Por Cleber Lourenço
A Polícia Federal afirma que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, bancou viagens internacionais, voos em jatos particulares, hotéis de luxo, restaurantes caros e despesas pessoais do senador Ciro Nogueira (PP-PI).
As informações constam em uma representação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito das investigações sobre a relação entre Vorcaro e o parlamentar. Para a PF, os pagamentos são fortes indícios de vantagens indevidas recebidas por Ciro de forma dissimulada.
Segundo os investigadores, a análise do celular apreendido de Daniel Vorcaro revelou que cabia ao banqueiro custear viagens de luxo planejadas pelo senador, por vezes acompanhado de sua companheira, Flávia Rosalen.
A PF afirma que os benefícios incluíam acomodações de alto padrão em hotéis internacionais, voos em aeronaves privadas, restaurantes de luxo e outras despesas pessoais no exterior.
No documento, os investigadores dizem que as vantagens pagas por Vorcaro a Ciro não se limitavam aos voos em jatos particulares. Em alguns casos, segundo a PF, os deslocamentos faziam parte de um verdadeiro pacote de “mimos” oferecido pelo banqueiro ao senador.
A representação cita viagens a Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel, estação de esqui de luxo nos Alpes franceses.
Jatos particulares
A PF afirma que diálogos mantidos por Daniel Vorcaro com contatos identificados como “Berg” e Léo Serrano Giunchetti indicam que Ciro Nogueira foi beneficiado, ao menos em três ocasiões, com voos internacionais em aeronaves particulares ligadas ao banqueiro.
Segundo os investigadores, as datas das conversas coincidem com registros de saída do país constantes no Sistema de Tráfego Internacional, o que reforçaria a correspondência entre as mensagens e os deslocamentos realizados.
Para a PF, Ciro não precisava figurar como proprietário de aeronaves porque Vorcaro se mantinha à disposição para custear e disponibilizar os voos ao parlamentar.
A representação afirma que as despesas corriam por conta exclusiva do empresário.
Jantar em Paris
Um dos episódios descritos pela PF ocorreu em Paris, em abril de 2024.
Segundo a representação, Daniel Vorcaro conversou com um contato na França sobre o restaurante GIGI, estabelecimento de luxo especializado em culinária italiana.
Na troca de mensagens, Vorcaro pediu que o interlocutor fosse informado de que “o principal convidado se chama Ciro”.
A PF afirma que as mensagens demonstram a preocupação de Vorcaro em agradar o senador e confirmam que o banqueiro foi responsável pelo custeio do jantar.
De acordo com o documento, um e-mail enviado pela empresa SL Consulting, de propriedade de Léo Serrano, detalha o fluxo financeiro das despesas de turismo prestadas a Daniel Vorcaro e registra pagamento de US$ 1.981,12 no restaurante GIGI, o equivalente a aproximadamente R$ 10.175,82 pela cotação usada pelos investigadores.
Suíte de luxo em Nova York
A representação também aponta tratamento privilegiado dado por Vorcaro a Ciro durante viagem a Nova York, em maio de 2024.
Na cidade, foi realizado o Lide Brazil Investment Forum, evento que reuniu empresários, ministros do Supremo Tribunal Federal, governadores e outras autoridades políticas.
Segundo a PF, no dia 8 de maio, Vorcaro pediu a Léo Serrano a reserva de dois quartos no Hyatt: um para Ciro Nogueira e outro para Fábio Faria.
A referência ao Hyatt, segundo a investigação, era ao Park Hyatt New York, hotel de luxo localizado em Nova York. Vorcaro ainda teria orientado que, caso não fosse possível fazer as reservas no Hyatt, os quartos deveriam ser reservados no Aman New York, outro hotel de alto padrão da cidade.
Para os investigadores, o episódio mostra que os pagamentos não se confundiam apenas com eventuais despesas de patrocínio ou participação em eventos. O documento afirma que havia tratamento diferenciado e privilegiado concedido ao senador.
Courchevel, esqui e restaurantes caros
O trecho mais vistoso da representação envolve uma viagem de Ciro Nogueira e Flávia Rosalen a Courchevel, nos Alpes franceses, em janeiro de 2025.
Segundo a PF, Ciro e Flávia saíram de Guarulhos com destino ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, em 12 de janeiro de 2025. O retorno ao Brasil estava previsto para 25 de janeiro.
No dia 20 de janeiro, enquanto o casal estava na França, Daniel Vorcaro pediu a um contato identificado como “Sebastien Courchevel” que providenciasse a preparação de um quarto e realizasse o traslado de Ciro e Flávia a partir do Hotel K2 Palace.
Vorcaro informou ainda que os dois seriam hóspedes no chamado “Chalet do Alberto Leite”.
Na sequência, segundo os investigadores, o banqueiro passou a fornecer informações pessoais de Ciro e Flávia, como altura e numeração de calçado, possivelmente para aquisição de vestuário adequado à prática de esqui.
Para a Polícia Federal, as mensagens mostram a atenção de Vorcaro até mesmo com roupas e equipamentos necessários para a atividade de esqui do casal.
Conta de restaurante paga por Vorcaro
A PF também identificou mensagens sobre o pagamento de restaurantes durante a viagem a Courchevel.
Em conversa de 23 de janeiro de 2025, Léo Serrano perguntou a Daniel Vorcaro se era para continuarem pagando as contas dos restaurantes de Ciro e Flávia até sábado.
Vorcaro respondeu afirmativamente e acrescentou: “Depois levam meu cartão para St. Barths”.
Segundo a representação, a PF conseguiu identificar, por meio de mensagens de WhatsApp e registros de cartão de crédito, pagamentos em dois restaurantes específicos de Courchevel.
No La Soucoupe, as despesas atribuídas a Ciro e Flávia foram calculadas em R$ 63.600. No Le Tremplin, o valor foi de R$ 58.512. Os dois valores foram calculados com base na cotação do euro adotada pelos investigadores em 21 de janeiro de 2025.
A PF também menciona outros gastos realizados em Courchevel no período analisado, que, somados às despesas de restaurantes atribuídas ao casal, chegam a R$ 1.849.201,80.
O próprio documento, porém, faz uma ressalva: em um primeiro momento, não seria possível atribuir com segurança todos esses gastos adicionais ao custeio de despesas de Ciro e Flávia.
PF vê vantagens indevidas
Para a Polícia Federal, os episódios revelam um padrão de benefícios pagos por Daniel Vorcaro a Ciro Nogueira.
A representação afirma que o banqueiro custeava despesas de alto valor do senador, incluindo voos em jatos particulares, hospedagens internacionais, restaurantes e viagens de luxo.
Na avaliação dos investigadores, os pagamentos reforçam a suspeita de que a relação entre Vorcaro e Ciro não era apenas pessoal, mas envolvia vantagens indevidas associadas à atuação do senador em favor dos interesses do controlador do Banco Master.
O documento também cita outras frentes de investigação envolvendo Ciro e Vorcaro, como pagamentos mensais de R$ 300 mil, uma operação societária com empresa ligada ao senador, o uso de imóvel pertencente ao banqueiro e a suspeita de entrega de dinheiro em espécie por meio de aeronave.
A defesa de Ciro Nogueira deve ser procurada para manifestação. O espaço permanece aberto para o senador, Daniel Vorcaro, Léo Serrano, Fábio Faria e os demais citados.