Romeu Zema diz que chamar regime militar de ditadura é ‘questão de interpretação’

Comissões e entidade ligadas aos direitos humanos rechaçaram a relativização da ditadura militar
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O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) afirmou, em entrevista à Folha de S. Paulo, que classificar como ditadura o regime militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985 é uma “questão de interpretação”.

Zema também disse que caso seja eleito presidente da República concederá indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro, se ele for preso. “Tiveram sequestradores e assassinos que receberam anistia, não foi? Agora você não vai conceder?”, argumentou.

No entendimento do governador mineiro, o indulto a Bolsonaro seria comparável à anistia concedida a militantes de esquerda.

Ao ser questionado diretamente sobre sua opinião a respeito da existência de uma ditadura no Brasil, respondeu: “Acho que tudo é questão de interpretação”. Em outro  momento, disse:“Eu não sou historiador, nunca me aprofundei. Prefiro não responder, porque acho que há interpretações distintas”.

Zema mira os votos dos bolsonaristas em uma eventual campanha à Presidência da República. Ele disse que não disputaria a eleição contra o ex-presidente, mas não descartou entrar na corrida caso o candidato da direita seja um dos filhos de Bolsonaro ou a ex-primeira-dama Michelle.

“Se ele for [candidato], com toda certeza a direita vai trabalhar unida. Agora, se for um filho, já é um tanto quanto diferente”, declarou.

Zema
Perseguição policial a opositor do regime militar

Entidades reagem à fala de Zema

Aos jornalistas Juliana Arreguy, Arthur Guimarães de Oliveira e  Bruno Ribeiro, da Folha de S. Paulo, comissões e entidade ligadas aos direitos humanos rechaçaram a relativização da ditadura militar feita pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), ao tratar o regime como “questão de interpretação”. Para os grupos, houve desrespeito às vítimas e oportunismo do político, que tenta se viabilizar candidato a presidente em 2026.

O regime militar (1964-1985) teve uma estrutura dedicada a tortura, mortes e desaparecimento. Os números da repressão são pouco precisos, já que a ditadura nunca reconheceu esses episódios. Auditorias da Justiça Militar receberam 6.000 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos.

Presos relataram terem sido pendurados em paus de arara, submetidos a choques elétricos, estrangulamento, tentativas de afogamento, golpes com palmatória, socos, pontapés e outras agressões. Em alguns casos, a sessão de tortura levava à morte.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade listou 191 mortos e 210 desaparecidos pela ditadura. Outros 33 desaparecidos tiveram seus corpos localizados posteriormente, num total de 434 pessoas.

Presidente da Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Ana Maria de Oliveira disse que o governador mineiro “deveria ter mais cautela ao falar de um estado ditatorial que matou, violou, prendeu e assassinou um monte de gente”.

Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, observou que Zema ocupa cargo eletivo, algo “impossível” durante o período.

“É inaceitável que quem ocupa um cargo público eleito, algo impossível durante o regime militar, se permita relativizar os horrores de um período no qual a própria existência da política democrática era criminalizada. Tratar a ditadura como questão de interpretação, como se houvesse alguma subjetividade possível, não só escancara o oportunismo e o desrespeito à memória das vítimas, como ignora processos históricos reconhecidos por instituições e tratados internacionais de direitos humanos”, disse Sottili.

Governador relativiza mortes e estupros

Eugênia Gonçalves, que preside a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério dos Direitos Humanos, creditou a fala de Zema à falta de conhecimento sobre o tema.

“Demonstra um desconhecimento muito grande, porque eu não acredito que ele consiga relativizar mortes de mulheres de 18, 19 anos, estupros seguidos, pessoas grávidas no pau de arara, não é possível que ele defenda, que ele relativize uma coisa desse jeito”, afirmou.

Ana Maria de Oliveira também criticou o fato de Zema ter comparado indulto a anistia e afirmou que há “uma diferença brutal” entre os dois mecanismos.

A anistia, uma espécie de “perdão”, impede a punição a quem cometeu determinados crimes. A lei de 1979, um dos marcos do período final da ditadura, concedeu anistia a crimes políticos, permitindo o regresso de militantes que viviam exilados no exterior, mas deixando impunes os agentes repressores da ditadura. No mês passado, a ex-presidente Dilma Rousseff foi reconhecida como anistiada política por sua atuação de enfrentamento ao regime.

Segundo Oliveira, a anistia é concedida “àqueles que lutaram contra o estado ditatorial e por eles foram perseguidos”. Já o indulto, prerrogativa do presidente da República que perdoa pessoas já condenadas, afeta o cumprimento da pena, mas não anula a condenação.

“Se o governador está dizendo que pode dar indulto ou qualquer coisa do gênero [a Bolsonaro], ele pode dar perdão, mas não anistia”, declarou ela.

El Salvador e Milei

Zema tem buscado associar sua imagem à de líderes conservadores latino-americanos. Na última semana, ele visitou El Salvador, onde elogiou o programa de segurança do presidente Nayib Bukele, que comete abusos contra os direitos humanos.

Ele também declarou admiração pelo presidente argentino Javier Milei, embora rejeite a ideia de aplicar um “tratamento de choque” no Brasil. “O que falta é coragem, não fórmula”, sintetizou.

 

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