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A convenção nacional do PT que aclamou o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva para sua sétima disputa presidencial — com chances reais de conquistar uma quarta vitória — foi, de longe, a mais diferente de sua carreira. E por um motivo que pode ter passado despercebido por quem acompanhou o evento, seja presencialmente, no Expo Center Norte, em São Paulo, seja pelas redes sociais, na manhã deste domingo: Lula se apresentou em uma disputa sem adversários. Corre sozinho, em um páreo sem obstáculos.

Antes do discurso principal, o presidente foi precedido por algumas apresentações artísticas — dispensáveis — que pareciam constar na programação apenas para disfarçar o óbvio: todos estavam ali para ouvi-lo e, mais do que isso, para saber o que ele tinha a dizer.

Também discursaram, de forma breve para que o público chegasse inteiro ao prato principal da conferência, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, o ex-ministro e candidato ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad, e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Nenhum deles citou Flávio Bolsonaro (PL), escolhido pelo pai como candidato à Presidência. Nem de forma direta, nem indireta. Houve, aqui e ali, referências ao legado de Jair Bolsonaro — o pai —, como a condução da pandemia de Covid-19 ou o retorno do Brasil ao mapa da fome, mas sem mencionar o nome do ex-presidente ou de seu filho, candidato da extrema direita.

Era esperado, porém, que Lula estabelecesse algum contraponto ao projeto de país representado por Flávio Bolsonaro e seus aliados.

Não foi o que aconteceu.

Durante mais de uma hora, o presidente falou como se sequer tivesse um adversário na disputa. Abordou a violência contra a mulher, a proteção aos idosos, a geração de emprego e renda para os trabalhadores mais pobres. Tocou no tema da soberania nacional — que se imaginava central neste primeiro momento da campanha —, falou sobre defesa nacional, investimentos na proteção das fronteiras, inteligência artificial e as obras do PAC. Enumerou, sem pressa, as realizações de seus governos e os planos para um eventual quarto mandato, sem fazer uma única referência a Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou qualquer outro nome da extrema direita, incluindo o governador Tarcísio de Freitas. Tampouco dedicou qualquer menção aos demais candidatos à Presidência.

Para quem já derrotou José Serra, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro nas urnas e protagonizou disputas históricas contra os dois Fernandos — Collor e Henrique Cardoso —, Lula parece ter como principal preocupação nesta eleição lembrar os brasileiros de seu legado e convencer o eleitorado de que ainda tem mais a oferecer. É uma questão legítima para quem se pergunta o que um presidente em seu terceiro mandato ainda pode entregar ao país.

Em uma das raríssimas campanhas em que não precisa se defender de acusações de toda ordem, nem enfrentar adversários carismáticos ou eleitoralmente competitivos, Lula chega, talvez pela primeira — e certamente pela última — vez como candidato tendo como principais adversários o desgaste natural de uma sétima disputa presidencial, o crescente desinteresse da população pela política e os resquícios de um antipetismo que ainda permitem que um candidato ungido pelo pai — e dotado do carisma de uma colonoscopia em um sábado de manhã — alcance cerca de 30% das intenções de voto.

Parecem obstáculos modestos para quem já venceu a fome na infância, enfrentou a ditadura na juventude e sobreviveu a uma prisão arbitrária na velhice. O tetra de Lula já não parece um sonho distante.

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