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Por Cleber Lourenço, Igor Mello e André Uzeda e Juliana Dal Piva

Mensagens descobertas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelam uma relação de proximidade entre o banqueiro e o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet.

Às 14h13 do dia 15 de março de 2025, Ciro Soares, advogado do banqueiro, enviou uma mensagem por WhatsApp para Vorcaro em que ele aparece  numa foto ao lado de Gonet. O advogado escreveu também as seguintes mensagens: “Liga aqui” e “Ele quer falar com você.” Ele, no caso, é uma referência direta ao procurador-geral.

Na sequência, o celular do banqueiro registrou quatro chamadas de voz com o advogado com duração de 57 segundos, 27 segundos, 17 segundos e, por fim, 3 minutos e 49 segundos.

Ciro Soares é uma peça central na investigação da PF. Ele mantinha interlocução direta e frequente com Vorcaro e aparece nas mensagens como ponte entre o banqueiro e Gonet.

É Ciro quem fala de sua proximidade com o procurador-geral, encaminha mensagens atribuídas a ele, tenta colocá-lo em contato com Vorcaro e trata de uma viagem a Londres que envolveria Gonet e seu filho, Pedro.

O ICL Notícias pediu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se posicionasse sobre as informações contidas no relatório da PF. A assessoria de Gonet informou que, por enquanto, não há manifestação sobre o tema.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

“Amizade é tudo”

A proximidade alegada por Ciro Soares com Paulo Gonet já aparecia nas conversas havia quase um ano. Em 14 de abril de 2024, o advogado escreveu a Vorcaro: “Amizade é tudo viu irmão”. Logo depois acrescentou: “Gonet é firme”.

Ciro pediu então que Vorcaro lesse uma mensagem que encaminharia e fez uma recomendação: “Fique só com vc”. A reportagem manteve a ortografia utilizada nas mensagens.

Ao analisar a troca, a própria PF a descreveu como uma conversa sobre a “aparente proximidade com Gonet”.

Em outra mensagem recuperada pelos investigadores, Ciro Soares relatou a Vorcaro ter feito um pedido diretamente ao procurador-geral sobre a desistência de uma candidatura.

“Cara, eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, pede o cara que o cara vai tomar uma porrada arretada.”

Na sequência do relato, o advogado afirmou que Gonet havia retornado a ligação:

“Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.”

A PF não encontrou no aparelho de Vorcaro um contato salvo como “Paulo Gonet” ou “Gonet”.

As referências ao procurador-geral surgiram principalmente nas conversas do banqueiro com Ciro Soares, o que ajuda a dimensionar o papel do advogado como intermediário entre os dois.

“Lhe adora”

A interlocução continuou depois das mensagens registradas em 15 de março de 2025.

No dia 28 daquele mês, Ciro encaminhou a Vorcaro mensagens que atribuiu a Gonet. Uma delas dizia:

“Que bom! Estou na torcida por vocês!”

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Outra afirmava:

“Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma.”

Ciro Soares encaminhou ainda a frase “Manda essa mensagem para ele”. Vorcaro agradeceu. O advogado respondeu: “Lhe adora”. E acrescentou: “Ele vai para Londres com a gente”.

No dia seguinte, 29 de março, Ciro voltou ao assunto. “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”, escreveu. Vorcaro respondeu: “Obvio ne”.

Ainda naquele dia, Ciro encaminhou outra mensagem ao banqueiro: “Você é uma máquina”. Na sequência, atribuiu a autoria: “Gonet mandou”.

Vorcaro autorizou despesas do filho de Gonet

A viagem a Londres ganhou contornos mais concretos em 11 de abril. Naquele dia, uma funcionária identificada no celular de Vorcaro como “Ana Matos Mkt” enviou ao banqueiro uma lista de convidados e perguntou se aqueles nomes estavam aprovados para viajar “com despesas pagas por nós”.

Vorcaro não aprovou toda a relação. Fez uma ressalva: “Pedro e ciro ok”.

A Polícia Federal identifica os dois como Pedro Gonet, filho do procurador-geral, e Ciro Soares e registra que ambos “teriam as despesas pagas para ida a Londres”. A conversa mostra que Vorcaro autorizou o custeio previsto para os dois, mas não identifica, nesse trecho, qual empresa ou pessoa faria o pagamento.

As tratativas continuaram. Em 19 de junho de 2025, Ciro informou a Vorcaro: “PG confirmou a ida pra Londres”. Em seguida, perguntou: “Pedrinho filho do PG pode ir com a gente”. Vorcaro respondeu: “Obvio”.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

“Reforçar com Andrei e Paulo”

Meses depois, a PF encontrou uma referência a “Paulo” em meio a anotações de Vorcaro sobre problemas enfrentados pelo Master.

Em 30 de outubro de 2025, o banqueiro escreveu no aplicativo de notas de seu iPhone:

“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco.”

Vorcaro continuou:

“Estou disponivel pra tratar e explicar qq coisa, so nao pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farao algo em breve.”

A anotação levou a PF a pesquisar no aparelho referências ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Os investigadores também reconstruíram o que Vorcaro fez com essas anotações. Ao cruzar registros de uso dos aplicativos, capturas de tela, arquivos temporários produzidos pelo iPhone e dados do WhatsApp, a PF identificou que, segundos depois de capturar as notas, o banqueiro enviou mensagens para um número salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Mendonça derrubou sigilo

O relatório foi produzido depois que Mendonça determinou, em 24 de agosto, que a PF apresentasse informações atualizadas sobre a identificação dos integrantes da suposta “rede de influência e monitoramento” atribuída a Vorcaro.

O ministro deu 72 horas para que a polícia identificasse as pessoas mencionadas no material apreendido, inclusive eventuais autoridades com foro, e apresentasse as interações existentes envolvendo esses nomes.

A PF entregou o relatório em 27 de agosto. No dia seguinte, Mendonça determinou que o material fosse separado da investigação original e autuado em um procedimento próprio, inicialmente submetido ao grau máximo de sigilo.

Nesta terça-feira, Mendonça tornou o processo público. O ministro afirmou que as novas informações apresentadas pela PF levam o caso ao plenário do STF e defendeu que a análise seja feita de forma pública e presencial.

Na segunda-feira (31), Mendonça já havia dado cinco dias para que a própria Procuradoria-Geral da República se manifestasse sobre o material produzido pela Polícia Federal.

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