Defesa diz ao STF que Bolsonaro não sabia que Flávio divulgaria carta

Petição sustenta que a publicação foi iniciativa exclusiva do senador, embora sua fala pública apresente uma versão diferente sobre a mensagem
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Cleber Lourenço

A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que ele “jamais soube” que a carta entregue ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seria divulgada publicamente. A manifestação foi protocolada na tarde desta quarta-feira (15) e encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes, responsável pela execução penal do ex-presidente, em resposta à determinação para que a defesa esclarecesse as circunstâncias da divulgação do documento.

O pedido de explicações foi feito após Flávio Bolsonaro ler a carta em público e divulgar o vídeo nas redes sociais. Como uma das medidas cautelares impostas por Moraes proíbe Bolsonaro de utilizar terceiros para transmitir manifestações públicas ou acessar redes sociais de forma indireta, o ministro quer esclarecer se houve ou não descumprimento das restrições.

Na petição, os advogados sustentam que Bolsonaro escreveu a carta de próprio punho e a entregou ao filho durante uma visita regularmente autorizada, mas afirmam que nunca imaginou que o texto seria tornado público. Segundo a defesa, “jamais houve orientação, ajuste ou combinação prévia” para que o documento fosse divulgado e a decisão de publicá-lo foi tomada exclusivamente por Flávio Bolsonaro, sem ciência ou autorização do ex-presidente.

Os defensores também argumentam que Bolsonaro vem cumprindo rigorosamente todas as determinações impostas pelo Supremo desde o início da prisão domiciliar, que a redação de cartas manuscritas nunca foi proibida e que o ex-presidente já escreveu outros textos durante o cumprimento das medidas cautelares sem qualquer questionamento judicial.

A tese apresentada ao Supremo, no entanto, contrasta com a forma como o próprio Flávio Bolsonaro apresentou o documento ao público.

No vídeo em que lê a carta, o senador afirma que estava divulgando uma mensagem que Jair Bolsonaro gostaria que as pessoas soubessem. A declaração sugere que a publicidade do conteúdo correspondia à vontade do ex-presidente, em sentido oposto ao argumento agora levado ao STF de que Bolsonaro desconhecia completamente que o manuscrito seria divulgado.

Outro aspecto chama atenção na manifestação protocolada nesta quarta-feira. Entre os advogados que assinam a petição está o próprio Flávio Bolsonaro, regularmente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil e integrante da equipe de defesa do pai.

Na prática, o senador ocupa uma posição dupla no episódio. É apontado pela própria defesa como o responsável exclusivo pela divulgação da carta e, ao mesmo tempo, subscreve a manifestação que sustenta perante Alexandre de Moraes que essa decisão foi tomada sem qualquer conhecimento prévio de Jair Bolsonaro.

Embora a fala de Flávio não seja suficiente, por si só, para demonstrar que houve uma combinação prévia entre pai e filho, ela enfraquece um dos principais pilares da estratégia adotada pela defesa: convencer o Supremo de que a divulgação foi uma iniciativa isolada do senador, sem participação ou expectativa do ex-presidente.

Agora, caberá a Alexandre de Moraes analisar as explicações apresentadas pela defesa e decidir se elas afastam a hipótese de que Bolsonaro utilizou terceiros para transmitir uma manifestação política ao público, em descumprimento das medidas cautelares impostas no âmbito de sua execução penal.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail