Bad Bunny e a lição óbvia: Somos América

Uma aula de geografia também para o Brasil
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“Soy loco por ti America / Soy loco por ti de amores”.

José Carlos Capinan – Gilberto Gil

 

O último Super Bowl é o assunto mundial desde que o rapper Bad Bunny subiu ao palco para o show do intervalo. Tanto pelo fato de ter irritado profundamente o presidente estadunidense, que se porta feito criança mimada brincando em um jogo de tabuleiro com o mapa-múndi, quanto pelas impressionantes referências trazidas de América Latina.

Cantando em meio a um cenário que emulava um canavial, o “Coelhinho Mau” deu uma aula de geografia ao citar cada um dos países que compõem as Américas do Norte, Central e Sul; e de história, pela presença da plantação de cana. Tudo isso entre 12 e 15 minutos.

No dia seguinte ao show, fiz uma postagem bem-humorada que viralizou, parabenizando a professora de geografia do artista portorriquenho, mas o Brasil — esta nação de proporções continentais — sempre teve dificuldades em se enxergar como parte de uma América Latina falante de espanhol em sua maioria. Não por acaso, a pensadora Lélia Gonzalez detectou esse afastamento e cunhou o termo “amefricana”.

Todavia, a barreira linguística não parece maior do que o muro erguido por décadas de propaganda cultural estadunidense. A nação brasileira, que em séculos tinha países europeus como referências, no pós 2ª Guerra Mundial passou a ter os Estados Unidos como o topo a ser alcançado. Para isso trabalharam o cinema, a música, as artes em geral. Em torno deste novo parâmetro se reuniram as mídias, a moda, as expressões e gírias linguísticas que adotaram um sem-fim de palavras em inglês. Ser latino era ser melodramático, era ter um certo atraso, era não estar na dianteira do mundo.

Para o ensino de idiomas estrangeiros, no Brasil o inglês e o francês se alternaram na preferência por séculos. Nunca o espanhol, apesar sermos uma ilha cercada de “hermanos y hermanas por todas as partes”.  Um longo caminho foi percorrido até as aulas de espanhol também serem opções de aprendizado nas provas e nas escolas públicas; para que as novas gerações pudessem enxergar os pontos de conexão, por exemplo, na diáspora africana que nos formou e no pertencimento dos povos originários que repartem tantos territórios como a floresta amazônica, que é brasileira, peruana e venezuelana. Um tesouro compartilhado e que, para o bem da humanidade inteira, precisa ser preservado em cooperação.

É relativamente recente a visão massiva de que a latinidade — este pertencimento que o Brasil não enxergava bem sem determinados marcadores estereotipados —, também é parte estruturante do que somos nós, brasileiros e brasileiras. E esse afastamento se dá — é bom encarar este fato — não apenas pela língua, mas em enorme medida pelos grandes nacos de negritude e povos originários que nos definem.

Pertencimentos étnico-raciais são complexos, mas há quem não consiga encarar a vida sem que seja como um grande quarto, em que nada pode existir fora de prateleiras.  Um exemplo são nossas “classificações” pelo mundo. Já vi resenhas nos Estados Unidos que me classificam na gaveta de “escritora afro-latina”. Sou isso também, mas não apenas.  A “afro-latinidade” isolada não me resume. A ela soma-se o Brasil e toda a sua rica multiplicidade que contribuiu enormemente para a construção da América para a qual Bunny pediu benção… em inglês: “God bless America”. Toda ela. Não apenas o pedaço de terra onde acontecia aquela competição esportiva.

Colocar-se no continente sem arrogância não é tarefa apenas dos estadunidenses, estes que por vezes parecem agir como se o sol girasse em torno do umbigo deles, tragando para si o título “americanos”, ignorando com força os vizinhos continentais. Às vezes acusando suas presenças, sim, mas como povos que devem subserviência a eles.

Olhar os 54 países americanos como soberanos, cheios de história, riquezas e direitos de existir é também tarefa de quem nasceu sob a bandeira verde e amarela, uma bandeira cujo mastro está fincado em solo da América.

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