Por Iago Filgueiras
Você já deve ter ouvido aquela história de que o futebol é o ópio do povo, mas a verdade é que ele funciona mais como um espelho da nossa própria história. Olhar para o passado das Copas do Mundo é, inevitavelmente, analisar como o planeta mudou nas últimas décadas. Enquanto a bola rola no gramado e as torcidas prendem a respiração, fora dos campos os torneios carregam contradições, disputas e refletem transformações sociais em curso.
Nesta retrospectiva, você vai relembrar as últimas seis edições do torneio para entender como o esporte e a política se entrelaçam. E para o torcedor brasileiro, essa jornada tem um ponto de partida nostálgico e muito específico: o ano de 2002, que marca a ultima copa que o brasil ganhou. De lá para cá, o mundo mudou radicalmente, e a nossa busca pelo hexa virou o fio de uma narrativa que se estende para além do campo.
2002: a última Copa que o Brasil ganhou

Quando alguém se pergunta qual foi a última Copa do Mundo que o Brasil ganhou, a resposta leva diretamente a 2002. Disputado na Coreia do Sul e no Japão, o torneio marcou o quinto título mundial da seleção brasileira, um feito que, ainda hoje, não foi alcançado por nenhuma outra nação do planeta.
O ano era 2002 e o mundo se preparava para a primeira Copa do Mundo do século XXI. Pela primeira vez, o torneio foi realizado em dois países ao mesmo tempo. Mas além disso, o evento ficou eternizado na mente dos brasileiros por um outro motivo: o Brasil venceu.
Com a Copa acontecendo do outro lado do mundo, o fuso horário não facilitou a vida dos torcedores do Canarinho. A diferença em relação ao Brasil era de 12 horas e os jogos aconteciam durante as tardes asiáticas. Mas para quem assistia daqui, a seleção entrava em campo durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã.
Quem viveu aquele período dificilmente esquece. Em 30 de junho de 2002, dois gols de Ronaldo Fenômeno garantiram a vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha na final e transformaram o Brasil em pentacampeão mundial. Mesmo disputada pela manhã, a partida mobilizou milhões de pessoas e parou o país. Foi naquele dia que Cafu ergueu a taça que, até hoje, representa a última Copa conquistada pela seleção brasileira.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2002:
- Países-sede: Coreia do Sul e Japão
- Mascote: Kaz, Ato e Nik, seres futuristas do planeta Atmozone que jogavam um esporte imaginário chamado “Atmoball”
- Classificação: 🥇Brasil, 🥈 Alemanha, 🥉 Turquia
Guerra ao Terror e aproximação simbólica entre japoneses e coreanos
A Copa de 2002 entrou para a história por diversas razões. Além de ter sido a primeira Copa do século XXI, a primeira organizada por dois países e ter eternizado o icônico corte de cabelo triangular de Ronaldo Fênomeno, ela ocorreu em um contexto internacional muito delicado. Apenas alguns meses antes do torneio, os Estados Unidos haviam sido alvos dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que mudaram para sempre a política internacional.
O mundo acompanhava o início da Guerra ao Terror, campanha militar, política e midiática liderada pelos EUA e que resultou na invasão do Afeganistão (2001) e do Iraque (2003), debates sobre violações do direito internacional e um crescimento sem precedentes da islamofobia. Com o clima de terror que pairava à época, havia a expectativa de que ataques pudessem ocorrer durante a Copa, um dos maiores eventos esportivos do mundo.
A escolha de Coreia do Sul e Japão como países sede também carregou um forte significado. Apesar de serem grandes parceiros econômicos, os dois países carregam traumas históricos ligados à ocupação japonesa da Península Coreana durante a primeira metade do século XX, que promoveu o apagamento da identidade nacional coreana, o alistamento forçado de mulheres para trabalho sexual e a escravização e morte de milhões de coreanos.
Para o Brasil, porém, a lembrança mais marcante continua sendo outra: até hoje, 2002 segue sendo a última Copa que o Brasil ganhou.
2006: a Alemanha reunificada e o auge da globalização

Realizada na Alemanha, a Copa do Mundo de 2006 foi a primeira disputa do Brasil após o pentacampeonato conquistado em 2002, a última que o Brasil ganhou, coroando o país como o maior vencedor da história do torneio. Agora o objetivo era outro: rumo ao hexa.
O elenco brasileiro chegou cercado de expectativas. Com Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e Roberto Carlos, a equipe era considerada uma das favoritas ao título. No entanto, o Brasil não passou das quartas de finais. A derrota veio pela França, em uma partida vencida por 1 a 0 pelos franceses, com um gol de Thierry Henry.
A final foi disputada entre Itália e França. Após empate por 1 a 1, a partida foi decidida nos pênaltis: os italianos venceram e garantiram seu quarto título mundial. O país anfitrião, a Alemanha, ficou na terceira colocação.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2006:
- País-sede: Alemanha
- Mascote: Goleo VI, um leão de pelúcia de dois metros de altura
- Classificação: 🥇Itália, 🥈 França, 🥉 Alemanha
Um mundo globalizado e os símbolos patrióticos alemães
Enquanto a bola rolava no campo, muita coisa acontecia no mundo. A Copa de 2006 aconteceu em um período marcado pelo avanço da globalização e pela ampliação da integração no continente europeu. Dois anos antes do evento, em 2004, a União Européia, então com 11 anos de existência, havia feito a maior expansão de sua história, com dez novos membros: Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia e República Tcheca.
Para os alemães, que sediaram o torneio, o evento representou muito mais do que futebol. Foi a primeira Copa organizada pelo país após a reunificação em 1990, que encerrou décadas de divisão entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental durante a Guerra Fria.
O evento foi a oportunidade de apresentar uma imagem mais moderna e aberta ao restante do mundo. Mas também marcou uma mudança profunda na sociedade alemã: por décadas, a simples menção de um nacionalismo alemão não era vista com bons olhos por boa parte do mundo, um trauma das atrocidades cometidas pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Foi com a Copa de 2006 que os alemães passaram a normalizar a exibição de símbolos nacionais.
2010: a histórica primeira Copa na África

Em 2010, foi a vez da África do Sul sediar a Copa do Mundo. Foi a primeira vez que o evento teve como anfitrião um país africano e, ainda hoje, é o maior evento esportivo já realizado no continente. Na esteira da glória trazida pela última Copa que o Brasil ganhou, a seleção brasileira começou o torneio sendo, novamente, a favorita.
À época, uma pesquisa encomendada pela Agência Reuters e realizada pelo Instituto Ipsos em vários países apontou que para 31% dos torcedores, o troféu seria novamente brasileiro. Logo atrás vinha a Argentina, com 9%.
O treinador da seleção brasileira era Dunga, ex-capitão na Copa de 1994 que rendeu o tetra ao Brasil, mas sem experiência prévia na função. À época, a escalação contava com nomes como Kaká, Luís Fabiano, Robinho, Ronaldinho Gaúcho e Daniel Alves. Mas nas quartas de final, após abrir vantagem em uma partida contra a Holanda, a seleção sofreu um revés e acabou eliminada por 2 a 1.
O evento ficou eternizado na memória de muita gente, inclusive na de quem nem havia nascido ainda, pela icônica música oficial do evento: Waka Waka (This Time for Africa), lançada pela cantora colombiana Shakira. O que pouca gente sabe é que a canção levantou debates sobre apropriação cultural, já que o refrão era idêntico a música Zangaléwa do grupo camarones Golden Sounds, lançada em 1986. A banda só foi incluída como coautora na versão de Shakira após ameaçar iniciar uma ação judicial.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2010:
- País-sede: África do Sul
- Mascote: Zakumi, um leopardo com corpo amarelo e cabelo verde
- Classificação: 🥇Espanha, 🥈 Países Baixos, 🥉 Alemanha
Uma nação moderna com cicatrizes antigas

Fora das quadras, a Copa de 2010 assumia também outros significados. Além de ser a primeira realizada no continente africano, tinha um objetivo especial para o país anfitrião. De 1960 a 1990 a África do Sul esteve banida do torneio como punição pelo sistema de apartheid que vigorava no país, um regime institucionalizado de segregação racial que impôs uma profunda violência à população negra sul-africana.
Em 2010, no entanto, as coisas eram diferentes. O país buscava projetar uma nova imagem e, além dos jogadores, a grande estrela da competição era Nelson Mandela, considerado o pai da moderna nação sul-africana, líder da luta contra o apartheid e internacionalmente reconhecido pelo Prêmio Nobel da Paz de 1993. Aos 91 anos, o evento foi a última aparição pública de Mandela.
Mas, ao mesmo tempo, o país também carregava contradições: embora o apartheid tenha chegado ao fim em 1994, o legado da segregação segue enraizado nas estruturas sociais e econômicas do país. Somado a isso, embora o evento tenha motivado melhorias na infraestrutura local e movimentado a economia local, os custos para construção dos estádios foram maiores do que os orçamentos iniciais e muitas arenas ficaram subutilizadas após o término da competição
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Copa do Mundo de 2014: quando o Brasil virou palco do mundo
Em 2014, a Copa do Mundo voltou ao Brasil pela primeira vez desde 1950. O país recebeu partidas em 12 cidades-sede e mobilizou bilhões de pessoas ao redor do planeta para acompanhar o maior torneio de futebol do mundo. Foi também a primeira edição da competição a utilizar oficialmente a tecnologia de linha de gol (goal-line), um sistema que detecta automaticamente se a bola passou pela baliza e envia um sinal para o relógio do árbitro.
Depois de três Copas sem conquistar o título, a expectativa dos brasileiros era alta. A seleção contava com uma nova estrela, Neymar. Desde 2010, o nome do menino Ney, como ficou conhecido pela torcida enquanto ainda jogava no Santos, já era sondado para integrar a seleção. E, em 2014, Neymar não só integrava o time, como era também o capitão.
O elenco contava também com David Luiz, Fred, Oscar, Hulk e Júlio Cezar, tendo Luiz Felipe Scolari, o Felipão, como técnico. A escolha do mesmo treinador que liderou a seleção que conquistou o penta, em 2002, deixava a expectativa ainda maior.
Mas a campanha terminou de forma traumática. Em 8 de julho de 2014, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, o Brasil sofreu uma derrota histórica para a Alemanha por 7 a 1 na semifinal. O resultado foi tão traumático que era difícil saber se a transmissão estava exibindo um replay ou um novo gol. A consequência? Uma derrota que rapidamente entrou para a memória coletiva nacional como um dos momentos mais dolorosos da história do esporte brasileiro.
A Alemanha acabaria conquistando seu quarto título mundial ao derrotar a Argentina por 1 a 0 na final, disputada no Maracanã. Os Países Baixos terminaram a competição na terceira colocação.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2014:
- País-sede: Brasil
- Mascote: Fuleco, um tatu-bola inspirado em uma espécie ameaçada de extinção
- Classificação: 🥇 Alemanha, 🥈 Argentina, 🥉 Países Baixos

“Não vai ter Copa” e as contradições brasileiras
Se dentro de campo a Copa de 2014 ficou marcada pelo 7 a 1, fora dele o torneio foi atravessado por disputas políticas que ajudaram a definir os anos seguintes da história brasileira.
Pouco mais de um ano antes do início da competição, as Jornadas de Junho de 2013 haviam abalado as estruturas do poder no país. O que começou como uma mobilização contra o aumento das tarifas de transporte público rapidamente se transformou em uma onda nacional de protestos que reuniu reivindicações diversas, desde melhorias nos serviços públicos até críticas à corrupção e aos gastos relacionados à realização da Copa.
Nesse contexto, ganhou força o slogan “Não vai ter Copa“. Embora o torneio tenha acontecido normalmente, a frase expressava a insatisfação de parte da população com os bilhões de reais investidos em estádios e obras de infraestrutura. Algumas intervenções prometidas para melhorar a mobilidade urbana foram reduzidas, alteradas ou sequer saíram do papel. Em São Paulo, por exemplo, uma linha de monotrilho prometida para a Copa de 2014, só foi inaugurada em 2026 — com dez estações a menos e custando, proporcionalmente, duas vezes a mais que o prometido inicialmente.

A realização do torneio também foi acompanhada por denúncias de irregularidades em contratos públicos, debates sobre o futuro de algumas arenas construídas para o evento e questionamentos sobre a remoção de comunidades. No Rio de Janeiro, a Aldeia Maracanã, uma aldeia urbana lar de diversas etnias indígenas, quase foi desapropriada e demolida para a revitalização do lendário estádio que leva o mesmo nome.
Mais de uma década depois, muitos debates levantados durante a Copa permanecem atuais. O torneio deixou obras, transformações urbanas e memórias esportivas, mas também abriu discussões sobre prioridades de investimento público, transparência e os limites dos chamados “legados” dos megaeventos.
2018: uma Copa em meio a sanções internacionais

Em 2018, a Copa do Mundo foi realizada na Rússia, tornando-se a primeira edição do torneio sediada no Leste Europeu. Enquanto o país anfitrião buscava surpreender dentro e fora dos gramados, o Brasil chegava à competição tentando encerrar um jejum que já durava 16 anos desde a última Copa que o Brasil ganhou, em 2002.
A seleção brasileira era comandada por Tite e contava com nomes como Neymar, Philippe Coutinho, Marcelo, Casemiro e Alisson. Após a traumática campanha de 2014, a equipe chegou ao torneio cercada por expectativas de recuperação e era apontada entre as favoritas ao título.
A caminhada brasileira terminou nas quartas de final. Em uma partida equilibrada, o Brasil foi derrotado pela Bélgica por 2 a 1 e deu adeus ao sonho do hexa. Os belgas acabariam conquistando a terceira colocação ao vencer a Inglaterra na disputa pelo bronze.
A grande campeã da competição foi a França, que derrotou a Croácia por 4 a 2 em uma final movimentada e conquistou seu segundo título mundial, vinte anos após a conquista de 1998. A campanha croata também chamou atenção: liderado por Luka Modrić, o país de pouco mais de quatro milhões de habitantes alcançou pela primeira vez uma decisão de Copa do Mundo.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2018:
- País-sede: Rússia
- Mascote: Zabivaka, um lobo vestido com as cores da seleção russa
- Classificação: 🥇 França, 🥈 Croácia, 🥉 Bélgica
Futebol, geopolítica e a busca da Rússia por prestígio internacional
A Copa de 2018 aconteceu em um momento de tensões entre a Rússia e potências ocidentais. Quatro anos antes, Moscou havia anexado a Crimeia, território internacionalmente reconhecido como parte da Ucrânia, provocando uma crise diplomática e sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

Nesse contexto, o torneio foi visto pelo governo de Vladimir Putin como uma oportunidade de fortalecer a imagem internacional do país. Ao receber milhões de turistas e atrair a atenção de bilhões de espectadores, a Rússia buscava demonstrar estabilidade, modernidade e capacidade de organização. Nas relações internacionais, esse tipo de estratégia é conhecido como soft power, ou seja, a tentativa de ampliar influência por meio da cultura, do esporte e da diplomacia.
A competição também foi a primeira Copa realizada após o escândalo de corrupção que abalou a FIFA em 2015, aumentando os questionamentos sobre os processos de escolha das sedes do torneio.
As tensões geopolíticas chegaram aos gramados. Após a eliminação da Rússia para a Croácia, o zagueiro croata Domagoj Vida publicou um vídeo com a frase “Glória à Ucrânia“, considerada provocativa por autoridades russas. Anos depois, após a invasão russa da Ucrânia em 2022, o episódio passou a ser visto como um sinal das disputas que já marcavam a região. Organizações internacionais também aproveitaram a visibilidade da Copa para denunciar violações de direitos humanos e restrições a direitos da população LGBTQIA+ no país.
2022: a Copa no Catar e o debate sobre direitos humanos

Em 2022, a Copa do Mundo chegou pela primeira vez ao Oriente Médio. Sediado pelo Catar, um pequeno país do Golfo Pérsico com cerca de 3 milhões de habitantes, o torneio entrou para a história por diversos motivos. Foi a primeira Copa disputada entre novembro e dezembro, uma mudança necessária para evitar as temperaturas extremas do verão catariano.
A edição também marcou a retomada dos grandes eventos esportivos após os anos mais críticos da pandemia de Covid-19. Dentro de campo, a Argentina conquistou seu terceiro título mundial ao derrotar a França nos pênaltis após uma final considerada por muitos uma das melhores da história das Copas.
O Brasil chegou ao torneio embalado por uma campanha consistente sob o comando de Tite e novamente figurava entre os favoritos ao título. Com jogadores como Neymar, Vinícius Júnior, Richarlison, Casemiro e Alisson, a seleção avançou até as quartas de final, mas foi eliminada pela Croácia nos pênaltis. Vinte anos após o pentacampeonato, a última Copa que o Brasil ganhou continuava sendo a de 2002.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2022:
- País-sede: Catar
- Mascote: La’eeb, representação animada do keffiyeh, o tradicional lenço de cabeça árabe
- Classificação: 🥇 Argentina, 🥈 França, 🥉 Croácia
Direitos humanos, soft power e um pen drive muito especial

Muito antes da bola rolar, a escolha do Catar como sede já era alvo de controvérsias. Organizações internacionais de direitos humanos questionavam as condições de trabalho dos trabalhadores migrantes empregados na construção de estádios, aeroportos, linhas de transporte e demais obras necessárias para receber o torneio.
Ao mesmo tempo, o país utilizou a Copa como uma estratégia de projeção internacional para fortalecer sua imagem global, atrair investimentos e ampliar sua influência diplomática por meio do esporte. Por outro lado, o torneio também foi marcado por debates envolvendo direitos das mulheres, liberdade de expressão e direitos da população LGBTQIA+. A FIFA chegou a impedir que algumas seleções utilizassem a braçadeira “One Love”, criada como manifestação de apoio à diversidade, decisão que gerou críticas de atletas, dirigentes e organizações civis.
Enquanto isso, no Brasil, a Copa acontecia em meio a um dos períodos políticos mais tensos desde a redemocratização. Poucas semanas após a eleição presidencial de 2022, o deputado federal Eduardo Bolsonaro chamou atenção ao ser flagrado assistindo a uma das partidas. Questionado, disse que estava no país para entregar um pen drive sobre a “situação do Brasil”.
Assim como ocorreu em outras edições recentes do torneio, a Copa do Catar mostrou que o futebol continua sendo uma poderosa ferramenta de projeção internacional.
2026: o mundo a beira de um abismo
A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história antes mesmo da bola rolar. Pela primeira vez, o torneio é realizado em três países simultaneamente: Estados Unidos, México e Canadá. A competição também passou por uma expansão inédita, reunindo 48 seleções e 104 partidas, tornando-se a maior Copa do Mundo já organizada.
Para o Brasil, a edição representa mais uma tentativa de encerrar um jejum que já dura mais de duas décadas. Desde a conquista sobre a Alemanha em 2002, a última Copa que o Brasil ganhou, diferentes gerações de jogadores tentaram alcançar o tão sonhado hexacampeonato. Em 2026, sob o comando de Carlo Ancelotti e com jogadores como Vini Jr., Neymar, Lucas Paquetá e Marquinhos, a seleção busca escrever um novo capítulo de sua história.
Mas fora do campo, o cenário internacional se mostrou complexo. Desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos, em 2025, Donald Trump iniciou uma intensa campanha de deportação e detenção de imigrantes. Como um dos países-sede da Copa de 2026, a medida tem impactado também o torneio. Seleções como a do Haiti e da Somália precisarão competir com pouco apoio da torcida, já que nacionais desses países são proibidos de entrar nos EUA.
Somado à isso, o país tem aplicado medidas controversas ao receber seleções participantes. O time do Senegal chegou a ser revistado com detectores de metal ainda na pista do aeroporto. Antes do torneio, ao desembarcar no país para um amistoso, a seleção do Uzbequistão foi revistada com o auxílio de cães farejadores.
Outro fator que levanta tensões é a guerra inciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, cuja seleção de futebol é uma das participantes da Copa de 2026. Em meio ao conflito, os jogadores iranianos foram proibidos de pernoitar em território estadunidense, mesmo em dias de jogo,e terão que se estabelecer no México enquanto durar o torneio.
Veja as principais informações da Copa do Mundo de 2026:
- Países-sede: Estados Unidos, México e Canadá
- Mascote: ainda não definido oficialmente pela FIFA
- Formato: 48 seleções participantes e 104 partidas
- Final: MetLife Stadium, nos Estados Unidos
Veja mais em: Começa a Copa da exclusão
Quando esporte e política se misturam
Enquanto para milhões de jovens brasileiros as vitórias da seleção Canarinho na Copa do Mundo são apenas histórias contadas pelos mais velhos ou vídeos nostálgicos nas redes sociais, para outros tantos milhões elas foram assistidas ao vivo, ouvidas no rádio, sentidas na pele e vibradas nas ruas. O jejum que acompanha o país desde a ultima copa que o Brasil ganhou, em 2002, escancara que há muito mais coisas entre a bola e o gol “do que sonha a nossa vã filosofia”.
O futebol nunca foi um mundo aparte, ele é atravessado pela realidade. Discutir o esporte sem enxergar as crises humanitárias e disputas políticas por trás é deixar passar uma parte importante do jogo.
Por isso, a busca pelo hexa em 2026 carrega um simbolismo que extrapola o futebol. Vencer o torneio não significa levantar a taça, significa ver o molho ganhando do sauce, a soberania se opondo ao imperialismo, a esperança prevalecendo sobre a barbárie. É uma tentativa de reencontrar uma identidade coletiva perdida, celebrando a nossa soberania e a nossa cultura em meio a um mundo em constante disputa.