O fim da leitura

Se as telas já disputam a atenção necessária para ler, a IA agora promete também cortar o esforço de escrever
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Estamos chegando ao fim da leitura. A revista The Atlantic publicou um artigo com um diagnóstico incômodo, dizendo que os EUA entraram numa era pós-letrada. As pessoas não esqueceram as palavras, mas quase ninguém sustenta a leitura de um texto longo até o final.

Uma pesquisa citada apontou que a leitura por prazer caiu 43% entre 2004 e 2023 e que quase 30% dos adultos americanos já não conseguem extrair uma inferência de um texto de poucas páginas. Parte da culpa é a substituição de livros por resumos, inclusive nas escolas.

Nesse contexto, ler um livro completo pode virar uma vantagem intelectual. Vale notar que a dificuldade de ler não é um defeito a ser removido, é o próprio benefício da leitura. Acompanhar um argumento longo exige atenção, memória, tolerância ao desconforto de encontrar ideias que a gente não aceita e é esse atrito que forma o julgamento.

A inteligência artificial entra na discussão por um caminho menos óbvio que o da distração. Se as telas já disputam a atenção necessária para ler, a IA agora promete também cortar o esforço de escrever, gerando textos automáticos. Escrever é organizar o pensamento, testar um argumento e automatizar a redação pode até parecer um ganho de produtividade, só que o custo é  terceirizar o ato de pensar. Comentei mais sobre essa ideia no episódio desta semana do RESUMIDO .

A diferenciação será entre quem usa a IA como ferramenta e quem delega o próprio raciocínio. Quinze anos atrás, dizer que as pessoas parariam de escolher o que consomem online e simplesmente aceitar o que fosse imposto soaria distópico e, no entanto, os feeds algorítmicos decidem isso hoje para quase todo mundo. O abandono do pensar segue o roteiro, pouco a pouco, devagar, até acelerar. E quando percebermos, pode ser tarde demais.

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