Servidores da Abin veem risco de pressão dos EUA continuar após eleição no Brasil

Avaliação aponta sanções econômicas como principal risco no pós-eleição
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Por Cleber Lourenço

Servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que acompanham ameaças externas avaliam que a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil pode atravessar a eleição presidencial e entrar em uma nova fase depois das urnas, sobretudo se o resultado contrariar os interesses do governo de Donald Trump. A principal preocupação é com o uso de sanções e outras medidas econômicas contra setores estratégicos brasileiros.

A avaliação foi relatada ao ICL Notícias por integrantes da agência que acompanham o cenário internacional e atividades de contrainteligência. A leitura é de que uma escalada da interferência americana já está em curso e pode ganhar intensidade nos próximos meses. O recente vídeo divulgado pelo governo dos Estados Unidos evocando a Doutrina Monroe é visto como mais um sinal público de um movimento que já vinha sendo observado.

Na inteligência, interferência externa não significa necessariamente uma operação clandestina ou uma ação militar. O conceito envolve também propaganda, influência política e iniciativas de outros Estados capazes de atingir a soberania ou interesses estratégicos do país.

É a partir desse conceito mais amplo que os servidores enxergam o atual movimento americano. A avaliação considera declarações de Trump e de integrantes de seu governo, a retomada de uma política mais agressiva para a América Latina e a atuação de governos da região alinhados a Washington.

A preocupação imediata está na eleição. A de médio prazo, no que pode acontecer depois dela.

Eleição é vista como uma etapa da escalada

Um dos cenários considerados prováveis é o aumento de ações destinadas a desgastar e deslegitimar Lula durante a campanha. Nesse processo, governos latino-americanos politicamente próximos a Trump poderiam funcionar como amplificadores de ataques ao presidente brasileiro.

A Argentina de Javier Milei aparece com destaque nessa avaliação. A mudança no tom dos ataques do presidente argentino contra Lula é interpretada como um possível sinal desse movimento. Existe ainda a possibilidade de outros governos alinhados aos Estados Unidos aderirem a uma retórica semelhante.

O risco analisado não se limita à figura de Lula. À medida que a disputa eleitoral avançar, a avaliação é de que ataques podem passar do candidato para o próprio processo eleitoral, inclusive com questionamentos sobre a segurança e a legitimidade do sistema eletrônico de votação.

A lógica analisada é que uma narrativa construída antes da votação poderia continuar sendo utilizada depois dela caso o resultado não interesse a Washington, que na visão desses servidores seria mais favorável a Flávio Bolsonaro e contra a reeleição de Lula.

É nesse ponto que a eleição deixa de ser vista como o fim da atual tensão e passa a funcionar como uma espécie de divisor de águas.

Uma eventual reeleição de Lula é considerada o cenário de maior atenção. A avaliação é de que a permanência de um governo brasileiro politicamente distante da atual política externa americana poderia levar Washington a buscar outros instrumentos para pressionar Brasília.

Pressão econômica é considerada o principal risco

Entre os cenários analisados para o período posterior à eleição, uma ação militar direta dos Estados Unidos contra o Brasil é considerada extremamente improvável, embora não seja descartada por completo.

A avaliação leva em conta não apenas as dimensões territoriais e a complexidade do Brasil, mas também a situação militar dos próprios Estados Unidos. Washington já mantém uma frente de conflito aberta com o Irã, que exige recursos militares e financeiros e impõe dificuldades para a abertura de uma nova operação de grande porte.

Uma ofensiva contra o Brasil exigiria ainda uma mobilização muito maior. Além de ter dimensões continentais, o país reúne mais de 200 milhões de habitantes e uma estrutura econômica, institucional e territorial que tornaria extremamente difícil sustentar uma operação militar e controlar seus efeitos.

Por isso, embora os Estados Unidos tenham capacidade militar muito superior à brasileira, a avaliação não é de que uma guerra convencional seja o caminho mais provável para ampliar a pressão sobre Brasília. Os custos financeiros, militares, diplomáticos e políticos de uma nova frente seriam elevados demais.

A pressão econômica aparece como um instrumento muito mais plausível.

Sanções, tarifas, restrições comerciais ou medidas direcionadas a empresas e setores específicos poderiam ser usadas para aumentar o custo econômico do confronto político e levar o governo brasileiro a uma negociação.

Três áreas aparecem com destaque nessa avaliação: segurança alimentar e agronegócio, energia — especialmente petróleo — e minerais estratégicos.

As terras raras recebem atenção especial. Esses minerais são fundamentais para setores de alta tecnologia, indústria de defesa, energia renovável, veículos elétricos e equipamentos eletrônicos e se tornaram um dos elementos centrais da disputa internacional por cadeias estratégicas de produção.

A avaliação é de que uma eventual pressão não precisaria atingir toda a economia brasileira de uma só vez. Restrições contra empresas ou segmentos considerados estratégicos poderiam produzir efeitos internos e, ao mesmo tempo, criar incentivos para uma negociação entre Brasília e Washington.

O tamanho e a integração internacional da economia brasileira, porém, também funcionam como limitadores. Sanções amplas teriam potencial para atingir empresas e países que mantêm relações simultaneamente com Brasil e Estados Unidos, ampliando os custos políticos e econômicos da medida para além dos dois países.

Por isso, o cenário considerado mais plausível é o de medidas seletivas, capazes de pressionar setores sensíveis sem provocar uma ruptura econômica generalizada.

A leitura também considera o histórico recente de Trump. Desde que retornou à Casa Branca, o presidente americano tem recorrido a tarifas, ameaças comerciais e restrições econômicas como instrumentos de negociação internacional.

Nesse contexto, a hipótese considerada é menos a de um confronto direto e mais a de uma tentativa de elevar progressivamente o custo econômico da resistência brasileira até abrir espaço para negociação.

O vídeo sobre a Doutrina Monroe ganhou importância justamente por se encaixar nesse quadro mais amplo. A doutrina, formulada no século XIX, estabeleceu a América como área de interesse estratégico dos Estados Unidos e foi usada historicamente como fundamento político para a expansão da influência americana sobre o continente.

Para os servidores que acompanham o cenário, portanto, a principal pergunta já não é apenas até onde a pressão americana pode avançar antes da eleição brasileira.

É o que Washington poderá fazer depois dela.

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