Por Cleber Lourenço
A sucessão de José Múcio no Ministério da Defesa começa a ganhar forma no governo Lula. Três nomes aparecem como os mais prováveis para assumir a pasta a partir de 2027: Cinara Wagner Fredo, atual secretária-geral do ministério; Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; e Maria Elizabeth Rocha, presidente do Superior Tribunal Militar (STM). A escolha, ainda em estágio preliminar, envolve divergências dentro do governo sobre a relação com as Forças Armadas e a necessidade de mudanças na política militar brasileira.
Múcio formalizou sua intenção de deixar o cargo logo após o segundo turno das eleições. O ministro já havia manifestado o desejo de sair em outras ocasiões, mas acabou convencido por Lula a permanecer. Desta vez, a avaliação é de que sua saída será definitiva, abrindo a primeira grande discussão sobre a composição da equipe do quarto mandato do presidente.
Cinara é a candidata defendida por Múcio e representa a possibilidade de continuidade da atual gestão. Sua indicação, porém, enfrenta resistências entre integrantes do governo e do próprio PT, que avaliam que a condução do ministério nos últimos anos foi excessivamente subordinada às demandas dos comandantes militares.
A crítica é que Múcio teria atuado mais como um intermediário entre os comandos das Forças e o Palácio do Planalto do que como responsável por uma política de Defesa capaz de promover mudanças estruturais na relação entre militares e poder civil. Inclusive teria o apelido de “despachante” pelos críticos.
Entre os pontos de insatisfação estão a ausência de reformas na formação militar, a falta de medidas mais incisivas para limitar a participação de integrantes das Forças Armadas na política e a paralisação da proposta de emenda à Constituição apresentada pelo próprio governo para estabelecer restrições às candidaturas de militares.
A PEC previa regras para a transferência de militares à reserva quando decidissem disputar eleições. A proposta acabou sem avançar no Congresso, em meio à falta de empenho do próprio governo. Múcio também se posicionou contra a iniciativa nos bastidores.
A resistência a Cinara alcança uma ala do PT que conta com a participação do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-ministro da Defesa. Há também uma avaliação é de que a sucessão deveria representar uma oportunidade de rever a condução política do ministério, em vez de simplesmente preservar a estrutura montada por Múcio.

Maria Elizabeth e Márcio Elias aparecem como alternativas
Maria Elizabeth Rocha é vista como uma alternativa capaz de dar outro perfil ao Ministério da Defesa. Primeira mulher a presidir o STM, ela tem se destacado pela defesa da legalidade constitucional e da subordinação das Forças Armadas ao poder civil.
Seu nome também aparece com frequência nas especulações sobre futuras indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF). A trajetória no Judiciário militar e suas posições públicas sobre a atuação das Forças Armadas são consideradas credenciais para conduzir discussões que não avançaram durante a gestão de Múcio.
Sua eventual nomeação também atenderia ao interesse de setores do governo em ampliar a presença feminina no primeiro escalão. Maria Elizabeth seria a primeira mulher a comandar o Ministério da Defesa desde a criação da pasta, em 1999.
Márcio Elias Rosa, por sua vez, surge como outra alternativa a Cinara. Atual titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), ele tem participado de discussões estratégicas envolvendo o tarifaço norte-americano, terras raras e políticas industriais, temas que também possuem implicações para a soberania nacional e a indústria de Defesa.
Sua indicação contaria com o apoio do vice-presidente Geraldo Alckmin, que deve retornar ao comando do MDIC no próximo governo. O próprio Alckmin chegou a ser mencionado em especulações sobre a Defesa, mas, segundo informações obtidas pela reportagem, não houve conversas formais com integrantes do governo sobre sua eventual transferência para a pasta.
Tanto Márcio Elias quanto Maria Elizabeth são considerados, por integrantes do governo, nomes com maior disposição e condições políticas para enfrentar o debate sobre a relação entre civis e militares, uma questão que permaneceu sem solução estrutural durante o atual mandato.
Apesar das movimentações, as conversas sobre a sucessão ainda são preliminares. Não há definição de Lula sobre seu próximo ministro da Defesa nem indicação de que algum dos três nomes tenha recebido convite formal.
A única decisão considerada consolidada até agora é a saída de José Múcio. A escolha de seu substituto deverá indicar se Lula pretende manter a política de acomodação com os comandos militares adotada nos últimos anos ou aproveitar o novo mandato para retomar mudanças na formação, na atuação política e na subordinação institucional das Forças Armadas ao poder civil.