Evento da cultura e cultura do evento

Festa não se justifica porque gera lucro. Festa se justifica porque gera vida.
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Algumas leitoras e leitores dessa coluna sugeriram um texto de maior aprofundamento sobre o que defino como tensão entre evento da cultura e cultura do evento. Matuto há anos sobre isso, escrevendo e dando aulas sobre culturas de rua, futebol e festas sacro-profanas populares. Reparem que não falo em dicotomia, mas em tensionamento.

Defino como “evento da cultura” aquele que é resultado e prioriza dimensões culturais orgânicas – simbólicas, espirituais, materiais – da cultura. O evento da cultura é a culminância de vivências, expectativas, práticas coletivas cotidianas que elaboram sentidos de mundo, fortalecem laços comunitários, redes de proteção social, construção de identidades, transmissão de saberes, etc. Uma escola de samba ou um cortejo de maracatu, por exemplo, desfilam porque existem. O contrário (existir só porque desfilam) é o início do fim.

Já a “cultura do evento” se apropria, submete, esvazia e reduz essas dimensões orgânicas que citei ao protagonismo frio do mercado, da circulação de capital, dos interesses midiáticos, da diluição de sentido dos ritos em simulacros de pertencimento.

A relação entre evento da cultura e cultura do evento não opera de forma dicotômica, mas tensionada, rasurada, cheia de ambivalências, frestas, contradições, adequações ou transgressões. Festas juninas, carnavais, jogos de futebol, eventos religiosos, musicais, festas literárias, vivem esse tensionamento o tempo todo nas sociedades contemporâneas, em geral organizadas a partir dos interesses do capital.

Como lutar pelos eventos da cultura em um mundo cada vez mais marcado pela cultura dos eventos? Eis um tremendo desafio que, exemplifico, o povo do carnaval (e dos folguedos populares de forma geral) precisa encarar.

O que ocorre com os carnavais faz parte deste processo. No caso que conheço melhor, o das escolas de samba, atacar seu potencial disparador de pluralidades culturais a partir do protagonismo negro é estratégico para o processo de domesticação do evento da cultura pela cultura do evento.

A ideia – é o que especulo – não é acabar com as escolas de samba. É enquadrar as agremiações (e apenas as do grupo especial; as outras lutam para sobreviver) à condição de empresas turísticas de entretenimento circunstancial, destituídas de algumas de suas referências fundamentais como instituições de ponta da cultura popular. E tem gente dentro das escolas de samba que não percebe – ou percebe e concorda – com isso.

É o mesmo recorte disciplinador, higienizador e aniquilador que pretende, simplesmente, liquidar as pulsões festeiras e subversivas da rua; seja pela repressão, seja pelo enquadramento como negócio. Digo há tempos que uma ameaça tão forte quanto a do imaginário neopentecostal de demonização do carnaval e a flagrante demofobia das elites brasileiras é a captura da rua pelo mercado e da festa pela lógica do evento que proporciona a circulação de capital e só por isso se justifica.

Festa não se justifica porque gera lucro. Festa se justifica porque gera vida. Festejar se justifica porque subverte as pequenas mortes cotidianas em exercício soberano de alegria, restituindo dimensões coletivas da existência em um mundo que dilacera as coletividades em nome de um individualismo boçal.

Qual é a solução para lidar com esse tensionamento? Como valorizar um evento e inseri-lo na cadeia produtiva da economia criativa dando dignidade e protagonismo aos seus criadores? Como fazer isso respeitando vivências e fundamentos e entendendo a tradição como algo não estático, mas que opera na beleza daquilo que, eventualmente, se transforma exatamente para preservar a sua força?

Não sei responder, mas talvez seja conveniente escutar, como ponto de partida desse jogo, as nossas mais velhas e mais velhos.

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