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Por André Borges

(Folhapress) – O cronograma de obras da Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), projeto de 383 quilômetros de extensão, previsto para ligar os municípios de Mara Rosa, em Goiás, e Água Boa, em Mato Grosso, passou a correr sério risco de atraso.

Prevista para ligar a região Centro-Oeste à malha da Ferrovia Norte-Sul até 2028, a Fico está com 20% de seu projeto completamente travado por causa de impasses envolvendo comunidades indígenas.

Um alerta sobre o atraso iminente foi apontado pela CGU (Controladoria-Geral da União), que analisou a situação das obras da ferrovia que é construída pela mineradora Vale, como contrapartida pela renovação antecipada da concessão da EFVM (Estrada de Ferro Vitória-Minas), que é operada pela empresa.

Hoje as obras de um trecho total de 72 quilômetros, o equivalente a 20% do traçado, ainda não começaram porque dependem de uma manifestação formal da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).

É preciso que a autarquia dê aval para o chamado Plano Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI), um documento que detalha os eventuais impactos que o projeto pode ter para os indígenas e o que deve ser feito para reduzir ou compensar esses efeitos. Ocorre que essa autorização não tem data para acontecer.

As obras ainda não começaram porque dependem de uma manifestação formal da Funai (Foto: Arquivo/Funai)

Atraso

A mobilização do trecho estava prevista para 2025, o que não aconteceu. O cronograma atual prevê que os lotes próximos de terras indígenas sejam entregues até abril de 2028, meta que já é considerada difícil de ser atingida.

Apesar de as obras da Fico serem tocadas pela Vale, o licenciamento ambiental é de responsabilidade da Infra S.A., estatal ligada ao Ministério dos Transportes. À Folha, a Infra declarou que o plano de trabalho das questões indígenas foi protocolado na Funai em 2022, portanto, há quatro anos.

Em 2023, houve análise técnica do material, que foi considerado apto à apresentação às comunidades indígenas. Até hoje, porém, essas consultas não foram concluídas.

“Atualmente, estão em andamento atividades de campo e o detalhamento das medidas do PBA-CI nas terras indígenas envolvidas, com consolidação técnica dos produtos para submissão e manifestação da Funai quanto à sua completude, antes do processo de aprovação junto às comunidades”, disse a Infra S.A.

A estatal e o órgão indigenista foram questionados sobre a previsão para a emissão do parecer conclusivo, mas, em resposta conjunta, não deram um prazo. “As atividades relacionadas à revisão do ECI e à elaboração do PBA-CI seguem em curso nas terras indígenas envolvidas”, afirmaram.

A Funai e a Infra declararam que as pendências atuais são a revisão dos estudos e elaboração do plano setorial, além de consultas às comunidades, que ainda estão em curso. A Vale não comentou o assunto.

“O trecho permanece impedido até a aprovação do PBA-CI pelas comunidades indígenas e pela Funai”, afirmaram os órgãos federais.

A Fico não atravessa diretamente terras indígenas. O que ocorre neste projeto é que seu traçado está dentro da chamada área de influência de comunidades indígenas, o que exige medidas específicas no licenciamento ambiental.

Em outubro do ano passado, uma equipe de auditores da CGU realizou visita técnica às obras e percorreu aproximadamente 290 quilômetros do traçado que já está com obras em execução. Mais da metade do traçado já foi concluído, e, nessa parte, as atividades seguem dentro das metas.

A Fico é uma malha crucial dentro do planejamento ferroviário do governo, por ligar os polos produtores de grãos do Centro-Oeste à Norte-Sul, permitindo que cargas tenham acesso a portos do Arco Norte e da região Sudeste, reduzindo a dependência do transporte rodoviário.

O projeto foi estruturado por meio de um modelo de investimento cruzado, no qual a Vale executa a obra como contrapartida pela renovação antecipada da concessão da EFVM. Pelo acordo, a empresa assume integralmente os riscos de construção, enquanto a Infra S.A. atua na fiscalização e licenciamento.

Na carteira de concessões ferroviárias anunciada pelo governo no fim do ano passado, esse trecho da Fico faz parte do Corredor Leste-Oeste (Fico-Fiol), uma malha prevista para ter seu edital publicado em maio, com realização de leilão em agosto. Ao todo, essa concessão totaliza 1.647 quilômetros, ligando o município de Caetité, no centro da Bahia, até Água Boa (MT).

Com investimento total previsto de R$ 41,85 bilhões ao longo de todo o trecho, durante a concessão, é o projeto mais ambicioso do governo federal entre os oito traçados que o Ministério dos Transportes planeja oferecer à iniciativa privada neste ano.

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