O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu o governo das críticas normalmente vindas do mercado e da grande imprensa, de que os juros são altos no Brasil porque o governo federal gasta muito. “Não é verdade que os juros são altos no Brasil porque o governo gasta muito”, afirmou, em entrevista nesta quarta-feira (6) ao programa Fala Ministro, da CanalGov, em que ele detalhou a ampliação do programa Desenrola e outras medidas de crédito e combustíveis.
Durigan atribuiu a alta da Selic principalmente ao cenário externo. Ele ainda disse que é preciso distinguir os motivos para essa taxa elevada, ressaltando que a inadimplência está entre os fatores que contribuem nessa direção.
O ministro destacou ainda que o governo está organizando as contas públicas e criticou a atuação de governos anteriores.
“A taxa de juros no Brasil é muito alta. O que precisamos distinguir são as razões para que isso aconteça. É um erro muito comum no país, uma resposta fácil dizer que a taxa de juros é alta porque o governo gasta muito. Não é verdade. O que temos que fazer, do lado do Ministério da Fazenda, é organizar as contas públicas. E não é organizar conta pública com um discurso fácil, dizendo que vamos fazer um teto de gastos pelos próximos 20 anos”, disse.
Segundo ele, quando o governo Michel Temer (2016-2018) fez o teto de gastos, “não valeu para o próprio governo Temer. Fez um déficit absurdo e jogou uma regra de teto para frente. No governo Bolsonaro, dizia-se que iria privatizar tudo para resolver, mas não houve privatização relevante; fizeram uma malfeita no fim do governo, a toque de caixa, o que também não resolve a conta do país”, pontuou.
Para ele, o alto patamar dos juros está mais atrelado hoje a questões externas. “A guerra tem desajustado a economia do mundo, fazendo com que os preços aumentem e pressionem a inflação. Como estamos protegendo o país da guerra, estamos ajudando a política monetária. Estamos agora numa trajetória de corte de juros e queremos que ela se aprofunde, pois é disso que o país precisa”, afirmou.
Durigan também destacou que “a taxa de juros não é, muitas vezes, a explicação para uma dívida específica das pessoas”.
“Quando se diz que o cheque especial está caro, que o rotativo está caro, os juros explicam o contexto, porque o dinheiro custa caro no país. Mas a inadimplência explica muito. Estamos começando a endereçar também a questão dos juros para as pessoas lidando com a inadimplência”, disse.
Na avaliação dele, o avanço da inadimplência no país tem origem no período pós-pandemia de Covid-19, quando o desemprego elevado, a queda da renda e o baixo reajuste salarial levaram milhões de brasileiros ao endividamento. Ele argumenta que as políticas atuais buscam justamente reorganizar esse cenário, e não estimular o não pagamento de dívidas.
Desenrola e o ciclo da inadimplência
O ministro ainda rebateu a crítica de que o programa poderia criar uma “cultura de perdão de dívidas”. Para ele, a iniciativa é uma resposta a um ciclo específico de crise econômica.
“Quando o presidente assumiu o governo, a dívida estava alta. Fizemos uma primeira leva de negociação olhando para essas dívidas mais antigas, que vinham se acumulando e atrapalhando a vida das pessoas negativadas”, explicou.
Durigan afirmou que o primeiro Desenrola contribuiu para a redução dos juros a partir de agosto de 2023, mas que o cenário internacional impediu a continuidade da queda esperada em 2024. Com isso, segundo ele, houve necessidade de uma nova etapa do programa.
O governo agora aposta em uma nova rodada do Desenrola, voltada a dívidas mais recentes, entre 90 dias e dois anos de atraso, com foco em cartões de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.
“É um processo único de dívidas que estavam acumuladas no país. Agora vem o novo Desenrola para terminar esse processo”, disse o ministro.
Ele destacou que a iniciativa terá prazo de adesão de 90 dias e deve ser tratada como uma oportunidade única de reorganização financeira. “Não é para deixar para um segundo momento. É preciso pagar as nossas dívidas.”
Segundo Durigan, o programa prevê descontos que variam entre 30% e 90%, dependendo da idade da dívida, além de juros reduzidos de até 1,99% ao mês após a renegociação.
Bancos e inadimplência
Ao comentar o impacto macroeconômico, o ministro afirmou que a redução da inadimplência tem efeito direto no custo do crédito no país.
“O principal aspecto que o setor financeiro aponta no debate público sobre o custo alto do dinheiro é o inadimplemento. Quanto mais gente inadimplente, mais pagamento cruzado de quem tem que pagar”, disse.
Ele defendeu que a diminuição das dívidas em atraso pode ajudar a reduzir pressões sobre juros no médio prazo.
Durigan também sinalizou que o governo estuda uma nova etapa do programa voltada a trabalhadores informais e consumidores adimplentes que enfrentam juros elevados, com anúncio previsto para os próximos meses.
“Nós estamos estudando uma segunda rodada para quem está adimplente e tem juros altos, especialmente o informal, que toma crédito caro no país”, afirmou.
Combustíveis e política de subsídios
A entrevista também abordou o preço dos combustíveis. O ministro atribuiu parte da volatilidade ao cenário internacional, especialmente ao impacto de conflitos no Oriente Médio, e afirmou que o Brasil tem adotado medidas para amortecer efeitos externos.
Ele destacou a criação de subsídios ao diesel, ao biodiesel e ao gás de cozinha, além da desoneração do querosene de aviação. Segundo ele, a estratégia envolve divisão de custos entre União e estados e busca garantir abastecimento e estabilidade de preços.
“Não queremos fazer como o governo anterior. Vamos dividir esforços para que o país siga bem e com abastecimento garantido”, afirmou.
Durigan também defendeu a proposta do governo de utilizar receitas extraordinárias provenientes da exportação de petróleo para reduzir tributos sobre gasolina e etanol, condicionada à aprovação do Congresso.
“Não vou usar esse dinheiro para estoque ou pagamento da dívida. Vou usar mantendo os compromissos fiscais, para melhorar a vida da população”, disse.
Veja outros tópicos abordados pelo ministro
Crédito rural: Ao tratar do agronegócio, o ministro afirmou que o governo mantém linhas de renegociação de dívidas e apoio a produtores afetados por eventos climáticos e oscilações de mercado. Segundo ele, desde 2023 já foram abertas linhas de crédito bilionárias para reestruturação de dívidas no setor. O ministro afirmou que o governo mantém diálogo com o Congresso para ampliar as linhas de renegociação de dívidas rurais, especialmente para produtores de média e maior renda que ficaram de fora de rodadas anteriores. Destacou que o agro segue como setor estratégico e produtivo para o país.
Dívidas de contas básicas no “Desenrola”: Durigan reconheceu a preocupação com inadimplência de contas de água, luz e gás, como no Ceará. Explicou que a estratégia será primeiro reduzir a dívida bancária das famílias para, em seguida, facilitar o pagamento das contas essenciais.
Relação com os EUA e agenda internacional: Comentou a preparação para encontro entre Lula e Donald Trump. Disse que o Brasil tem ampliado cooperação com os EUA em comércio, dados aduaneiros e combate ao crime organizado, além de discutir tarifas e desequilíbrios comerciais.
Terras raras e minerais críticos: Ele defendeu o novo marco regulatório em discussão no Congresso, baseado em dois pilares: soberania nacional sobre os recursos e incentivo à industrialização no Brasil, evitando apenas exportação de matéria-prima.
Fim da escala 6×1: Classificou o tema como geracional e ligado ao aumento de produtividade. Defendeu jornada de 40 horas semanais com dois dias de descanso, sem redução de salário e sem compensação tributária para empresas, mas com possíveis transições setoriais.
Articulação política no Congresso: Afirmou ter boa interlocução com o Congresso em pautas econômicas e destacou aprovação de mais de 70 medidas. Disse que a economia deve ser tratada de forma técnica, mesmo em ambiente político.
Endividamento e crédito: Alertou para o crescimento da inadimplência e defendeu expansão do crédito “bom”, com juros mais baixos para pequenos negócios e trabalhadores, além de incentivo a consignados e linhas produtivas.
Imposto de renda e digitalização: Apontou avanço na declaração pré-preenchida e defendeu simplificação futura do IR com integração de dados, reduzindo burocracia e tempo do contribuinte.
Concurso público e serviço público: Reconheceu aumento de contratações recentes após anos de baixa reposição no serviço público, mas afirmou que o ritmo deve desacelerar no fim do governo.
Agenda com os EUA e Pix: Defendeu o Pix como sistema público eficiente e disse que o Brasil está preparado para esclarecer dúvidas internacionais e reforçar cooperação com os EUA em diversas áreas.