Por Cleber Lourenço
A participação do presidente da Argentina, Javier Milei, em eventos políticos no Brasil e a negativa do Itamaraty à entrada de integrantes do governo dos Estados Unidos que pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro reforçaram um alerta que a inteligência nacional já vinha fazendo desde o ano passado.
Essa é a avaliação de servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ouvidos pelo ICL Notícias, que veem nos acontecimentos recentes a confirmação de um cenário monitorado há meses e alertam para o risco de uma escalada de tentativas de influência estrangeira ao longo da campanha presidencial de 2026.
Segundo os servidores, os episódios do último fim de semana não devem ser analisados de forma isolada, mas como parte de um contexto geopolítico mais amplo, em que governos estrangeiros, declarações públicas e campanhas de influência podem ser utilizados para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro e pressionar politicamente as instituições responsáveis por conduzi-lo.
A ressalva feita pelos próprios integrantes da agência é que essa leitura representa uma hipótese de inteligência, construída a partir do monitoramento do cenário internacional, e não uma conclusão definitiva.
Relatórios apontam risco de interferência
De acordo com os servidores ouvidos pela reportagem, relatórios produzidos pela Abin desde dezembro do ano passado já apontavam para a possibilidade de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro.
Além do documento tornado público à época, outros relatórios internos continuaram sendo elaborados e integram o monitoramento permanente realizado pela inteligência de Estado.
“O que foi alertado se tornou fato e a gente entende que isso pode haver uma escalada ao longo do processo eleitoral”, afirmou servidor da Abin que preferiu não se identificar.
Estratégia vai além da diplomacia
Na avaliação dos servidores, a interferência estrangeira moderna dificilmente ocorre por meio de uma única ação. O receio é de uma combinação de iniciativas diplomáticas, manifestações públicas, campanhas de propaganda e ações destinadas a influenciar a opinião pública, enfraquecendo a confiança nas urnas eletrônicas, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no Supremo Tribunal Federal (STF) e na legitimidade do processo eleitoral brasileiro.
A hipótese considera que, em um cenário de alinhamento político entre governos conservadores da América Latina e dos Estados Unidos, manifestações sucessivas de autoridades estrangeiras poderiam ampliar a pressão internacional sobre o Brasil durante o período eleitoral. Os servidores ressaltam, contudo, que esse cenário permanece como hipótese de análise e não deve ser tratado como fato consumado.
Inteligência diz atuar com limitações
Os servidores também afirmam que a capacidade do Estado de responder a esse tipo de ameaça hoje é menor do que poderia ser.
Segundo eles, a legislação que regula a atividade de inteligência, em vigor desde 1999, não acompanhou as transformações provocadas pelo ambiente digital e pelas redes sociais, deixando a atividade sem o respaldo jurídico necessário para monitorar campanhas de influência e produzir relatórios sobre ameaças à soberania nacional.
Um novo marco legal permitiria delimitar com maior clareza as competências da inteligência, ampliar os mecanismos de controle e oferecer segurança jurídica para o monitoramento de campanhas de propaganda e influência desenvolvidas principalmente em fontes abertas, como as redes sociais.
Os servidores sustentam que essa lacuna reduz a efetividade do trabalho da Abin justamente em um momento em que cresce a preocupação com ações voltadas à influência sobre o processo eleitoral brasileiro.
Além da ausência de uma atualização legislativa, eles apontam restrições orçamentárias, contingenciamentos e perda de estrutura como fatores que enfraquecem a inteligência de Estado em um momento considerado crítico.
Intelis vê confirmação dos alertas
A Intelis, entidade que representa os servidores da Agência Brasileira de Inteligência, vê “com muita preocupação” os acontecimentos registrados no fim de semana e avaliou que eles confirmam alertas feitos anteriormente pela inteligência brasileira.
“A gente vê isso com muita preocupação. Houve o alerta, houve a confirmação. A Agência de Inteligência do Estado, via Abin, acertou. Só que, durante todo o governo e neste período, só há desmonte e sucateamento. Isso é muito preocupante”, afirmou a entidade.
Para a Intelis, o principal motivo de preocupação é que a ameaça prevista pela inteligência começou a se materializar justamente quando a estrutura responsável por monitorá-la enfrenta dificuldades para ampliar sua capacidade operacional e de assessoramento ao Estado brasileiro.