aliança entre governos progressistas — para combater a extrema-direita. Lula pode se tornar o símbolo dessa luta. Espero que o que aconteceu no Brasil sirva como um ponto de virada para a esquerda em todo o mundo.