Por Iago Filgueiras
Por décadas, a ordem mundial pareceu ter um endereço fixo: Washington. Os Estados Unidos saíram da Segunda Guerra Mundial como uma potência militar, econômica e industrial. Na segunda metade do século XX, ainda durante a Guerra Fria, o bloco capitalista e o socialista disputavam poder e influência, uma marca da ordem bipolar.
O cenário atual, de emergência de um mundo multipolar, desafia justamente essa hegemonia estadunidense construída ao longo de décadas. Com o colapso da União Soviética em 1991, os Estados Unidos se tornaram a única superpotência global.
Se desde o pós-guerra isso já vinha sendo construído, sem um oposidor direto, na virada dos séculos XX e XXI o fato se consolidou ainda mais. O contexto agora é de mudança, mas dolorosa. O legado da hegemonia norte-americana no mundo é extenso: controle sobre organizações multilaterais, imposição do dólar como moeda dominante no comércio global e centenas de bases militares espalhadas por dezenas de países.
Mas o planeta tem uma característica central: ele gira, o tempo passa e as coisas mudam. A história tem mostrado que nenhum império dura para sempre. Nas últimas décadas, novos personagens surgiram no jogo de poder global e passaram a questionar, cada um à sua maneira, o protagonismo norte-americano. Neste artigo, você vai entender como o jogo virou e os Estados Unidos deixaram de ser os únicos com as cartas na mão.
O que é o mundo multipolar e como ele funciona?
O mundo multipolar se caracteriza pela existência de múltiplos centros de poder: países ou blocos com capacidade de influenciar a política internacional, definir regras do jogo e projetar poder além de suas fronteiras. Isso não significa, necessariamente, um mundo mais pacífico ou com distribuição mais igualitária de poder. É, antes de tudo, um mundo mais disputado.
Esses centros não são homogêneos, nem partem dos mesmos pontos, muito menos compartilham os mesmos anseios. Podem exercer influência pelo poder militar, como a Rússia; ditar o ritmo do desenvolvimento tecnológico global, como a China; exercer pressão por seu contingente demográfico e capacidade de articulação regional, como a Índia; serem considerados interlocutores fundamentais na diplomacia, como o Brasil ou por possuírem recursos estratégicos essenciais aos interesses de outras nações, como diversos países do Sul Global.
Da hegemonia dos EUA ao surgimento do mundo multipolar
Para entender a emergência de um mundo multipolar, é preciso, primeiro, compreender como um único país chegou a concentrar tanto poder nas mãos.
A hegemonia dos Estados Unidos não surgiu do nada. Após a Segunda Guerra Mundial, Ásia e Europa saíram destruídas do conflito, enquanto o território estadunidense permaneceu intacto.
A Conferência de Bretton Woods, em 1944, institucionalizou esse domínio ao adotar o dólar como lastro das moedas internacionais, tornando a moeda americana o centro do sistema financeiro global. A essa vantagem econômica somou-se a consolidação das estruturas multilaterais do pós-guerra, como o Fundo Monetário Internacional e a Organização das Nações Unidas.

Na segunda metade do século XX, a hegemonia estadunidense encontrou seu principal rival: a União Soviética. Por décadas, o mundo operou sob uma lógica bipolar: dois sistemas, dois blocos, duas visões de mundo em disputa. Mas, em 1991, com o colapso soviético, isso mudou. Restou apenas um polo.
Sem um opositor direto, por um momento os Estados Unidos alimentaram a expectativa de retomar a hegemonia mundial. A estratégia de Washington era agir para impedir a ascensão de qualquer potência capaz de rivalizar com seu protagonismo.
Das invasões ao Iraque e Afeganistão, das sanções econômicas às intervenções diretas, os EUA exerceram seu poder com a convicção de que não haveria oposição. Mas o que se viu nos anos seguintes foi a constituição de um novo bloco capaz de contestar o domínio norte-americano.
A emergência de novos polos de poder
Ao longo das últimas décadas, um conjunto de países acumulou poder econômico, tecnológico e diplomático suficiente para desafiar, de diferentes maneiras, a hegemonia estadunidense.
Não se trata de um bloco homogêneo, muito menos de uma aliança coesa com objetivos comuns. O que os aproxima é menos uma identidade compartilhada e mais uma condição histórica: a de disputar espaço num sistema internacional que, por muito tempo, operou sob regras definidas por um único centro de poder.
Esse movimento se expressa tanto na criação de novas instituições quanto na reconfiguração de alianças. Iniciativas como o BRICS, bancos multilaterais alternativos, acordos comerciais fora da órbita do dólar e projetos de infraestrutura transnacionais indicam uma tentativa de construir caminhos paralelos à ordem vigente.
Ao mesmo tempo, esses países operam com estratégias distintas: enquanto alguns buscam confrontação direta em campos específicos, outros apostam na expansão gradual de sua influência.

O papel da China na reconfiguração do poder
A China é, sem dúvida, o caso mais emblemático. Em pouco mais de quatro décadas, transformou uma economia majoritariamente agrária em uma potência industrial e tecnológica capaz de disputar setores estratégicos com os Estados Unidos. Esse salto não foi apenas quantitativo, mas qualitativo: a China não apenas cresceu, como redefiniu sua posição na divisão internacional do trabalho.
A forma como isso aconteceu também significa muito: diferentemente do receituário neoliberal que marcou a expansão ocidental no pós-Guerra Fria, o desenvolvimento chinês foi conduzido sob forte protagonismo estatal. O planejamento econômico, o controle sobre setores estratégicos e a regulação do capital financeiro permitiram ao país não só crescer, mas direcionar esse crescimento para objetivos internos. Entre eles, a erradicação da extrema pobreza e a ampliação de políticas sociais.

Para o mundo ocidental, a China representa uma ameaça não apenas pelo crescimento impressionante de sua capacidade econômica e militar: o país desafia a ideia de que há um único modelo legítimo de desenvolvimento. Para grande parte do Sul Global, é a prova de que há outro caminho possível e isso ameaça, e muito, a hegemonia ideológica estadunidense.
O peso do país asiático na transformação do cenário internacional é evidente. Na aula Compreendendo a China, disponível na plataforma do ICL, o doutor em geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Elias Jabbour, afirma: “o processo de desenvolvimento na China, a formação de uma economia continental no país e a nova Rota da Seda são processos fundamentais para entender o futuro”.
Veja mais sobre a Nova Rota da Seda e a ascensão econômica chinesa em: Economia da China: uma aula de inovação, tradição e planejamento
Um sistema em transição: disputas e novos conflitos
A ideia de um mundo unipolar, com um único agente como mandatário e força de influência, está se transformando. Mas a verdade é que a consolidação de um mundo multipolar não ocorre de forma linear, muito menos pacífica.
Esse movimento de transição é marcado por disputas intensas, rearranjos geopolíticos e conflitos. Se a hegemonia estadunidense foi construída ao longo de décadas, sua erosão também se apresenta de forma prolongada e, muitas vezes, violenta.
No cenário internacional, o que se vê é um sistema em disputa, no qual diferentes potências testam seus limites e expandem suas áreas de influência. No fundo, novos protagonistas surgem, mas novas disputas também.
Guerras, crises e o papel das intervenções modernas
Os conflitos contemporâneos são a expressão direta dessa disputa por poder. A guerra na Ucrânia, iniciada com a invasão russa de 2022, é um exemplo que revela um mundo em disputa. O conflito explicita o choque direto entre interesses da Rússia e de países europeus alinhados aos Estados Unidos.
Uma das motivações russas para o início da guerra foi, justamente, a possibilidade da Ucrânia aderir à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança militar com forte protagonismo estadunidense. Na prática, o fortalecimento militar do ocidente nas fronteiras russas foi interpretado como ameaça existencial.
Como reação à invasão, o Ocidente respondeu com sanções econômicas. Mas, em um mundo multipolar, a Rússia conseguiu resistir às sanções e, inclusive, expandir sua economia, apoiada pela possibilidade de diálogo com novos agentes do cenário internacional.

Muitas vezes, conflitos regionais, embora contidos em fronteiras específicas, revelam disputas onde potências globais medem forças. Frequentemente, essas crises assumem a forma de guerras por procuração, nas quais grupos locais são financiados para projetar os interesses de blocos distantes.
Nesse cenário, os Estados Unidos seguem atuando de forma ativa, seja por meio de intervenções diretas, seja por influência indireta. Ainda que sua hegemonia esteja em disputa, sua capacidade de projeção de poder permanece relevante.
A América Latina no centro da disputa geopolítica
Em meio à reorganização do poder global e à ascensão de um mundo multipolar, a América Latina volta a ocupar uma posição estratégica. Por décadas, a região foi tratada como zona de influência dos Estados Unidos.
Essa lógica se mantém desde 1823, com a Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente estadunidense James Monroe. Na prática, ficava estabelecido que o continente americano não deveria ser alvo de novas colonizações e intervenções europeias, ao mesmo tempo que se defendia o não envolvimento dos Estados Unidos em questões da Europa.
Durante a Guerra Fria, os estadunidenses patrocinaram e forneceram apoio a diversas ditaduras que eclodiram no continente, buscando assegurar sua hegemonia diante da possível influência do bloco socialista. Foi o caso do golpe militar no Brasil e dos governos ditatoriais na Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, entre outros.
Historicamente, assegurar influência sobre a América Latina também significou garantir acesso a recursos naturais essenciais, como minerais críticos e commodities agrícolas, além de representar um mercado relevante para investimentos e expansão econômica.
Entre a Doutrina Monroe e a influência chinesa no século XXI
No século XXI, com o avanço de novas forças no cenário internacional, países do continente passaram a agir com mais autonomia e guiados pelos próprios interesses nacionais.
Nesse contexto, a China se consolidou como potência econômica e agente capaz de oferecer uma alternativa à hegemonia norte-americana no continente. Projetos de infraestrutura, acordos comerciais e financiamentos indicam uma aproximação que vai além da dimensão econômica. Trata-se de uma inserção que reconfigura relações históricas e amplia as possibilidades de articulação dos países latino-americanos.
Esse movimento, no entanto, não ocorre sem resistência. Tudo isso fica evidente na forma como Estados Unidos e China conduzem suas relações diplomáticas. Em abril de 2025, Pete Hegseth, então secretário de Defesa dos EUA, referiu-se à América Latina como um “quintal” que deveria ser recuperado pelos estadunidenses. Em resposta, Wang Yi, ministro de Relações Exteriores da China, afirmou que os países latinos “não são quintal de ninguém”.
Em 2025, a segunda gestão de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos decidiu atualizar a Doutrina Monroe, numa abordagem que ficou conhecida como Corolário Trump à Doutrina Monroe. O documento deixou clara a percepção dos EUA de que a América Latina é sua zona de influência e que a atuação de países estrangeiros deveria ser limitada.
Nesse meio tempo, novos episódios ilustraram como essa disputa passou a ser tratada. No início de 2026, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e raptaram Nicolás Maduro, chefe de Estado do país, sob acusações de que o mandatário teria supostas conexões com o tráfico internacional de drogas.
Mas havia outros interesses por trás da ação: a China se consolidou como maior compradora do petróleo venezuelano. Em 2025, o país asiático chegou a absorver entre 55% e 80% do total exportado pelo país latino. Somado a isso, desde 2016, empresas chinesas já haviam investido cerca de US$ 2,1 bilhões no setor petrolífero venezuelano. Para os EUA, esse cenário era uma clara ameaça a seus interesses internos.
Essa intervenção estadunidense em um país latinoamericano, no entanto, não foi a única. Ao longo da história, invasões e mudanças políticas promovidas pelo meio da força fizeram parte da trajetória do continente. Veja a análise do historiador Lindener Pareto:
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A corrida tecnológica como centro do mundo multipolar
Se no século XX o poder se media sobretudo pela capacidade militar e industrial, no século XXI a tecnologia ocupa papel central nas disputas globais. Com a popularização da internet, a influência das redes sociais na política interna e a transição energética, o controle sobre cadeias produtivas, dados, inteligência artificial e infraestrutura digital tornou-se um dos principais eixos de competição entre potências.
Nesse cenário, a disputa entre Estados Unidos e China, dois gigantes da tecnologia, se torna evidente. Washington busca preservar sua liderança histórica restringindo o acesso chinês a tecnologias sensíveis, como chips avançados, e pressionando aliados a seguirem o mesmo caminho. Pequim, por sua vez, responde com investimento estatal, fortalecimento de empresas nacionais e uma política de autonomia tecnológica.

Além disso, a tecnologia opera como ferramenta de influência. Plataformas digitais e sistemas de comunicação passaram a moldar a opinião pública e a circulação de narrativas em escala global. Num mundo hiperconectado, poder também significa capacidade de intervir no debate público.
Processos de derrubadas de governos marcadas por forte mobilização via redes sociais, como ocorrido no Nepal, em 2025, ilustram como esses instrumentos podem ser mobilizados politicamente. A fronteira entre comunicação, influência e intervenção torna-se difusa. Na era digital, as disputas de um mundo multipolar não se limitam às fronteiras físicas, elas atravessam redes, dados e algoritmos.
Veja mais em: China x EUA: como a China virou potência tecnológica e a atual corrida espacial da era da IA
Entre desafios e oportunidades
O mundo multipolar não é uma promessa de equilíbrio automático nem de justiça global. É, antes de tudo, um retrato de um sistema em transformação, no qual antigas hierarquias são tensionadas e novas disputas emergem. A centralidade dos Estados Unidos já não opera de forma incontestável, mas isso não significa o fim das assimetrias de poder.
A multipolaridade amplia o número de polos de poder com capacidade de influenciar o cenário internacional, mas também torna as relações mais complexas. Em vez de um único centro, há múltiplos polos em interação, cooperação e conflito. Essa dinâmica exige novas formas de leitura e compreensão da política global.
A própria Organização das Nações Unidas, principal estrutura de uma ordem baseada no multilateralismo, enxerga os desafios de um mundo multipolar.Ao mesmo tempo em que novas forças ganham espaço, as injustiças e divisões crescem. Na Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), em 2025, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou: “estamos caminhando para um mundo multipolar. Esta é uma realidade e uma oportunidade”.
Estamos diante de uma realidade em construção. Um mundo em que o poder é mais distribuído, mas também mais disputado. Nesse contexto, compreender a multipolaridade não é apenas um exercício teórico, mas uma ferramenta para interpretar os rumos de um planeta em constante movimento.
Se a história ensina que nenhuma hegemonia é permanente, o presente reforça que toda transição carrega incertezas. O mundo multipolar já é uma realidade, mas seu desfecho, como quase tudo na política internacional, segue em aberto.
