A escalada da guerra no Oriente Médio provocou um forte choque nos mercados globais, levando o barril do petróleo a US$ 116 nesta segunda-feira (30) e reforçando uma postura cautelosa entre investidores. O movimento estimulou a migração para títulos do Tesouro dos Estados Unidos e reduziu apostas em novas altas de juros, diante do temor de desaceleração da economia global.
O Brent acumulou alta de cerca de 60% no mês — o maior salto desde 1988, segundo dados da LSEG — superando inclusive os níveis registrados durante a Guerra do Golfo, em 1990. Já o petróleo bruto dos Estados Unidos avançou 52%, marcando sua maior valorização mensal desde maio de 2020.
Em meio à volatilidade, os rendimentos dos títulos estadunidenses recuaram à medida que investidores revisaram suas projeções para a política monetária. A probabilidade de um aumento de juros pelo Federal Reserve em 2026 caiu para 25%, ante cerca de 35% dias antes. A taxa dos Treasuries de dois anos recuou para 3,89%.
Nos mercados acionários, os futuros do S&P 500 registraram leve alta, após o índice atingir o menor nível desde agosto na semana anterior. O dólar apresentou estabilidade, refletindo o ambiente de incerteza.
Os movimentos foram desencadeados por novos ataques com mísseis no fim de semana, envolvendo o Irã e aliados contra parceiros dos Estados Unidos. A mobilização militar adicional, incluindo forças apoiadas por Teerã, intensificou o temor de uma escalada prolongada.
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou hoje nas redes sociais que está negociando com autoridades iranianas o fim da guerra no Oriente Médio. Mas faz mais uma ameaça e alerta que, se não houver acordo, ele irá “explodir” os poços de petróleo do país. A declaração foi dada depois de sucessivos adiamentos dos prazos estipulados pelos próprios americanos sobre como acabar com o conflito.
De inflação a risco de estagflação
Até recentemente, o foco dos investidores estava no impacto inflacionário da alta do petróleo. No entanto, cresce a percepção de que os efeitos sobre o crescimento econômico podem se tornar predominantes.
Analistas de grandes gestoras de renda fixa em Wall Street já indicam que os rendimentos dos títulos devem cair à medida que a desaceleração global se torne mais evidente. O cenário levanta o risco de estagflação — combinação de inflação elevada com baixo crescimento.
Na Europa, o índice Stoxx 600 apresentou dificuldade em definir tendência, enquanto os rendimentos dos títulos também recuaram, ainda que de forma mais moderada do que nos Estados Unidos. Na Ásia, o índice MSCI caminhava para seu nível mais baixo desde o início do ano.
No mercado cambial, o iene se valorizou frente às principais moedas, impulsionado por sinalizações de possível intervenção do Japão. Já o ouro se estabilizou após ganhos recentes, com investidores aproveitando quedas para recompor posições.
Cenários extremos para o petróleo
Instituições financeiras já trabalham com cenários de forte deterioração. Entre elas está o Macquarie Group, cujo alerta é de que o petróleo pode atingir US$ 200 por barril caso o conflito com o Irã se prolongue até junho e o Estreito de Ormuz permaneça fechado.
Analistas atribuem 40% de probabilidade a esse cenário mais adverso. Em uma hipótese alternativa, com 60% de chance, o conflito terminaria ainda neste mês, limitando os danos econômicos.
Apesar disso, o sentimento predominante no mercado é de deterioração. Para gestores, a ausência de perspectiva de resolução rápida aumenta os riscos para cadeias globais de suprimento.