Ao longo das últimas duas décadas, a China passou de uma economia considerada industrial e dependente de produtos de baixo valor agregado para um dos maiores polos globais de ciência e tecnologia, disputando diretamente com os Estados Unidos a liderança em novas tecnologias.
Esse movimento também reflete uma estratégia nacional que coloca pesquisa e desenvolvimento no centro da política econômica chinesa.
O resultado é uma transformação da narrativa que reposicionou o país como protagonista na disputa China x EUA, vista por especialistas como uma “corrida espacial do século XXI”, só que agora travada com chips, IA e poder computacional – e não mais foguetes.
Vamos entender por que o aumento dos investimentos chineses em P&D (pesquisa e desenvolvimento) é parte essencial dessa disputa e como isso afeta, na prática, o cenário geopolítico e econômico do mundo.
A trajetória econômica da China
Para compreender a competição EUA x China, é necessário olhar para a trajetória econômica chinesa desde os anos 1980.
Segundo o National Bureau of Statistics (NBS) da China, em 1995 o produto interno bruto (PIB) nominal da China e do Brasil eram realmente muito próximos. Hoje, a China tem a segunda maior economia do mundo, e em algumas métricas de poder de compra, por exemplo, já ultrapassa os EUA.
Essa transformação impressionante não se deu por acaso.
Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia da China (MOST), o país formou mais de 3,5 milhão de profissionais em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) por ano, tornando-se o maior formador de engenheiros do mundo.
Esse avanço impressionante não aconteceu só porque a economia cresceu, mas porque a China fez um planejamento claro para isso. O país colocou a inovação e a formação de profissionais no centro de sua estratégia.
Com muito investimento em educação, políticas que ajudam a indústria e objetivos tecnológicos bem definidos, a China conseguiu abrir caminho para se tornar uma das maiores potências do mundo. Mas como? Vamos entender.

Como a China virou líder em tecnologia?
Durante muitos anos, a China foi vista principalmente como a “fábrica do mundo”: um país especializado em manufatura de baixo custo, montando produtos projetados em outros lugares.
Mas esse estereótipo específico começou a se dissipar a partir dos anos 2000, quando o governo chinês passou a colocar ciência e tecnologia no centro do desenvolvimento do país.
Foi nessa época, por exemplo, que a China se tornou o segundo maior produtor de artigos científicos do mundo, ainda na década de 2010 – além de abrigar empresas que se tornaram líderes globais em telecomunicações, computação pessoal, supercomputação e energias renováveis.
Além disso, esse avanço científico também caminhou junto com o crescimento do investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Segundo dados compilados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e analisados pelo projeto ChinaPower do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade Georgetown (CSIS), a China elevou seu gasto em P&D de pouco mais de 1% do PIB no início dos anos 2000 para mais de 2,6% em 2023.
Esse investimento maciço em tecnologia e inovação produziu bons resultados.
Quando falamos sobre a corrida com os Estados Unidos, vemos que desde 2015 a China ocupa o primeiro lugar mundial em pedidos de patentes, com mais de 1,6 milhão de depósitos em 2023 – e muito à frente do país norte-americano.
E é justamente nesse contexto que surge uma das estratégias mais importantes da última década.
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Made in China 2025
O Made in China 2025 é um plano estratégico lançado pelo governo chinês em 2015 para transformar o país de uma economia baseada na produção barata e mão de obra abundante em uma verdadeira potência industrial de alta tecnologia.
Em outras palavras: é o projeto que define como a China quer deixar de ser apenas “a fábrica do mundo” e passar a produzir tecnologia avançada, competir com países como Alemanha, Japão e Estados Unidos e dominar setores estratégicos.
Lançado oficialmente em 2015, o plano tem como objetivo transformar o país em líder global em setores estratégicos, incluindo:
- Robótica
- IA e computação avançada
- Semicondutores
- Equipamentos aeroespaciais
- Veículos elétricos
- Novos materiais
- Biomedicina
Entre os setores escolhidos, apenas veículos elétricos e IA aplicada deram frutos de verdade até aqui.

Veículos elétricos da China
No setor dos veículos elétricos, a China virou protagonista global de forma incontestável e mais recentemente passou a dominar a cadeia de baterias (extração, refino e montagem).
Assim, montadoras como BYD, SAIC e, Geely já ameaçam a hegemonia de suas concorrentes ocidentais e hoje lideram o mercado interno de carros elétricos e híbridos do mundo.
É dessa forma que mais um “check” é dado na lista do Made in China 2025 e o plano se converteu em liderança industrial com impacto visível nas exportações, na balança comercial e na disputa tecnológica com os EUA e a Europa.
A IA e as telecomunicações da China
Um dos eixos mais importantes do “Made In China 2025” foi a união entre telecomunicações de ponta como 4G e 5G – e o uso crescente de inteligência artificial aplicada.
Ao mesmo tempo, a China desenvolveu um dos ambientes mais avançados do mundo em pagamentos digitais, reconhecimento de imagem e sistemas de recomendação, colocando a IA no centro do dia a dia da população.
Essa combinação criou uma base enorme de dados e aplicações reais que impulsionam o desenvolvimento de novas tecnologias, mesmo com sanções e limitações dos Estados Unidos.
O resultado não é apenas mais patentes ou novos laboratórios, mas um ecossistema completo: desde as redes até os próprios dispositivos, nuvem, plataformas e modelos de inteligência artificial que unem tudo isso.

Huawei, DeepSeek e Estados Unidos
Para entender por que tanto se fala em “corrida tecnológica” entre China e Estados Unidos, precisamos voltar ao básico: os dois países disputam quem vai liderar as tecnologias que moldam o futuro.
Afinal, quem domina essas áreas ganha poder econômico, militar e influência global.
Mas de onde surgiu o início dessa corrida tecnológica?
Durante décadas, os Estados Unidos foram o centro da inovação mundial. As maiores empresas de tecnologia do planeta são americanas – Google, Microsoft, Meta e as mais recentes líderes de IA, como OpenAI e Anthropic.
A China, por outro lado, cresceu muito rápido e passou a investir pesado para competir.
Mas esse avanço assustou o governo americano, que começou a impor sanções para impedir que empresas chinesas comprassem os chips mais avançados do mundo – especialmente as unidades de processamento gráfico da americana NVIDIA, essenciais para treinar modelos de IA.
É neste cenário que nasce a Huawei, a gigante chinesa que começou com telecomunicações, mas precisou começar a desenvolver seus próprios servidores depois que os EUA bloquearam o acesso da Huawei a componentes americanos.
Hoje, a Huawei é a potência da infraestrutura tecnológica da China, já que produz chips nacionais, fornece redes e data centers, oferece serviços de nuvem e sustenta plataformas de IA. Em outras palavras: ela virou o “plano B” da China para escapar das restrições dos EUA.
E também é nesse cenário que surge a cooperação entre Huawei e DeepSeek onde a Huawei fornece a infraestrutura e a DeepSeek desenvolve modelos de IA competitivos mesmo com limitações de hardware.
Juntas, elas formam um ecossistema tecnológico totalmente doméstico, reduzindo a dependência da China de empresas americanas e fortalecendo sua posição na corrida global.
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Do chão de fábrica ao comando da tecnologia mundial
A ascensão tecnológica da China não é algo ao acaso, nem de um simples ciclo econômico favorável, mas sim é resultado de um projeto nacional bem estruturado, sustentado por planejamento de longo prazo, investimento maciço em P&D e formação de milhões de profissionais qualificados.
Com isso, o país deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” para se tornar protagonista de uma nova disputa global: a corrida espacial da era da inteligência artificial.
Afinal, o que vemos hoje é uma competição que ultrapassa fronteiras econômicas. Trata-se de quem vai ditar os rumos das tecnologias que moldam sociedades, mercados de trabalho e relações de poder.
Para o mundo, isso significa uma reconfiguração profunda das cadeias produtivas, da geopolítica digital e da própria ideia de soberania tecnológica. A corrida está em curso e, diferentemente do século XX, não se trava no espaço, mas nos dados e na inteligência artificial que costura tudo isso.