Uma mulher está fazendo uma caminhada política. No meio do caminho, ela leva uma pedrada. Parece história de regimes teocráticos, certo? Mas, infelizmente, falo do Brasil de 2026. Em época de eleições apertadas, mais uma vez, os principais alvos de fúria e maldade são as mulheres, que recebem pedradas metafóricas e até literais.
Não é exagero ou força de expressão. Semana passada, uma candidata a deputada estadual pelo PSOL, a advogada Ruana Bezerra, foi atacada com uma pedra em Ouricuri, município do sertão de Pernambuco, durante uma caminhada de campanha.
O caso de Ruana, que foi levada ensanguentada para um hospital, ilustra de maneira explícita como mulheres que fazem parte da cena política (seja como candidatas, primeiras damas ou jornalistas) são tratadas em épocas de.eleiçōes: a pedradas, metafóricas e reais.
Poucos dias antes, outra política do PSOL foi vítima de ataques: a vereadora e candidata à deputada estadual de Belo Horizonte Iza Lourença teve seu escritório político atacado por um artefato explosivo. Além disso, ela denunciou que bandeiras foram roubadas e que membros da campanha teriam sido agredidos. Segundo ela, os agressores seriam ligados à a apoiadores de Flávio Bolsonaro, do PL.
A violência pode vir até de agentes públicos. Caso da candidata a suplente na chapa de Décio Lima, do PT, ao senado por Santa Catarina. Ela foi detida, atacada por balas de borracha e spray de pimenta. Os PMs que a atacaram foram condecorados. Sim, você agride uma mulher e, por isso, recebe uma medalha. Deprimente.
Os casos ilustram uma tendência que só cresce. Quanto mais mulheres entram na política e conquistam espaço à força, mais a violência aumenta. Segundo dados do TSE, os casos de violência política de gênero cresceram 11 vezes em quatro anos. Até 22 de setembro, 177 casos desse tipo de violência já haviam sido registrados esse ano. Entrar na política, para mulheres, é um ato de extrema coragem e uma atitude até arriscada, já que, de alguma forma ou de outra, provavelmente você será atacada.
Jornalistas atacadas
As pedradas, muitas vezes, são virtuais. Enquanto mulheres candidatas eram agredidas nas ruas por ousarem fazer política, jornalistas mulheres sofriam ataques misóginos nas redes sociais a exemplo do que aconteceu em 2022, quando a violência misógina explodiu nas redes sociais patrocinada até pela máquina do estado, na época dominada pela família Bolsonaro.
Depois de informar na Globonews que bispos da Igreja Católica estariam preocupados com o futuro de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil (o que virou uma grande polêmica) e de ter a informação desmentida pelo próprio canal, a jornalista Maria Cristina Fernandes passou a sofrer ataques misóginos em massa nas redes. “Vagabunda”, “essa aí é uma vaca” foram algumas das mensagens recebidas por ela. Homens jornalistas, vamos lembrar, não sofrem esse tipo de violência moral.
Maria Cristina não foi a única, obviamente.
Segundo monitoramento feito pela Coalizão em Defesa do Jornalismo, só entre 16 e 29 de agosto, foram registrados 2.630 ataques direcionados a jornalistas. Em cada três jornalistas atacados, duas eram mulheres. Nas eleições, esses ataques crescem exponencialmente e viram arma política.
Uma das jornalistas mais atacadas nessas eleições é a colega e colunista e repórter do ICL Juliana Dal Piva, que se tornou, entre os dias 30 de agosto e 12 de setembro, a jornalista brasileira mais atacada no “X” (antigo Twitter), de acordo com a Coalizão em Defesa do Jornalismo.
Em seu perfil no Instagram, ela desabafou:“Quando começamos a planejar a cobertura da eleição de 2026, eu logo senti que precisava me preparar psicologicamente para reviver muito trauma.Não costumo falar disso porque me recuso a me colocar no papel de vítima, meu lugar é de repórter, mas infelizmente, sim, já fui vítima de muita violência por simplesmente exercer o meu trabalho e isso me deixou traumas”. Ela contou que e violência explodiu depois dela publicar uma matéria sobre o áudio de Nikolas Ferreira com Daniel Vorcaro. “Já tinha lidado com incentivos ao suicídio, mas essa foi a primeira vez que, para mim, chegou a questão da agressão sexual. É tudo nojento demais.”
Infelizmente, entendo mais do que gostaria o que a colega está passando. Isso porque também tenho meus traumas relacionados ao meu trabalho como jornalista. Em 2022 sofri ataques em massa nas redes. Memes me comparavam a bichos e monstros, fotos da minha família foram expostas e recebi ameaças de morte. Resultado: desenvolvi transtorno pós traumático, comprovado em laudo pela minha terapeuta.
Nada disso é mimimi. É violência. É crime. “O que você está sofrendo é um ataque feito por profissionais. O trabalho deles é esse”, me disse um especialista em segurança digital do Repórter Sem Fronteiras de Berlim depois de examinar o meu computador.
É preciso parar de naturalizar esses absurdos e de chamar os ataques pelos nomes certos: violência política contra mulher. Ou seja, crime. Isso não deveria, jamais, ser tratado como “ossos do ofício”. Pense nisso antes de compartilhar a foto de uma jornalista onde ela aparece propositalmente em um ângulo ruim nas redes sociais. Isso também é violência.