O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a reunião do G7 para criticar medidas protecionistas, o neoliberalismo e os gastos militares que estariam desviando dinheiro do combate à pobreza.
O discurso do brasileiro ocorreu na tarde desta terça-feira, em Evian, e com o presidente Donald Trump na mesma sala. Conforme o ICL Notícias tinha antecipado, Lula não tocaria no nome do americano, inclusive para não abalar as negociações que estão ocorrendo entre Brasil e EUA.
Ao falar sobre o combate à pobreza, Lula insistiu que, nas cúpulas anteriores, os líderes sempre confrontaram “crises e desafios que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo”.
“Mas em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras. Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos”, disse.
Lula ainda atacou o atual modelo econômico. “O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”, disse.
Tarifas
Outro recado de Lula foi às barreiras criadas por diferentes governos, principalmente os EUA. “Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, alertou.
A frase ecoou, semanas depois de a Casa Branca anunciar a intenção de aplicar duas tarifas contra os bens brasileiros, no total de 37,5%.
Terras raras
O discurso ainda foi marcado por outras mensagens aos países ricos. Para Lula, “outro desafio que não pode permanecer excluído do debate sobre parcerias para o desenvolvimento é o acesso a tecnologias de ponta, como a Inteligência Artificial”.
“As transições energética e digital não podem reproduzir padrões históricos que concentram benefícios econômicos em poucos atores”, insistiu.
“Os países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais”, completou.
Pobreza e gasto com armas
Segundo Lula, a” distância que separa a prosperidade de Évian da realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo”.
“Nos últimos anos, a desigualdade entre países ricos e pobres tem aumentado”, insistiu. “O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários”, disse.
Segundo ele, o mundo caminha na contramão da Agenda 2030. “Faltam 4 trilhões de dólares por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A COP-30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para cumpri-los”, disse.
Ele ainda alertou que, para acelerar a implementação do Acordo de Paris, é preciso ampliar o financiamento climático para, pelo menos, um trilhão e trezentos bilhões de dólares.
“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, criticou. “No ano passado, registramos queda histórica de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento”, afirmou Lula.
Segundo ele, o Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento.
A Organização Mundial da Saúde e o UNICEF reduziram seus orçamentos em mais de 20%.
“Não são cifras abstratas”, disse.
“Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento. São milhões de pessoas sem acesso à alimentação adequada; crianças sem frequentar a escola; mulheres privadas de proteção; e comunidades vulneráveis diante de doenças que podem ser prevenidas”, afirmou.
Para Lula, guerras e conflitos também continuam desviando o foco da agenda do desenvolvimento. “Os gastos militares anuais somam quase 3 trilhões de dólares. Nossa tarefa é corrigir as desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica”, afirmou.
Lula ainda insistiu sobre a dívida dos países mais pobres. “O mundo em desenvolvimento transfere 1,4 trilhão de dólares por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos”, disse.
Para ele, a ajuda ao desenvolvimento segue sendo responsabilidade primordial dos estados e não pode ser repassado ao setor privado e doações. “Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”, defendeu.
Lula não adere a declarações do G7 sobre parcerias e Ebola
As críticas do Brasil ainda vieram acompanhadas por uma decisão de não aderir a pelo menos dois documentos negociados pelo G7. Como país convidado para a cúpula, o Brasil não teria possibilidade de influenciar no texto ou vetar trechos. Ainda assim, as autoridades nacionais tinham a possibilidade de aderir aos projetos.
Para o Palácio do Planalto, porém, os documentos não convergem com a posição do país. Num deles, sobre o Ebola, os países do G7 se recusaram a citar o papel da OMS (Organização Mundial da Saúde). O gesto foi adotado para garantir que Donald Trump também assinasse a declaração.
O Brasil tampouco aderiu ao texto que fala de parcerias internacionais. Para o governo Lula, o documento é desequilibrado e não lida com os principais desafios, como o protecionismo dos países ricos e a falta de compromisso dos governos em garantir que 0,7% de seus PIBs sejam destinados para a ajuda internacional.
No documento, os governo do G7 “reafirmam o compromisso com a cooperação internacional em matéria de desenvolvimento e financiamento de investimentos como motor da prosperidade partilhada e destacam a nossa disponibilidade para prestar apoio aos mais vulneráveis”.
Entre os convidados para a reunião, apenas Quênia e República da Coreia apoiaram a declaração. Para o G7, a arquitetura de financiamento do desenvolvimento internacional tem “servido os mais vulneráveis durante décadas”.
O documento vai justamente no sentido contrário ao que é alertado pelo Brasil.
“Promover o crescimento sustentável, reduzir a pobreza global e reforçar a resiliência global contra choques externos e naturais são objetivos fundamentais partilhados. Juntamente com o capital privado, o financiamento misto e o crédito justo e transparente, a ajuda oficial ao desenvolvimento em condições favoráveis continua a desempenhar um papel estratégico no apoio aos países parceiros e na abordagem dos desafios globais, em consonância com os nossos interesses mútuos e os nossos objetivos de desenvolvimento existentes”, disse a declaração.
Para o G7, basta “atualizar o atual sistema de desenvolvimento internacional para garantir que este atenda plenamente às necessidades das gerações futuras e aos desafios atuais”.
“Embora as políticas tradicionais de desenvolvimento tenham alcançado resultados importantes, por vezes tiveram um impacto limitado na redução da dependência financeira da assistência externa, no fortalecimento da apropriação nacional e na criação de incentivos ao crescimento. A arquitetura do desenvolvimento também se tornou excessivamente complexa, resultando numa utilização subótima dos recursos”, admitiu o G7.
Contrariando Lula, os países ricos insistem que “os recursos públicos são insuficientes por si só para satisfazer as necessidades globais de desenvolvimento”.
“Precisamos de catalisar reformas estruturadas para racionalizar a arquitetura do desenvolvimento e garantir a sua eficiência e impacto”, disse. Estamos unidos na reforma do sistema de cooperação para o desenvolvimento e na criação de parcerias mutuamente benéficas que tenham em conta os nossos interesses estratégicos e os dos nossos parceiros e que prevejam uma utilização estratégica e catalisadora dos recursos concessionais onde são mais necessários”, disseram.
O objetivo: atrair capital privado.