Por Iago Filgueiras*
Leonardo Boff é um dos mais influentes teólogos e intelectuais do Brasil. Sua trajetória de luta pelos oprimidos colocou os marginalizados e o cuidado com o planeta Terra no centro do debate público e tem influenciado gerações de filósofos e religiosos.
Crítico do capitalismo e inspirador de movimentos populares, chegou a ser censurado pelo Vaticano em virtude de suas obras.
Neste artigo, você vai descobrir como Boff ajudou a redefinir o papel da espiritualidade no debate público contemporâneo e como seu pensamento segue central para discutir os problemas éticos do nosso tempo.
Quem é Leonardo Boff?
Genézio Darci Boff, mais conhecido como Leonardo Boff, é um teólogo, escritor e professor universitário, reconhecido mundialmente por suas contribuições aos direitos humanos e ecologia.
Neto de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no século XIX, Boff nasceu em Concórdia, no oeste catarinense, em 14 de dezembro de 1938.
O teólogo é um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, que colocou os pobres no centro do Evangelho e estabeleceu a libertação humana como prática religiosa. Suas ideias revolucionárias renderam a ele condenações no Vaticano, que o levaram a abandonar o clero, mas nunca o compromisso com os oprimidos.
Primeiros anos e infância
Leonardo Boff nasceu em uma família numerosa no interior de Santa Catarina. Como era comum entre descendentes de imigrantes, o português não foi sua primeira língua. Até os 10 anos, falava italiano, idioma presente no cotidiano doméstico e comunitário.
Desde cedo, conviveu com práticas educativas voltadas às classes populares. Seu pai, Mansueto Boff, era professor e ensinava português a partir das experiências concretas da vida no campo, além de manter uma escola para adultos com conteúdos práticos essenciais ao trabalho agrícola.
Já sua mãe, Regina Boff, não era alfabetizada, mas se comunicava em italiano e português. Mesmo sem dominar as letras, sabia muito e demonstrava gratidão pelos conhecimentos que a vida havia lhe dado e pela educação dos onze filhos.
Quando Genézio virou Leonardo — o ingresso na vida religiosa
A vocação religiosa surgiu cedo. Aos 11 anos, após ouvir pregações de um frade sobre Santo Antônio e São Francisco de Assis, Boff sentiu-se chamado à vida religiosa e ingressou no seminário. Ali, teve contato com figuras que marcariam a história da Igreja no Brasil, como Dom Paulo Evaristo Arns, mais tarde arcebispo de São Paulo e referência na defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar.
Sua formação inicial foi rigorosa. Fez o noviciado em Santa Catarina, estudou filosofia em Curitiba e teologia em Petrópolis. Em 1959, ingressou na Ordem dos Frades Menores e foi ordenado frei franciscano em 1964, quando passou a adotar o nome Leonardo.
Boff tornou-se franciscano, em parte, por ser a única ordem presente na região onde vivia. Com o tempo, porém, foi na espiritualidade de São Francisco de Assis que encontrou os fundamentos de sua opção pelos pobres e de seu compromisso com a ecologia, elementos centrais de sua obra.
Sua formação inicial, fortemente voltada para a Igreja, enfatizava uma visão política que se voltava para a própria instituição, em detrimento de uma perspectiva crítica sobre a realidade social brasileira. No entanto, foi durante seus estudos no exterior que essa perspectiva se transformou.
Leonardo Boff e a Teologia da Libertação
A Teologia da Libertação é uma corrente teológica que surgiu na América Latina, a partir da década de 1960. Ela se consolidou em um momento de maior abertura da Igreja para os problemas do mundo contemporâneo e a realidade social fora da Europa. Nessa corrente, a opção é pelos pobres e a pobreza não é mera fatalidade, mas uma injustiça histórica a ser enfrentada.
Foi entre 1965 e 1970, durante seu doutorado em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique, na Alemanha, que Leonardo Boff passou a ter contato com uma teologia mais voltada para a realidade social. Lá, conheceu a teologia política, a Teologia da Libertação e teve contato com exilados políticos que fugiam dos regimes autoritários latino-americanos.
O ponto de virada
Na Europa, Leonardo Boff aprendeu sobre a teologia progressista, teve contato com a obra de Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação, e formulou uma visão crítica da prática teológica. Mas foi no Brasil que toda sua bagagem foi colocada à prova.
Nos anos de 1970, durante uma pregação para missionários e religiosos da Amazônia, Boff se deparou com perguntas incômodas:
- Como anunciar a ressurreição de Jesus para um povo indígena que está morrendo?
- Como falar sobre a justiça cristã para os povos da floresta que estão sendo exterminados pelo avanço do garimpo e das grandes empresas?
Foi ali que Leonardo Boff percebeu que a prática teológica deveria partir da realidade concreta dos atores envolvidos. E em um continente marcado pela exploração, opressão e em meio a diversos golpes militares, que realidade era essa?

A obra que influenciou a Teologia da Libertação
Leonardo Boff é autor de uma das obras mais influentes da Teologia da Libertação: Jesus Cristo Libertador, publicada em 1971, em plena ditadura militar brasileira.
No livro, Boff rompe com uma fé abstrata e desloca o cristianismo para a realidade concreta da América Latina. Para ele, a fé não pode ser neutra diante da fome, da violência e da desigualdade: ou se compromete com os oprimidos, ou trai o próprio evangelho.
Em Jesus Cristo Libertador, Cristo é apresentado como alguém que confronta estruturas injustas e anuncia a libertação histórica. A salvação, portanto, não se restringe ao além, mas começa no enfrentamento das opressões que negam a dignidade humana.

A pressão do Vaticano
A expansão da Teologia da Libertação rapidamente chamou a atenção da hierarquia da Igreja Católica e provocou a reação de setores mais conservadores. A ideia de libertação dos oprimidos, aliada à organização das Comunidades Eclesiais de Base como forma de aproximar a Igreja dos pobres, passou a ser vista como uma nítida “ameaça comunista”.
Em 1981, Leonardo Boff publicou o livro Igreja: Carisma e Poder, questionando a estrutura hierárquica da Igreja Católica e propondo uma prática teológica mais horizontal, com maior participação dos fiéis e centralidade dos pobres. Três anos depois, o livro desencadeou a abertura de um processo no Vaticano para avaliar a conduta do então frei franciscano.
O caso foi analisado pela então Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), órgão herdeiro do antigo Tribunal do Santo Ofício, responsável historicamente pelo julgamento de heresias. À frente da Congregação estava o cardeal alemão Joseph Ratzinger, que anos mais tarde se tornaria o papa Bento XVI.
Em 1985, Boff foi oficialmente notificado pelo Vaticano, em documento assinado pelo papa João Paulo II. A decisão impôs a proibição de reedições do livro Igreja: Carisma e Poder e aplicou ao teólogo a chamada pena do “silêncio obsequioso”, que o impedia de falar e escrever publicamente sobre suas ideias.
A saída de Leonardo Boff da vida clerical
Em 1992, Leonardo Boff deixou o sacerdócio, mas não abandonou seu compromisso com os oprimidos. A decisão antecipou novas sanções do Vaticano e foi consequência direta de uma prática teológica marcada pela crítica social e pela opção preferencial pelos pobres, que há décadas incomodava setores conservadores da Igreja.
Pioneiro na incorporação da questão ecológica à Teologia da Libertação, Boff ampliou o campo do debate religioso ao articular justiça social e crise ambiental. No mesmo ano, participou da Rio 92, conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento. Durante uma palestra, criticou o caráter beligerante das religiões abraâmicas, o que desencadeou nova pressão do Vaticano, incluindo a proposta de outro período de “silêncio obsequioso”, dessa vez, fora do Brasil.
Diante desse cenário, Boff desligou-se da Ordem Franciscana, assumiu o estado de leigo e passou a viver publicamente sua relação com a educadora e militante dos direitos humanos Márcia Monteiro da Silva Miranda, abraçando também a paternidade dos cinco filhos que ela teve.
Leonardo Boff — política e críticas ao capitalismo
A visão de mundo de Leonardo Boff capta como poucas a relação profunda entre experiência humana, fé e política. Ao se colocar ao lado dos oprimidos e defender um Evangelho que desloca os marginalizados para o centro da vida cristã, Boff assumiu posição clara na disputa social e ideológica do seu tempo.
Por isso, a crítica ao capitalismo ocupa um lugar central no pensamento e está relacionada à sua compreensão ética e espiritual do mundo. Para Boff, trata-se de um sistema estruturalmente insustentável: quando tudo se converte em mercadoria, inclusive a vida humana e a natureza, a desigualdade se aprofunda e a dignidade é corroída.

Ao combinar a fé com a justiça social, Boff defende que a espiritualidade é inseparável das condições materiais da existência humana. A experiência religiosa não é completa se ela ignora a fome, a violência e a precarização da vida. Essa compreensão o levou a uma atuação pública constante, em diálogo com movimentos populares, pastorais sociais e organizações de base. O teólogo aprendeu com os povos indígenas, ajudou seringueiros e apoiou sem-terras.
Sua influência, ao lado de outros teólogos da libertação como Frei Betto, foi fundamental para a consolidação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que atuaram como espaços de resistência durante a ditadura militar e impactaram no surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).
Esse engajamento político tem levado o teólogo a ser constantemente atacado por setores conservadores e reacionários.
Veja mais: Frei Betto: um símbolo de resistência e esperança na América Latina
Leonardo Boff é marxista?
Leonardo Boff e a Teologia da Libertação são frequentemente acusados de adaptar o marxismo ao cristianismo, crítica que costuma vir acompanhada de acusações de heresia e ideologização da fé por setores conservadores da Igreja e da política.
Boff não nega o diálogo com Karl Marx, mas afirma que sua referência central é o Evangelho e a prática de Jesus Cristo. A Teologia da Libertação adota a “dupla mediação”, método que articula ciências sociais e hermenêutica bíblica (a interpretação dos textos religiosos) para compreender a realidade concreta dos pobres e reinterpretar a fé a partir dela.
Seu compromisso com os oprimidos se inspira em Jesus, nos profetas bíblicos como São João Batista e em São Francisco de Assis. O pensamento marxista não substitui a fé, mas contribui para ampliar a compreensão da pobreza como fenômeno histórico e social, e não como destino individual.
A ecoteologia de Leonardo Boff
Para Leonardo Boff, a Teologia da Libertação foi o grito dos pobres, o chamado para que os marginalizados pudessem ser ouvidos. Mas na modernidade, há um outro grito que também precisa ser escutado: o da Terra.
A degradação ambiental, portanto, não é um problema isolado, mas uma consequência de um modelo de sociedade baseado na dominação da natureza e na busca incessante por lucro.
Em 1994, Boff lançou o livro Ecologia: Grito da Terra, grito dos pobres, considerado um dos primeiros a articular ecologia e teologia. Na obra, ele sustenta que a exploração da natureza e dos pobres faz parte de uma mesma lógica, que transforma o planeta em terra arrasada e aprofunda desigualdades sociais. Não há separação possível entre justiça social e justiça ecológica.

O teólogo propõe uma ética do cuidado com a “Casa Comum”, conceito que expressa a interdependência entre humanidade, natureza e espiritualidade. Em 2000, Boff integrou o comitê responsável pela elaboração da Carta da Terra, documento internacional que estabelece princípios éticos para uma sociedade sustentável, solidária e comprometida com as futuras gerações.
A ecoteologia formulada por Boff é um desdobramento da própria Teologia da Libertação. Se antes o foco estava nos pobres, agora ela incorpora também o que ele chama de “o Grande Pobre”: a Terra, historicamente explorada e vítima de uma lógica predatória de desenvolvimento.
Esse pensamento, que articula ecologia, ética e espiritualidade, influenciou o pontificado do papa Francisco. Na encíclica Laudato si’, Francisco reforça a ideia central de Boff: não há justiça social possível em um planeta devastado.
Veja mais: Leonardo Boff: a gênese do amor pelo mundo
Livros de Leonardo Boff
Com mais de cem livros publicados, alguns em coautoria, as obras de Leonardo Boff são profundamente atravessadas por sua preocupação com a justiça social, com uma Igreja que acolha os pobres e os oprimidos e por uma visão de mundo que entende a libertação como ação prática capaz de construir a liberdade.
Obras marcantes
Jesus Cristo Libertador
Releitura de Jesus a partir da realidade dos pobres e oprimidos, situando o cristianismo na história e na política. A obra rompe com leituras dogmáticas e se torna um dos pilares da Teologia da Libertação.
Teologia do Cativeiro e da Libertação
Análise das estruturas econômicas, sociais e religiosas que produzem opressão na América Latina. Boff propõe a teologia como instrumento crítico voltado à emancipação humana e à transformação das condições históricas da desigualdade.
Igreja: Carisma e Poder
Crítica à hierarquia da Igreja Católica e à concentração de autoridade como obstáculo à vivência comunitária da fé. O livro defende uma Igreja mais horizontal e popular e motivou o processo que levou ao silenciamento de Boff.
Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres
Articulação entre injustiça social e crise ambiental, tratadas como expressões da mesma lógica de dominação e lucro. A obra consolida a ecoteologia como eixo central do pensamento de Leonardo Boff
A Águia e a Galinha
Em linguagem acessível, reflete sobre identidade, opressão e potencial humano a partir de uma metáfora africana. O livro defende que a libertação passa pelo reconhecimento da dignidade e da capacidade de transformação individual e coletiva.
Por que Leonardo Boff importa hoje
O legado de Leonardo Boff ultrapassa a teologia e o consolida como referência ética, política e cultural no Brasil e no mundo. Suas reflexões influenciaram o cristianismo latino-americano e ajudaram a inserir fé, justiça social e responsabilidade histórica no debate público.
Sua atuação impactou movimentos populares, comunidades de base e práticas pastorais da Igreja, especialmente durante o pontificado do papa Francisco. Mais do que teólogo, Boff é um intelectual público que provoca debates incômodos, questiona estruturas de poder e desnaturaliza a desigualdade.
Seu pensamento articula espiritualidade, política e cuidado com a vida, dialoga com diferentes tradições religiosas e sustenta a busca por um mundo mais justo, fraterno e solidário.
Boff também é fundador e presidente do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, criado em 1979, para realizar, apoiar, assessorar e orientar iniciativas que contribuam para a concretização dos Direitos Humanos nas sociedades.
Assista: Chico Pinheiro Entrevista – Leonardo Boff
Premiações e reconhecimento
Ao longo de sua trajetória, Leonardo Boff foi reconhecido internacionalmente por sua atuação em defesa dos direitos humanos, dos oprimidos e marginalizados. Ele recebeu o título de doutor honoris causa em Política pela Universidade de Turim, na Itália, e em Teologia pela Universidade de Lund, na Suécia. Além disso, recebeu diversas premiações:
- Prêmio Internacional Alfonso Comin (1987) – concedido pela fundação Alfonso Comin e pela prefeitura de Barcelona, por seu trabalho em prol dos marginalizados
- Prêmio Nacional dos Direitos Humanos (1992) – concedido pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos
- Prêmio Sergio Buarque de Holanda (1994) – conferido pela Biblioteca Nacional à obra Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres
- Prêmio Right Livelihood Award (2001) – por sua contribuição à justiça social, aos direitos humanos e à ecologia
Retomar Boff é olhar o mundo com mais amor
A trajetória de Leonardo Boff é a história de alguém que se coloca ao lado dos oprimidos, que foi calado por apontar verdades incômodas e que, mesmo com atribulações, se mantém na trincheira ao lado daqueles que mais precisam
Em uma sociedade marcada por desigualdades, retomar o pensamento de Boff é fundamental para imaginarmos um novo mundo, em que a lógica predatória de exploração dê lugar à fraternidade, ao acolhimento e ao bem-viver.
O livro Reflexões de um velho teólogo e pensador, escrita pelo próprio Leonardo Boff é um ótimo ponto de partida para se aprofundar em sua visão de mundo. Ler Boff é, antes de tudo, um convite a encarar os conflitos do presente sem atalhos morais, reconhecendo que não há espiritualidade possível sem compromisso com a dignidade humana e com o futuro do planeta.
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*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu