Por Cleber Lourenço
A proposta discutida por aliados de Donald Trump de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas reacendeu o debate sobre o papel das Forças Armadas na segurança da América Latina e sobre o grau de dependência militar em relação aos Estados Unidos.
Hoje, o combate às facções brasileiras é tratado como questão de segurança pública, conduzida por polícias e órgãos de investigação. Se Washington enquadrar essas organizações como terroristas, o tema tende a migrar para o campo de segurança nacional, ampliando o espaço de atuação de estruturas militares e de inteligência.
A pesquisadora e especialista em forças armadas, Ana Penido, afirma que a cooperação entre militares e forças de segurança na região não é nova e já ocorre há décadas. “Os EUA mantêm muitas operações de adestramento de natureza policial não só com as forças armadas brasileiras, mas com as da América Latina. Algumas vezes são formações comuns com outras forças de segurança, inclusive a Polícia Federal”, afirma.
Operações conjuntas
Nos últimos anos, essa cooperação se consolidou em exercícios e programas de treinamento conjuntos. Um dos principais é o Combined Operations and Rotation Exercise (CORE), exercício entre o Exército Brasileiro e o Exército dos Estados Unidos voltado à preparação de tropas para operações combinadas.
Também ocorrem reuniões periódicas de planejamento militar. Em junho de 2025, por exemplo, representantes dos dois exércitos participaram em Petrolina de uma reunião de planejamento conhecida como Master Scenario Event List (MSEL), voltada à definição de cenários operacionais e objetivos do exercício CORE.
Além dos treinamentos, fóruns institucionais reforçam o relacionamento entre as forças. Em 2025 foi realizada em Brasília a Conferência Bilateral de Estado‑Maior entre os Exércitos do Brasil e dos Estados Unidos, encontro voltado à discussão de intercâmbio de oficiais, exercícios conjuntos e projetos de cooperação militar.
Lógica histórica
Para Penido, essa dinâmica faz parte de uma lógica histórica da política de segurança dos Estados Unidos no hemisfério. “O objetivo dos EUA sempre — desde a nossa conformação enquanto nação — foi ter forças nos países do Sul que se dedicassem ao controle da ordem interna, evitando que problemas como a pobreza chegassem ao território deles”, afirma.
Segundo a pesquisadora, essa lógica cria uma divisão internacional do trabalho na área de defesa. “Os países da série A — como Estados Unidos, China ou Rússia — têm forças que pensam o lugar dos seus países no mundo. Já países da série C têm forças que atuam basicamente dentro de casa, em operações de natureza policial. O Brasil fica em uma posição intermediária”, afirma.
Nesse cenário, a classificação de facções brasileiras como terrorismo poderia reforçar a centralidade das estruturas militares americanas na agenda de segurança regional, especialmente no âmbito do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos (SOUTHCOM).
Classificações distintas
Ao mesmo tempo, a proposta enfrenta diferenças jurídicas entre os dois países. A legislação brasileira exige motivação política ou ideológica para caracterizar terrorismo, enquanto as facções brasileiras são tratadas como organizações criminosas voltadas ao lucro.
Para Penido, a eventual decisão americana pode aprofundar a assimetria estratégica entre os países. “A medida dos EUA é péssima para o Brasil, pois abre margem para intervenções cada vez mais diretas e aprofunda nossa situação militar de subordinação estratégica”, afirma.
Apesar disso, a pesquisadora ressalta que esse movimento não seria uma novidade. “A rigor, infelizmente não é algo novo.”