Por Iago Filgueiras*
Imagine viver em uma cidade que, em pouco mais de 40 anos, viu seu número de habitantes saltar de 30 mil para mais de 18 millhões de pessoas. Somado a esse crescimento, veio também o desenvolvimento tecnológico e uma infraestrutura organizada que se tornou uma das principais marcas da economia da China.
Essa é a realidade de Shenzhen, uma antiga vila de pescadores na China que, a partir dos anos de 1980, viu sua realidade se transformar e, algumas décadas depois, se tornou uma enorme metrópole futurista e uma das maiores cidades do país e do mundo. Mas esse processo não foi exclusivo de Shenzhen, começou a acontecer por todo o país.
Entender como a sociedade se organiza e quais lições podem ser aprendidas com o modelo chinês é essencial para quem deseja aliar progresso econômico e social. Neste artigo, você descobrirá como, na China, tradição, empreendedorismo e inovação caminham lado a lado.
China: uma sociedade milenar
Diferente das nações das Américas, que consolidaram suas instituições e identidades a partir da colonização europeia há poucos séculos, a China opera sob uma lógica de continuidade. Enquanto no Ocidente as bases políticas foram impostas por processos coloniais relativamente recentes, o país asiático preserva uma história civilizacional de mais de cinco mil anos.
Essa longevidade reflete-se na organização do Estado. Para se ter uma ideia, o primeiro concurso público da história foi realizado na China durante a Dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.). Esse senso de ordem e mérito não é novo; é a base que sustenta o país há milênios.
O Confucionismo — sistema de pensamento e comportamento originário na China Antiga por meio dos pensamentos de Confúcio — segue influenciando a organização do país há mais de dois mil anos. Essa tradição filosófica, ética e política impacta a governança, a base educacional, o serviço público e as relações sociais.
Com uma história milenar, a sociedade chinesa carrega traumas, contradições, erros e acertos. E tudo isso não fica esquecido no tempo, mas atravessa gerações.
A formação do estado moderno chinês ocorreu em 1949, com a Revolução Chinesa e a acensão dos comunistas ao poder. Desde então, o país segue uma linha conhecida como Socialismo com Características Chinesas, em que os ideais do marxismo-leninismo foram adaptados à realidade do país. Nesse processo, a tradição ética, moral e filosófica milenar do país não foi eliminada, mas reconduzida e readaptada.
Tudo isso segue impactando o país, a economia da China e a organização social.
Saiba mais: Revolução Chinesa: como se deu o processo que pavimentou o caminho da China rumo ao desenvolvimento
O grande salto da economia da China
Se atualmente a China se posiciona como a segunda maior economia do mundo, a história nem sempre foi assim. Ao longo dos séculos, o país enfrentou momentos de ascensão e decadência, guerra e de paz, soberania e dominação.
No século XIX, a China foi profundamente impactada pelo imperialismo ocidental. Múltiplas guerras, tanto com potências europeias, quanto com o governo imperial do Japão, resultaram em uma grande crise econômica e social. O nível do trauma para os chineses é tão profundo que o período entre 1839 e 1945 ficou conhecido como Século da Humilhação.
O cenário começou a mudar em 1949, com a Revolução Chinesa e a chegada de Mao Tsé-Tung ao poder. Ainda que marcado por contradições, tragédias e inúmeras vítimas fatais, foi nesse período que o governo central promoveu uma reforma agrária, a coletivização da terra e passou a direcionar maiores investimentos à industrialização.
Mas o processo que resultou na consolidação da segunda maior economia mundial ganhou força a partir de 1978, quando Deng Xiaoping se tornou líder supremo do país e iniciou uma série de medidas voltadas à abertura econômica, em um processo que ficou conhecido como Reforma e Abertura.

Qual a dimensão do crescimento econômico da China?
A partir de 1978, os indicadores econômicos e sociais chineses passaram a crescer em uma velocidade impressionante. Nessa época, embora a terra continuasse propriedade estatal, o Estado permitiu a venda dos excedentes da produção agrícola.
Além disso, o governo criou as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) em cidades como Shenzhen, Shantou e Zhuhai, um modelo que depois foi expandido para outras regiões. Com isso, o país promoveu uma abertura ao capital estrangeiro e à tecnologia ocidental, oferecendo mão de obra barata e incentivos fiscais.
O nível de crescimento que o país experienciou fica nítido ao olhar para alguns indicadores da economia da China:
Em 1978:
- Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 0,410 (baixo)
- Produto Interno Bruto (PIB): US$ 150 bilhões
- Extrema pobreza: 800 milhões de habitantes
Já em 2025:
- Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 0,797 (alto)
- Produto Interno Bruto (PIB): US$ 19,4 trilhões
- Extrema pobreza: erradicada em 2020
É claro que, como você viu anteriormente, esse processo não ocorreu sem contradições. O nível de desigualdade na distribuição de riquezas aumentou nesse período. O coeficiente Gini, numa escala de 0 a 100, chegou a 43,7 em 2010 — vale dizer que quanto mais próximo de zero, mais igualitário é o país — no entanto, o indicador começou a diminuir rapidamente nos anos seguintes, atingindo 36 em 2022.
A economia da China tem como marca um alto nível de planejamento estatal na tomada de decisões. Nada acontece por acaso. Medidas de alto impacto são cuidadosamente aplicadas em regiões controladas, para depois serem ampliadas para o restante do país.

Do estigma do “Made in China” a polo tecnológico mundial
Além do crescimento econômico, o país também apresentou uma melhora evidente na qualidade de vida e na complexidade da economia.
Em 2001, a China tornou-se membro da Organização Mundial do Comércio (OMC), acelerando seu processo de integração global e alavancando a produção industrial. Foi principalmente nesse período que o rótulo “Made in China” começou a ganhar o mundo, com produtos que, por muito tempo, foram associados a baixa qualidade.
Com a força do planejamento estatal, o país aplicou os recursos financeiros vindos do crescimento econômico à uma série de medidas para fortalecer a infraestrutura: trens de alta velocidade, portos e usinas de geração de energia. Somado à isso, houve também investimento em seguridade social para melhorar gradualmente as condições de vida da população..
O estereótipo de “fábrica do mundo” se transformou. No lugar de produtos manufaturados de baixa complexidade, o Estado passou a impulsionar a indústria tecnológica de ponta. Fábricas de brinquedos e roupas passaram a conviver com a sofisticada produção de eletrônicos, carros elétricos e semicondutores.

Tudo isso em um ambiente marcado pelo “capitalismo de estado”, um sistema econômico em que o governo exerce um controle centralizado sobre a produção e os rumos econômicos. É o Estado que decide quais áreas serão incentivadas e quais formações serão as mais necessárias para garantir o progresso do país. Assim, grandes empresas estatais convivem com grandes organizações privadas como Alibaba e Tencent, por exemplo.
Tudo isso mostra que o crescimento da economia da China não ocorreu espontaneamente. Foi fruto de um processo cuidadoso de planejamento estatal, com investimentos em infraestrutura, industrialização, formação acadêmica e seguridade social.
Isso criou um ambiente de negócios único, em que empresas privadas operam sob orientação e forte influência regulatória do Estado. Esse processo tem muito a nos ensinar, não apenas sobre planejamento econômico, mas sobre a ética e a filosofia que impulsionam o desenvolvimento chinês.
Um país em que tradição e inovação caminham juntas
Na China, a tradição milenar do país segue influenciando diversas camadas da sociedade. Não por acaso, o culto aos ancestrais e o cuidado e respeito com a velhice são características interessantes da sociedade chinesa. Na tradição confucionista, o passado é importante. Não só como um arquivo histórico, mas como fonte de sabedoria.
No entanto, embora conviva com celebrações tradicionais e um legado filosófico milenar, a o país se tornou um polo de inovação tecnológica, o que tem impulsionado ainda mais o crescimento da economia da China.
Tudo isso pode ser comprovado em números:
- Em 2022, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual recebeu cerca de 3,6 milhões de pedidos de registro de patentes. Desse total, quase 1,6 milhão foram feitos por residentes da China
- A cada ano, a China forma mais de 3,5 milhões de graduados em áreas relacionadas a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês)
- A China investiu cerca de 2,8% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D), em 2025
A Nova Rota da Seda: quando passado e presente se encontram
Uma história muito famosa no ocidente, já retratada em diversas produções cinematográficas, é a do mercador veneziano Marco Polo. Ele ficou famoso por suas histórias de viagem na antiga Rota da Seda, ainda no século XIII. Esse caminho era uma vasta rede de estradas que conectava a China Antiga ao Império Romano e ao Oriente Médio.
Surgida por volta do século II a.C, a Rota, além de facilitar o comércio entre povos e nações geograficamente distantes, também permitia o intercâmbio cultural e a troca de conhecimento científico entre diferentes civilizações. Ao longo dos séculos o caminho foi perdendo sua função. Primeiro com a queda do Império Romano no século V, em seguida com as grandes rotas de navegação, no século XV.
Mas se por muito tempo esse foi um dos principais impulsionadores do progresso chinês, quando falamos sobre a economia da China no século XXI precisamos mencionar a Belt and Road Initiative (Iniciativa Cinturão e Rota). Inspirada na antiga Rota da Seda, essa estratégia geopolítica e econômica visa conectar a Ásia à Europa, África e América por meio de uma grande rede de infraestrutura.
Mas essa expansão vai além da construção de portos e ferrovias, ela também é digital. A China lidera a implementação global da tecnologia 5G, é referência mundial no mercado de pagamentos móveis — com iniciativas como o Alipay e o WeChat Pay — e exporta modelos de e-commerce que transformaram a logística mundial.
Tudo isso tem ajduado a consolidar o papel de liderança e influência da China no desenvolvimento tecnológico global. Um dos grandes exemplos disso é que o país lidera os investimentos na transição energética: somente em 2024, um terço do investimento global em energia limpa foi feito pela China. Alidado à isso, é no país que estão as maiores fabricantes de carros elétricos do mundo.
Planejamento — a chave do sucesso da economia da China
Com uma transformação tão acelerada ao longo das últimas décadas, pode parecer que foi um milagre. Mas a verdade é que a chave foi o planejamento, uma das características centrais da economia da China.
Além do modelo econômico, a visão de longo prazo influência também o ambiente de negócios. A transformação de um país conhecido pela oferta de mão de obra barata e fabricação de produtos simples foi fruto de um planejamento detalhado.
Em 2015, o governo chinês lançou o “Made In China 2025”, um plano estratégico para aumentar a complexidade da economia da China, tornando o país numa potência industrial e tecnológica. Com isso, a nação fez um investimento intenso na promoção de marcas chinesa, transição energética e na integração de tecnologia à indústria — não por acaso a China tem se tornado destaque no desenvolvimento de inteligência artificial.
Se hoje você caminha pelas ruas de grandes cidades brasileiras e vê carros elétricos de marcas chinesas, passa horas deslizando o feed em aplicativos chineses e até comemora a chegada de uma fábrica de equipamentos agrícolas fruto de parcerias entre Brasil e China, é por que o investimento nessas áreas foi estratégico.
O “Made In China 2025” previa aporte de recursos em dez setores-chave. São eles:
- carros elétricos
- tecnologia da informação
- telecomunicações,
- inteligência artificial
- robótica avançada
- tecnologia agrícola
- engenharia aeroespacial
- engenharia marítima
- biomedicina
- infraestrutura ferroviária
Veja mais em: Trem-bala, ferrovias e desenvolvimento: como a China transformou transporte em estratégia econômica global
Quais lições o Brasil pode aprender com a economia da China?
A relação entre Brasil e China é histórica e tem ganhado cada vez mais força graças ao BRICS. Como o maior parceiro comercial brasileiro, o país influencia profundamente a economia nacional, do agronegócio à mineração. Mas o aprendizado deve ir além da balança comercial.
Muitas lições podem ser aprendidas ao analisar a trajetória chinesa. Enquanto muitas economias ocidentais funcionam com objetivos apenas para os próximos anos — coincidentemente, os planejamentos costumam girar em torno dos ciclos eleitorais —, o governo chinês trabalha com planos quinquenais que focam em objetivos de longo prazo e são revisitados a cada cinco anos. Essa estabilidade dá maior resiliência e capacidade de adaptação ao país.
Além disso, os erros do passado também passam a ser fontes de aprendizado para a construção do futuro.
China, inovação e tecnologia — ver para crer
Embora as estatísticas da economia da China impressionem muitos analistas, os números podem não traduzir a realidade de quem vive o dia a dia chinês. Quando se caminha pelas ruas de Shenzhen ou entra nos prédios de algumas das maiores empresas de tecnologia da atualidade, será que os dados e a realidade coincidem?
O que se vê hoje na China é um país em que enormes prédios espelhados e com luzes de led futuristas convivem com elementos tradicionais e com uma perspectiva de mundo que atravessa milênios.
Para descobrir se tudo o que se vê é verdade e quais são as lições de um país que em pouco mais de 40 anos se consolidou como a segunda maior economia mundial, o economista e fundador do ICL, Eduardo Moreira, foi conferir.
*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu