Por Cleber Lourenço
Decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revela que a Polícia Federal investiga um suposto esquema de circulação de recursos envolvendo postos de combustíveis, empresas rurais, imóveis e até aeronaves particulares na apuração que mira o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e pessoas ligadas a ele.
Segundo os investigadores, os recursos teriam circulado por empresas diferentes antes de chegar ao destino final, enquanto parte das movimentações em dinheiro vivo teria coincidido com deslocamentos em aviões privados. Um dos principais eixos da investigação envolve os postos Petro São Francisco Combustíveis Ltda. e Petro São José Ltda.
Embora sejam empresas dedicadas formalmente ao comércio varejista de combustíveis, a Polícia Federal afirma que suas contas bancárias passaram a ser utilizadas para operações milionárias sem relação direta com a atividade do setor.
A decisão destaca que, a partir da análise das movimentações, foram identificadas transferências com destinos variados e de alto valor:
“foram identificadas transferências destinadas à aquisição de propriedades rurais, terrenos, máquinas agrícolas, bem como repasses à DJ Agropecuária, à Rocha Holding Patrimonial e a pessoas indicadas pelo senador Weverton Rocha, além de transferências diretas ao próprio parlamentar”, registra o documento.
Em outro trecho, os investigadores chamam atenção para um ponto considerado contraditório:
“as conversas interceptadas indicam que os postos Petro São Francisco e Petro São José enfrentariam dificuldades financeiras, embora tenham sido utilizados em operações de grande vulto econômico”, aponta a decisão.
O caminho dos R$ 5 milhões
A decisão também detalha uma operação específica que chamou a atenção da Polícia Federal.
Segundo o relatório, a empresa Qualitech Engenharia transferiu R$ 5 milhões para o Petro São Francisco. No mesmo dia, o mesmo valor teria sido repassado pelo posto à DJ Agropecuária.
“verifica-se a ocorrência de repasse integral e imediato do montante recebido, sem justificativa negocial aparente, o que indica possível utilização do posto como intermediário financeiro”, afirma a decisão de Mendonça.
Outras operações semelhantes teriam ocorrido posteriormente, com recursos chegando à Rocha Holding Patrimonial e a empresas ligadas a pessoas próximas ao senador.
Para a Polícia Federal, o padrão das transações levanta dúvidas sobre a natureza real das operações:
“impõe-se esclarecer se as movimentações correspondem a negócios efetivamente realizados ou se os postos de combustíveis estariam sendo utilizados como etapa intermediária de circulação de valores”, registra o documento.
Suspeita de transporte de dinheiro vivo
Outro trecho da decisão trata da circulação de dinheiro em espécie.
A Polícia Federal afirma que controles financeiros atribuídos à investigada Fayla Zulmira Menezes registram lançamentos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão e outros valores elevados em dinheiro vivo.
Segundo a investigação, essas movimentações ocorreram em datas próximas a conversas sobre aeronaves particulares, pilotos, hangares e deslocamentos entre Brasília e o Maranhão.
“observa-se coincidência temporal entre registros de movimentação de numerário em espécie e tratativas relacionadas à utilização de aeronaves privadas”, destaca a decisão.
Para os investigadores, esse conjunto de elementos reforça a hipótese de que aviões particulares possam ter sido utilizados no transporte de grandes quantias em espécie.
A decisão, no entanto, ressalta que a conclusão ainda depende de aprofundamento:
“a eventual utilização de aeronaves para transporte de valores em espécie constitui hipótese investigativa que demanda confirmação por outros elementos de prova”, afirma Mendonça.
Depósitos em espécie reforçaram a linha investigativa
Além da logística aérea, a Polícia Federal também descreve episódios de circulação física de dinheiro.
Um deles envolve Daniel de Faria Jerônimo Leite. Segundo a investigação, mensagens atribuídas ao senador Weverton Rocha indicariam orientação para que Anna Catarina Viana Rocha comparecesse à residência de Daniel. Pouco depois, foram registrados depósitos em dinheiro nas contas dos postos de combustíveis, seguidos de transferências à conta do parlamentar.
Em outro trecho, a decisão cita a apreensão de R$ 1 milhão em espécie realizada em maio deste ano com uma pessoa que, segundo a Polícia Federal, teria como destino um ex-assessor do senador.
“a apreensão de vultosa quantia em espécie, associada a vínculos com investigados, reforça a necessidade de apuração sobre eventual circulação de recursos fora do sistema bancário formal”, registra o ministro.
PF tenta reconstruir o caminho do dinheiro
A investigação sustenta que as movimentações financeiras não seguiam um fluxo simples entre quem pagava e quem recebia.
Segundo a representação acolhida pelo ministro André Mendonça, os recursos passariam por empresas diferentes, contas pessoais, holdings patrimoniais, postos de combustíveis e intermediários antes de chegar aos destinatários finais.
“o conjunto de elementos indica possível estrutura de intermediação financeira voltada à ocultação da origem e do destino dos recursos”, afirma a decisão.
Para a Polícia Federal, o objetivo dessa dinâmica seria dificultar a identificação do verdadeiro beneficiário econômico e da titularidade dos bens adquiridos.
Com o cumprimento das buscas autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, a expectativa dos investigadores é localizar documentos, planilhas, registros contábeis, aparelhos eletrônicos e arquivos capazes de confirmar ou afastar a hipótese de que os postos de combustíveis e a logística aérea faziam parte da estrutura utilizada para movimentar patrimônio e recursos financeiros.