Uberização: o neoliberalismo e precarização do trabalho a apenas um clique

Entenda a Uberização: os aplicativos chegaram para prometer empreendedorismo e facilidade aos trabalhadores brasileiros, mas o que se vê na prática é a precarização do trabalho
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Quais são os limites em trabalhar para um algoritmo?

Depois da reforma trabalhista, consolidada por Michel Temer em 2017, é muito provável que você já tenha escutado que você “trabalha quando quer” ou até mesmo “você é seu próprio chefe e define seus horários”. Frases como essas se tornaram slogans informais do trabalho realizado por meio das plataformas digitais.

Mas, quando você olha para o que organiza a rotina, a renda e as punições, aparece um outro fator: a gestão do algoritmo, sem transparência e com risco jogado no trabalhador. O que chamamos na sociedade contemporânea de uberização, um modo de reorganizar o trabalho comandado pelas plataformas digitais de mãos dadas com a lógica neoliberal de flexibilização de direitos, que individualiza responsabilidades e protege o lucro.

O trabalhador não entra em um emprego, mas sim em um fluxo de tarefas, muitas vezes gamificado. Isso dificulta a reivindicação coletiva e amplia a competição entre trabalhadores, com as plataformas digitais modulando a oferta e a demanda e mostrando quem manda no jogo.

O que é uberização do trabalho

A uberização é um modelo de gestão e contratação mediado pelas plataformas digitais, que reconfigura a relação entre quem vende sua força de trabalho e quem detém os meios de produção. Pela superfície, a plataforma te trata como um parceiro que escolhe quando ligar ou desligar o aplicativo. Mas, na prática, é o aplicativo que define o acesso às chamadas, distribuição do trabalho, regras de visibilidade, critérios de ranqueamento e até mesmo punições.

O termo se tornou popular em referência ao modelo de gestão escalado pela Uber, que se estende para aplicativos de entrega, serviços, cuidados, entre outros serviços. A plataforma intermedia, controla o acesso ao trabalho e reduz responsabilidades trabalhistas.

Mas a uberização não nasce do nada. Ela se encaixa no cenário do neoliberalismo, que empurra a vida social para o mercado, defende desregulamentação e flexibilização, e transforma direitos em privilégios no discurso. O neoliberalismo aparece como um projeto de ampliação do papel do mercado e de flexibilização de direitos trabalhistas, com uma forma de organizar a sociedade pelo trabalho e pela competição.

Nesse arranjo, o custo do trabalho tende a cair para a empresa e subir para o trabalhador, que é quem paga pela manutenção do veículo, combustível, internet, equipamento, tempo de espera, doença, acidente e períodos sem demanda. A plataforma se posiciona como intermediadora, mas opera um sistema de gestão que organiza comportamento e resultados.

O trabalhador escolhe, mas o algoritmo é quem decide

A autonomia vendida é simples: você liga o app e trabalha. Só que o que vale mesmo é o que o app faz depois que você o liga. Na prática, a sua “liberdade” vira uma disputa por tempo de resposta, disponibilidade total, adaptação a metas implícitas e aceitação de condições que mudam sem negociação

Esse padrão aparece quando a plataforma molda incentivos, coleta dados e transforma isso em estratégia de direcionamento e estímulo de comportamento

Ameca, robô humanoide apresentado na CES Las Vegas, maior feira de tecnologia do mundo, em 2022. Foto: Patrick T. Fallon/AFP
Ameca, robô humanoide apresentado na CES Las Vegas, maior feira de tecnologia do mundo, em 2022. Foto: Patrick T. Fallon/AFP

Controle algorítmico sem transparência

Quando falamos de controle algorítmico, estamos falando de um patrão que não aparece. Você recebe comandos em forma de ofertas, prioridades, promoções, taxas, regras de segurança, mas quase nunca entende o porquê disso tudo.

Fato é que nesse ecossistema, dados voluntários e implícitos são capturados e usados para direcionar conteúdo e estimular comportamentos, indicando o papel central de dados e modelagem de conduta.

Muita coisa muda quando a gestão do seu trabalho é feita por um algoritmo. Além de você ter menor poder de negociação, as regras mudam após as atualizações, sem a consulta de quem faz o aplicativo acontecer. A falta de canais de contato com poderes reais de revisão faz com que a contestação seja mais robotizada e, neste caso, você precisa se adaptar pois quem controla o acesso à demanda é o algoritmo.

A discussão sobre esse tipo de relação chegou ao centro do Judiciário: entre os anos de 2025 e 2026, o STF julgou o reconhecimento de vínculo entre entregadores e motoristas e plataformas.

Na foto, um trabalhador exige seus direitos em um protesto contra o jurista e ex-ministro do STF, Luís Roberto Barroso. Foto: Estadão
Na foto, um trabalhador exige seus direitos em um protesto contra o jurista e ex-ministro do STF, Luís Roberto Barroso. Foto: Estadão

Sem seus direitos trabalhistas, é o trabalhador quem paga essa conta. Na uberização, não existem férias, 13º salário, descanso remunerado, previdência e regras de jornada. Esse é um cenário que se mistura com a informalidade e a pejotização.

Uberização, informalidade e pejotização são cenários que se misturam. De acordo com dados de 2025 do IBGE, 31,7% dos trabalhadores brasileiros são autônomos, informais ou trabalham sem carteira, um número que chega a representar 32,5 milhões de pessoas na informalidade.

Quando o trabalho vira tarefa sob demanda, você fica exposto à variação das chamadas, preços e regras. Isso tende a empurrar jornadas mais longas e instabilidade na vida dos trabalhadores.

Além disso, em 2025, o Relatório Fairwork avaliou dez das principais plataformas digitais no Brasil e concluiu que nenhuma delas cumpriu os requisitos mínimos de trabalho decente, definidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Leia mais: Trabalho por plataformas cresce no país, mas mantém alta informalidade

Neoliberalismo e seus impactos sociais

No cotidiano, você pode ver os efeitos na cidade: mais gente rodando para garantir renda, mais competição entre trabalhadores e maior dependência de plataformas. Um cenário urbano em cidades como São Paulo, com entregadores disputando espaço e filas de espera por pedido, mostra o modus operandi de como o serviço se normalizou.

É o neoliberalismo acontecendo na prática, reorganizando o trabalho e a vida com a moral do desempenho e a pressão por produtividade que precariza milhões de trabalhadores.

A economia política não precisa da carteira assinada para reconhecer a exploração. Ela olha para quem controla o processo, quem define regra, quem captura valor e como o risco é distribuído.

A relação de poder fica escondida, mas opera. As plataformas dizem intermediar, mas organizam o comportamento e coordenam o trabalho. O caso PsyMeet é um exemplo que mostra de forma nítida como as plataformas interferem no acesso à renda. Em 2026, psicólogos se queixaram do baixo retorno financeiro de plataformas de atendimento, com consultas a R$ 30, comprometendo a qualidade do atendimento.

O neoliberalismo não explora apenas as forças de trabalho, mas também os dados comportamentais de pessoas que não têm total controle sobre as informações.

Plataformas digitais capturam dados pessoais para prever, influenciar e moldar comportamentos, transformando os usuários em matéria-prima para a geração de lucro. Por meio de algoritmos e inteligência artificial, grandes volumes de dados traçam perfis e oferecem conteúdos personalizados, rentabilizando a atenção do usuário.

Resistência e regulação

Entendendo a uberização como um modo de reorganizar o trabalho, ela pode ser regulada e disputada juridicamente. Na prática, entram na agenda de regulação:

  • Transparência e contestação: regras de ranqueamento, canais de recurso com revisão real, critérios públicos de bloqueio e punição e a discussão sobre o uso dos dados
  • Direitos e proteção social: contribuição previdenciária, cobertura em casos de acidentes, doenças e afastamentos de trabalho e a definição do vínculo trabalhista

Quais são os critérios mínimos de trabalho decente, reconhecidos para avaliar as plataformas.

A uberização organiza o trabalho e reorganiza a sua vida

Para identificar uma plataforma uberizada, alguns padrões podem ser analisados. Se a plataforma diz que você é autônomo, mas define o acesso à demanda, muda as regras sem negociação, pune sem explicação clara, cria sistemas de ranqueamento e depende da coleta de dados e modelagem do comportamento, você está diante de uma relação de controle, — mesmo que ela venha embalada como flexibilidade.

A uberização não é só o uso dos aplicativos para ganhar dinheiro. É um arranjo neoliberal do sistema que redistribui risco, protege empresas e cria um sistema de gestão por dados e regras pouco discutidas. No Brasil, isso cresce no meio da informalidade, com milhões de trabalhadores fora de proteção plena e com o crescimento das plataformas no país.

Quando o tema vai parar no Superior Tribunal Federal (STF), você tem um sinal de que não é mero detalhe, mas uma disputa sobre o que vale como trabalho, direito e proteção no capitalismo contemporâneo, pois quem controla o seu tempo, renda e sobrevivência não precisa te chamar de empregado para te controlar.

 


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