Vorcaro orientou que pagamentos a esposa de Moraes não fossem feitos por Pix

Mensagens analisadas pela PF mostram ordem dada em outubro de 2025; relação com escritório também envolveu R$ 40 milhões em ativos ligados a jato e helicóptero
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Por Cleber Lourenço, Igor Mello e André Uzeda 

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro orientou, em 1º de outubro de 2025, que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes não fossem realizados por Pix.

A ordem consta no relatório da Polícia Federal que analisou mensagens e documentos apreendidos com o ex-banqueiro e aparece em meio a uma conversa sobre uma transação que também envolveu a negociação de R$ 40 milhões em ativos ligados a um jato e um helicóptero para o pagamento de honorários.

Segundo a PF, o então superintendente executivo de Tesouraria do Banco Master, Alberto Felix, informou a Vorcaro naquele dia que o Barci de Moraes havia sido pago. Logo depois, o ex-banqueiro deu a orientação sobre a forma das transferências.

Os policiais federais afirmam que “VORCARO orienta que os valores para o Escritório não devem ser pagos por meio do instrumento de pagamento PIX”.

O relatório não explica o motivo da determinação nem informa qual modalidade deveria ser utilizada no lugar do Pix.

Vorcaro reclama de pagamentos por Pix a mulher de Moraes
Vorcaro reclama de pagamentos por Pix a mulher de Moraes (Crédito: Reprodução)

A orientação surgiu meses depois de outra preocupação de Vorcaro com os pagamentos ao escritório da família do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em julho de 2025, após um pagamento de R$ 3,42 milhões ao Barci de Moraes, o ex-banqueiro orientou que ninguém tivesse acesso ao contrato.

Os registros integram uma sequência de negociações entre pessoas ligadas a Vorcaro e o escritório. As conversas mostram cobranças para liberar pagamentos e ativos, utilização de aeronaves, uma fatura de R$ 22,8 milhões e uma discussão na qual um interlocutor do ex-banqueiro menciona “risco reputacional grande” ao tratar da estrutura que ficaria vinculada aos bens.

R$ 40 milhões em ativos ligados a jato e helicóptero

Um dos contratos analisados pela PF foi firmado em 12 de maio de 2025 entre o Barci de Moraes e a Viking Participações, ligada a Vorcaro. O acordo estabelecia remuneração que poderia chegar a R$ 50 milhões ao longo de 36 meses.

Sete dias depois, em 19 de maio de 2025, Leonardo Palhares enviou a Vorcaro um termo de acordo e dação em pagamento relacionado ao contrato. O documento previa que R$ 40 milhões fossem quitados com ativos e os R$ 10 milhões restantes, por meio do ressarcimento de despesas decorrentes da utilização desses bens.

Entre os ativos estavam participações em empresas relacionadas a duas aeronaves: um Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, e um helicóptero Airbus EC 155 B1. O Legacy pertencia à Fraction 024 Administração de Bem Próprio, enquanto a Fraction 053 estava em processo de aquisição do helicóptero.

O termo de doação dizia que as ações estavam em nome da Viking e seriam transferidas ao Barci de Moraes antes mesmo do encerramento dos serviços jurídicos contratados.

As mensagens mostram que Vorcaro acompanhava diretamente a definição de como essa operação seria feita. Ao discutir com Palhares duas possibilidades para estruturar a transferência, o ex-banqueiro rejeitou uma das alternativas e afirmou:

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

A declaração não significa que o Barci de Moraes já fosse formalmente proprietário das aeronaves naquele momento. Ela mostra, porém, que Vorcaro tratava os ativos como já destinados ao escritório enquanto seus interlocutores ainda discutiam a maneira de formalizar a transferência.

“Já usaram aviões e helicópteros”

As conversas posteriores indicam que a relação com os ativos avançou para além da discussão contratual.

Em 16 de julho de 2025, Vorcaro cobrou uma solução e afirmou que o assunto “ja era pra ter resolvido”. Na conversa, questionou ainda se os bens não estavam sendo utilizados.

Marcos da Mata respondeu que os ativos estavam liberados e escreveu:

“Já usaram aviões e helicópteros”

Em outra conversa reproduzida no relatório, Marcos perguntou a Viviane Barci de Moraes sobre a utilização das cotas:

“estão gostando da utilização das cotas de vcs”

Viviane respondeu:

Sim, estamos gostando muito”

O Legacy 650 voltaria a aparecer nas mensagens em agosto. No dia 21 daquele mês, Thatiane Prime informou a Vorcaro que o PP-NLR estava agendado para atender “Barci” no dia seguinte. O ex-banqueiro respondeu:

“Nao deixe de atender barci”

Fatura de R$ 22,8 milhões e “risco reputacional”

Em 24 de julho de 2025, outro episódio registrado pela PF mostra que a estrutura envolvendo o escritório continuava sendo discutida.

Um contato identificado como “Ana Claudia Financeiro1” informou a Vorcaro que Palhares “está pedindo para pagar” uma fatura emitida pelo Barci de Moraes em nome da Viking. O valor era de R$ 22.815.120,95.

No mesmo dia, Vorcaro procurou Palhares para saber se havia alteração no contrato. Inicialmente escreveu “ta trocando contrato barco?” e, logo depois, corrigiu: “Barci”. Palhares respondeu que havia estado com “Guilherme” na semana anterior e conversado também com “MArcos”.

Foi nessa conversa que apareceu uma preocupação com a exposição dos responsáveis pela empresa que ficaria vinculada aos ativos. Palhares escreveu:

“Eles queriam que a empresa que fosse dona do ativo fosse uma que os sócios estão muito visíveis e haveria risco reputacional grande”

Em seguida, afirmou:

“O Guilherme está conferindo com a chefe dele se vão adotar uma estrutura diferente para a propriedade dos ativos ou não”

As tratativas documentadas pela PF se estenderam por meses. Nesse período, Vorcaro discutiu a transferência de ativos, cobrou a liberação dos bens, foi informado sobre o uso de aviões e helicópteros pelo Barci, determinou que o escritório fosse atendido com o Legacy e acompanhou cobranças milionárias.

Em outubro, quando Felix comunicou mais um pagamento, o ex-banqueiro acrescentou uma nova orientação à forma como a relação financeira vinha sendo conduzida: dali em diante, os valores destinados ao escritório não deveriam ser pagos por Pix.

Os metadados de um documento extraído pela Polícia Federal revelam que o ministro do STF, Alexandre de Moraes, editou a versão final de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o empresário Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master. Essa informação foi publicada inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O escritório se manifestou com a seguinte nota:

“Em virtude da abrangência do pedido de contratação de prestação de serviços advocatícios pelo Banco Master ao BARCI DE MORAES, o setor de compliance do escritório, como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente. 

Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados.”

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