A China estabeleceu para 2026 sua meta de crescimento mais baixa em mais de 30 anos, entre 4,5% e 5%. É o primeiro rebaixamento formal desde 2023 e a meta menos ambiciosa desde 1991, refletindo um reconhecimento tácito de que o modelo econômico que sustentou quatro décadas de rápida ascensão está mostrando sinais de desgaste.
Nesta quinta-feira (5), o primeiro-ministro do país, Li Qiang, discursou na na Assembleia Nacional Popular da China (National People’s Congress), no qual abordou o assunto. Segundo ele, não se trata apenas de um número econômico, “mas também um sinal político sobre a direção da economia, indicando que o modelo antigo baseado em investimento em imóveis e infraestrutura está enfraquecendo”.
“A tarefa de fazer a transição para novos motores de crescimento é formidável”, disse Li Qiang em seu discurso em Pequim.
“O desequilíbrio entre a forte oferta e a fraca demanda é grave, as expectativas do mercado são fracas e há muitos riscos e perigos ocultos em áreas importantes”, continuou.
Os mercados financeiros reagiram ao discurso, incluindo uma recuperação de cerca de 3,5% no índice da Ásia-Pacífico e movimentos positivos em Taiwan, Coreia do Sul e ações de empresas como Samsung e SK Hynix, apesar do cenário externo complicado, especialmente os conflitos no Oriente Médio.
Embora a definição da meta fosse amplamente prevista por economistas, ela carrega peso simbólico: as metas oficiais na China funcionam tanto como projeções econômicas quanto como sinalizações políticas. A última vez que o governo optou por não definir uma meta foi em 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Crescimento mais lento e estímulos contidos
A mudança indica que Pequim está confortável com um ritmo mais moderado, enquanto busca motores de crescimento mais sustentáveis para substituir os investimentos em imóveis e infraestrutura financiados por dívida. Uma meta mais baixa também reduz a pressão sobre as autoridades para adotar estímulos agressivos em um contexto global de comércio volátil.
As exportações responderam por um terço do crescimento de 5% da China em 2025, a maior participação desde 1997. O modelo de expansão ainda é fortemente dependente do comércio internacional, enquanto o estímulo ao consumo doméstico não conseguiu compensar o colapso do mercado imobiliário.
Uma meta conservadora reduz a probabilidade de medidas de estímulo robustas. O governo evita afrouxamentos significativos para não pressionar a relação dívida/PIB — já em níveis recordes — nem comprometer a rentabilidade dos bancos estatais.
Objetivos de longo prazo e desafios internos
Apesar de conservadora, a meta proposta supera a média anual de 4,17% necessária para dobrar o PIB per capita entre 2020 e 2035, marco estratégico para Xi Jinping transformar a China em um “poderoso país socialista moderno”.
Essa visão depende da capacidade das fábricas chinesas de manter altas exportações, embora barreiras comerciais e superávits recordes tornem o modelo cada vez mais insustentável, segundo alertas do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Internamente, esforços para redirecionar recursos ao consumo enfrentam obstáculos: a rede de proteção social desigual, jornadas de trabalho longas e foco em autossuficiência industrial limitam a capacidade das famílias de gastar mais.
A China manterá o déficit orçamentário nominal em 4% do PIB, nível recorde, sinalizando disposição de sustentar a demanda via endividamento público. O governo central emitirá 1,3 trilhão de yuans em títulos especiais ultralongos, enquanto governos locais lançarão 4,4 trilhões de yuans em novos títulos, ambos destinados a projetos de infraestrutura, subsídios e pagamento de dívidas fora do balanço.
A meta de inflação ao consumidor permanece em 2%, com os preços estáveis em 2025, e a criação de mais de 12 milhões de empregos segue como prioridade, consolidando a estratégia de manter a economia em expansão moderada, mas controlada.