STEM: como o Brasil compete na disputa global por cientistas

Com cortes nos EUA e avanço da China, Brasil aposta em investimento para trazer cientistas brasileiros de volta e fortalecer a pesquisa científica nacional
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A disputa por profissionais em STEM nunca foi tão intensa. Enquanto potências como os Estados Unidos cortam investimentos em ciência e tecnologia, outros países aproveitam o momento para trazer talentos de volta e fortalecer suas áreas de inovação.

Nessa virada do jogo científico mundial, o Brasil precisa decidir qual será seu papel: protagonista ou espectador. Aqui vamos entender quais são os desafios e oportunidades da educação e pesquisa em STEM no país, desde os problemas da educação básica até os programas recentes de retomada de investimentos.

O que é STEM?

STEM é a sigla em inglês para Science, Technology, Engineering and Mathematics, que em português significa Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Um fato curioso sobre o termo é que ele surgiu nos Estados Unidos na década de 1990 na National Science Foundation, mas foi inicialmente conhecido como SMET e mudou para STEM apenas 11 anos depois, em 2001, quando ganhou projeção no mundo todo.

Para entender melhor como o conhecimento científico impacta a sociedade, é importante entendermos que profissões nessas áreas são estratégicas para a economia nacional e, consequentemente, têm papel relevante na competitividade global.

Hoje, instituições como CNPq e CAPES desempenham papel essencial no incentivo à pesquisa científica e tecnológica no Brasil. Na educação básica, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Reforma do Ensino Médio abriram espaço para que os estudantes direcionem seus estudos e aprofundem interesses específicos. Esse movimento, consequentemente, gera oportunidades para o desenvolvimento de habilidades em STEM e para a formação de novos cientistas brasileiros.

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STEM reúne áreas estratégicas para a economia e competitividade global do Brasil. Imagem: I Do Code
STEM reúne áreas estratégicas para a economia e competitividade global do Brasil. Imagem: I Do Code

Educação STEM no Brasil

A educação STEM no Brasil enfrenta desafios estruturais que vão desde a qualidade do ensino de ciências na educação básica até a formação continuada de professores, ainda limitada e desigual entre regiões.

É assim que vemos um retrato claro: a popularização da ciência avança, mas de forma lenta em um cenário que foi agravado pela drástica redução de investimentos em pesquisa e bolsas desde 2015. Segundo dados apresentados pelo Observatório do Conhecimento, as perdas com cortes orçamentários em fomento à pesquisa científica e tecnológica chegaram a R$ 83 bilhões quando olhamos para a janela de tempo entre 2015 e 2021.

Porém, o auge dessa perda está nos quatro anos do governo Bolsonaro que representaram um desvio significativo no avanço da Educação brasileira.

O período foi marcado por omissão e retrocessos, com cinco ministros diferentes, ausência de planejamento e pouco apoio a estados e municípios – especialmente durante a pandemia. Afinal, ao invés de políticas focadas em aprendizagem e estrutura, prevaleceram pautas ideológicas que resultaram não só em perda de tempo, mas também aprofundaram os desafios da Educação Básica no país.

Apenas 17% dos graduados brasileiros são formados em áreas STEM, segundo relatório da OCDE. Foto: Fundação Toyota do Brasil 
Apenas 17% dos graduados brasileiros são formados em áreas STEM, segundo relatório da OCDE. Foto: Fundação Toyota do Brasil

Pesquisa científica no Brasil

A pesquisa científica brasileira vive um momento de instabilidade e desafios estruturais que impactam diretamente a carreira de cientistas brasileiros. Para compreender o cenário atual, é fundamental entender como funciona o financiamento da ciência no país e quais são os principais desafios enfrentados pelos pesquisadores.

O FNDCT e o financiamento da ciência

O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), criado em 1969, é o principal instrumento de financiamento da pesquisa no Brasil. O orçamento do FNDCT para 2025 foi de R$ 14,7 bilhões, representando um aumento de 16% comparado com 2024.

Historicamente, o FNDCT sofreu com contingenciamentos recorrentes. Durante anos, bilhões de reais autorizados pelo Congresso foram bloqueados pelo Executivo para cumprir metas fiscais, como por exemplo a necessidade de respeitar o teto de gastos imposto pela Emenda Constitucional (EC) 95/2016, que obrigou o governo a limitar despesas mesmo em áreas estratégicas.

Esse movimento gerou tanta instabilidade que forçou cientistas brasileiros a desenvolverem pesquisas sem ter garantia de continuidade dos recursos, prejudicando o planejamento de longo prazo da comunidade científica.

A EC 95/2016 também foi chamada de "PEC da Morte", apelido dado por opositores que criticavam o congelamento de gastos públicos por 20 anos, incluindo saúde e educação, corrigidos apenas pela inflação. Imagem: Levante Popular da Juventude
A EC 95/2016 também foi chamada de “PEC da Morte”, apelido dado por opositores que criticavam o congelamento de gastos públicos por 20 anos, incluindo saúde e educação, corrigidos apenas pela inflação. Imagem: Levante Popular da Juventude

CNPq, CAPES e as fundações estaduais

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) são as principais agências de incentivo à pesquisa no Brasil.

Enquanto o CNPq financia projetos de pesquisa e bolsas em todas as áreas do conhecimento, o CAPES foca na formação de professores e na pós-graduação.

Complementando a atuação do governo federal, as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) estaduais são muito importantes para o financiamento regional da ciência. Estados como São Paulo (FAPESP), Rio de Janeiro (FAPERJ) e Minas Gerais (FAPEMIG) mantêm programas próprios de bolsas e financiamento de projetos, criando oportunidades adicionais para cientistas brasileiros desenvolverem suas pesquisas.

Saiba mais: Brasil tem 17 cientistas em lista dos mais citados do mundo, 1 a mais do que em 2024

Investimento STEM no Brasil

O Brasil enfrenta um duplo desafio em relação aos profissionais STEM: formar quantidade suficiente de especialistas e, ao mesmo tempo, evitar que talentos qualificados deixem o país em busca de melhores oportunidades.

Diante da diáspora científica brasileira, o governo federal lançou em 2024 uma das mais ambiciosas iniciativas de atração de talentos da história recente do país: o Programa Conhecimento Brasil. O programa investirá R$ 604 milhões na contratação de 599 projetos de pesquisadores que estavam atuando no exterior ou que tenham concluído doutorado ou pós-doutorado fora do país a partir de 2019.

E já está dando resultado.

Lançado em julho de 2024, o programa Conhecimento Brasil já realizou duas chamadas e mostrou a dimensão do interesse da comunidade científica no exterior: mais de 2.500 pesquisadoras e pesquisadores brasileiros, espalhados por 56 países, manifestaram vontade de retornar ao país ou colaborar com instituições e empresas nacionais.

A maior parte dos cientistas brasileiros virá dos Estados Unidos (12,8%), Alemanha (7,3%), França (4,6%), Portugal e Inglaterra (4,1% cada), onde atuam em instituições de prestígio internacional, como Harvard, Karlsruhe, Oxford, Cambridge, Lisboa e Porto.

Programa nacional busca trazer de volta 599 pesquisadores brasileiros que atuam no exterior. Imagem: TV Brasil
Programa nacional busca trazer de volta 599 pesquisadores brasileiros que atuam no exterior. Imagem: TV Brasil

A competição global por profissionais

A disputa internacional por talentos em ciência e tecnologia aumentou em 2025, criando uma nova corrida no mapa global pela inovação. Uma conjunção inédita de fatores transformou o cenário: cortes massivos no financiamento científico nos Estados Unidos, políticas de imigração restritivas em diversos países e investimentos agressivos de nações emergentes.

Para áreas de STEM, esse ambiente criou uma reconfiguração completa do mapa de oportunidades, abrindo espaço para que países como o Brasil atraiam pesquisadores mais qualificados.

O exemplo mais próximo, e que personifica todo o cenário, foram as recentes atitudes da administração Trump em 2025 – uma das maiores reduções de financiamento científico da história recente dos Estados Unidos.

Mais de 3.800 bolsas de pesquisa ligadas ao NIH (National Institutes of Health) e à NSF (National Science Foundation) foram encerradas ou congeladas. No NIH, quase 2.500 projetos perderam acesso a cerca de US$ 2,3 bilhões que já estavam reservados, mas acabaram bloqueados. Na NSF, mais de 1.300 bolsas tiveram um corte total de aproximadamente US$ 700 milhões.

Em outras palavras, milhares de pesquisas foram paralisadas porque o dinheiro previsto simplesmente deixou de chegar aos pesquisadores. E os cortes não foram aleatórios.

O governo começou a compilar listas de palavras-chave para buscar e eliminar bolsas relacionadas a DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), o que levou ao cancelamento de pesquisas, simplesmente, porque usavam o prefixo “trans-“, como em “material transgênico” ou “transdução de sinal”.

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Na foto, Brenda Pedrosa Brito, de Curitiba (PR), venceu o Microsoft Office Specialist World Championship. Imagem: Certiport
Na foto, Brenda Pedrosa Brito, de Curitiba (PR), venceu o Microsoft Office Specialist World Championship. Imagem: Certiport

China, ciência e tecnologia

Nesse contexto global de competição por talentos STEM, a China emergiu como protagonista indiscutível, transformando-se de “fábrica do mundo” em potência de inovação tecnológica. A trajetória chinesa demonstra como investimentos estratégicos e planejamento de longo prazo podem reconfigurar o equilíbrio científico global em poucas décadas.

A metamorfose da China não foi acidental. Em 2006, o governo lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia de Médio e Longo Prazo, estabelecendo metas ambiciosas até 2020 para posicionar o país na liderança de setores estratégicos como Energia Limpa, Inteligência Artificial e Telecomunicações.

Um exemplo que veio a partir deste plano nacional foi o próprio “Made In China”, lançado em 2015, que definiu dez eixos tecnológicos prioritários.

Reflexo direto disso é que, segundo o Índice Global de Inovação (GII), divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual em 2025, o país subiu do 14º lugar em 2020 para o 10º em 2024.

Nesse período, também quase dobrou seu número de empresas de alta tecnologia – de pouco mais de 270 mil para mais de 500 mil, resultado de uma política estável e de longo prazo que fortalece verdadeiramente o ambiente científico.

O Brasil enfrenta um momento decisivo para a educação e pesquisa em STEM.

Após anos de cortes orçamentários e instabilidade que custaram bilhões ao setor científico nos últimos anos, o país começa a retomar investimentos estratégicos. O Programa Conhecimento Brasil representa um passo importante nessa direção, com investimento voltado a trazer de volta pesquisadores brasileiros que atuam no exterior.

Entretanto, atrair talentos é apenas parte do desafio. Para consolidar o Brasil como polo de inovação em STEM, é fundamental fortalecer a educação básica e melhorar a formação de professores em todo o país.

O aumento no orçamento do FNDCT para 2025 é um sinal positivo, mas a verdadeira transformação dependerá do compromisso sustentado com a ciência.

É assim que os próximos anos vão ditar quem investiu no caminho correto e vai colher os frutos para o futuro. Afinal, cabe a nós decidir se seremos protagonistas dessa nova era ou apenas espectadores da inovação que acontece em outros lugares.

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