Por Cleber Lourenço
A Polícia Federal identificou a compra de um apartamento de alto padrão em Salvador como um dos principais indícios da suposta relação entre gestores do Banco Master e o senador Jaques Wagner (PT-BA). A suspeita consta em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou medidas cautelares e buscas no âmbito da Operação Compliance Zero.
Segundo a PF, a investigação encontrou elementos que apontariam para a aquisição da unidade 1702 do empreendimento Poème Horto, em Salvador, avaliada em aproximadamente R$ 2,45 milhões, por meio de estruturas financeiras e societárias ligadas ao grupo investigado. A apuração busca esclarecer se o imóvel teria sido destinado ao senador ou a integrantes de seu núcleo familiar.
De acordo com a representação policial, em novembro de 2024, Jaques Wagner encaminhou a Augusto Ferreira Lima, apontado como um dos principais operadores ligados ao Banco Master, informações detalhadas sobre o empreendimento. Entre elas, o contato do corretor responsável pela venda, a identificação da unidade desejada e o valor do imóvel.
A investigação afirma que, após receber as informações, Augusto Ferreira Lima acionou Valério Marega Júnior, identificado nos autos como “Valério Fundos”, para tratar da operacionalização da compra. A PF sustenta que a aquisição acabou sendo realizada com a participação de outros operadores ligados ao grupo investigado.
Os investigadores afirmam que a compra formal do imóvel foi realizada pela empresa Epítome S.A., utilizando recursos provenientes de estruturas vinculadas ao grupo econômico sob investigação. Para a Polícia Federal, a operação apresenta características compatíveis com ocultação do beneficiário final do imóvel.
Tratativas continuaram após operação
Um dos pontos destacados pela PF é que as negociações envolvendo o apartamento teriam continuado mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero.
Segundo a decisão, mensagens encontradas pelos investigadores mostram que, em maio de 2025, Jaques Wagner encaminhou a Augusto Ferreira Lima uma solicitação recebida de um filho ou filha referente à reforma do imóvel. A mensagem pedia dados do proprietário formal da unidade para emissão do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT), documento necessário para a realização das alterações arquitetônicas.
A mensagem reproduzida nos autos dizia:
“Para emitir esse RRT são necessários dados do proprietário: nome completo, CPF, endereço atual completo com CEP, endereço da obra. Consegue esses dados?”.
No dia seguinte, segundo a PF, Augusto Ferreira Lima encaminhou ao senador o contato de David Lopes Monteiro, apontado como um dos operadores envolvidos na estrutura investigada.
Para os investigadores, a troca de mensagens reforça a hipótese de que o imóvel estaria formalmente registrado em nome de terceiros, enquanto o beneficiário real seria outra pessoa.
Relação de proximidade
A decisão também menciona outros elementos usados pela Polícia Federal para demonstrar a proximidade entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima.
Entre eles estão conversas sobre deslocamentos em aeronaves particulares, contatos com pilotos, encontros presenciais e o fornecimento de ingressos para shows internacionais destinados a familiares do senador.
A PF afirma ainda que a relação entre ambos teria extrapolado o campo pessoal e alcançado temas de interesse do Banco Master, incluindo discussões sobre crédito consignado, alterações relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e movimentações envolvendo a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A investigação segue em andamento. Até o momento, não há denúncia apresentada pelo Ministério Público nem julgamento sobre o mérito das acusações.