Hábito de leitura: como ler mais sem transformar livros em obrigação

Pesquisas sobre formação de hábitos mostram por que repetição, interesse e rotina podem ajudar a ler com mais frequência, enquanto metas de produtividade e a disputa pela atenção dificultam a relação com os livros
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Criar um hábito de leitura costuma aparecer na lista de objetivos pessoais ao lado de outras metas: ler todos os dias, terminar mais livros no ano, conhecer os clássicos, diminuir o tempo no celular. A intenção é simples. Manter a prática durante semanas ou meses costuma ser a parte mais difícil.

A leitura também disputa espaço em uma rotina cheia de estímulos. Mensagens chegam enquanto você trabalha, vídeos curtos ocupam intervalos antes vazios e uma mesma tela oferece notícias, redes sociais, séries, jogos e livros. Nesse ambiente, sentar e permanecer vinte ou trinta minutos diante de uma única história exige condições que nem sempre estão disponíveis.

A dificuldade cresce quando a leitura entra na lógica do desempenho. Contar páginas, estabelecer rankings anuais e insistir em obras que perderam o interesse pode transformar uma atividade de formação, informação ou lazer em mais uma tarefa a cumprir. Pesquisas sobre formação de hábitos ajudam a compreender por que outro caminho tende a ser mais sustentável: repetir uma ação possível, associá-la à rotina e encontrar motivos para voltar ao livro.

O hábito de leitura nasce da repetição

A formação de um hábito envolve a repetição de determinado comportamento em contextos semelhantes até que realizá-lo passe a exigir menos planejamento consciente. Foi o que pesquisadores da University College London observaram no estudo How are habits formed: Modelling habit formation in the real world, publicado no European Journal of Social Psychology.

Os participantes escolheram comportamentos relacionados à alimentação, ingestão de água ou atividade física e tentaram repeti-los diariamente em uma situação recorrente, como depois do café da manhã. O tempo necessário para atingir 95% do nível estimado de automaticidade variou de 18 a 254 dias. Deixar de realizar a atividade uma vez não provocou prejuízo de longo prazo na formação do hábito.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou 20 estudos, envolvendo 2.601 pessoas, e encontrou variação ainda maior. Nos trabalhos que calcularam o período necessário para formação de hábitos, as medianas ficaram entre 59 e 66 dias, enquanto indivíduos levaram de 4 a 335 dias. Os autores consideraram que as evidências disponíveis contradizem a conhecida regra dos 21 dias.

Esses estudos analisaram principalmente comportamentos ligados à saúde. Portanto, eles não permitem afirmar que uma pessoa precisará de 59, 66 ou qualquer outro número de dias para desenvolver o hábito de leitura. A contribuição das pesquisas está em outro aspecto: hábitos tendem a se fortalecer com repetição, estabilidade do contexto e tempo.

Quanto tempo é preciso ler por dia?

As pesquisas reunidas não estabelecem uma duração mínima diária capaz de criar o hábito de leitura. Metas de 10, 15 ou 30 minutos podem funcionar como organização pessoal, porém não representam uma prescrição científica.

A revisão do estudo de 2024 encontrou que objetivos modestos e alcançáveis podem favorecer a formação de hábitos, enquanto frequência e repetição aparecem associadas ao fortalecimento do comportamento.

Isso ajuda a explicar por que começar com cinco páginas ou poucos minutos pode fazer sentido. O objetivo inicial é criar oportunidades para repetir a leitura. Se esse período cabe na rotina, existe maior chance de que você consiga reproduzi-lo em outros dias.

Ler mais depende de disciplina ou de rotina?

E-books permitem carregar diferentes obras em um único dispositivo e ampliam as possibilidades de encaixar a leitura em diferentes momentos do cotidiano. Foto: Getty Images 
E-books permitem carregar diferentes obras em um único dispositivo e ampliam as possibilidades de encaixar a leitura em diferentes momentos do cotidiano. Foto: Getty Images

A disciplina pode ajudar alguém a iniciar uma prática. A formação do hábito acrescenta outro componente: reduzir, ao longo do tempo, a quantidade de decisões necessárias para começar. Planejar quando e em que situação realizar a atividade também aparece entre os fatores relacionados ao desenvolvimento da automaticidade.

Para a leitura, isso significa procurar um ponto recorrente do cotidiano. Pode ser depois do café, durante um trajeto, na pausa do almoço ou antes de dormir. O horário específico depende da rotina de cada pessoa. A repetição em situações reconhecíveis importa mais para esse mecanismo do que escolher uma hora considerada ideal.

Existem algumas estratégias para criar o hábito de leitura. O ponto de partida é facilitar a repetição e encontrar condições para que a prática encontre espaço no cotidiano. Entre as possibilidades estão:

  • Comece com metas pequenas: reserve inicialmente poucos minutos para a leitura e aumente o período conforme a prática se encaixa no cotidiano. Uma meta menor pode ser mais fácil de repetir do que uma quantidade elevada de páginas
  • Aproveite momentos que já fazem parte do dia: o trajeto no transporte público, uma pausa ou o período antes de dormir podem funcionar como momentos recorrentes para ler
  • Deixe o livro acessível: manter a obra por perto reduz uma etapa entre a intenção e o início da leitura. Isso pode significar deixá-la na cabeceira, carregá-la na mochila ou manter o e-book disponível no dispositivo usado no dia a dia
  • Escolha obras relacionadas aos seus interesses: começar por um gênero, assunto ou autor que desperte curiosidade pode favorecer a continuidade da leitura.
  • Reduza as distrações: silenciar notificações ou afastar o celular durante o período reservado ao livro ajuda a diminuir interrupções e mudanças frequentes de atenção
  • Troque de livro se a leitura perder o sentido: terminar todas as obras iniciadas não precisa funcionar como regra. Escolher outro título pode preservar o interesse e evitar que a leitura fique associada apenas à obrigação de concluir livros

Veja mais: A importância da leitura e literatura em tempos pós-modernos

Metas de leitura não precisam medir produtividade

Metas anuais podem oferecer uma maneira de acompanhar aquilo que foi lido, mas também podem se transformar em mais um fator de pressão. Quando terminar determinada quantidade de livros passa a orientar a escolha das obras, o tempo dedicado a cada uma ou a decisão de abandonar uma leitura, a contagem começa a ocupar um espaço que antes pertencia à própria experiência de ler.

Dedicar mais tempo à leitura também não significa, por si só, aproveitar melhor esse período. Uma pessoa pode passar horas diante de um texto com a atenção dividida, enquanto outra pode ler por menos tempo e conseguir acompanhar argumentos, estabelecer relações e reter informações. A quantidade de páginas ou títulos concluídos, portanto, oferece apenas uma medida parcial da relação construída com os livros.

Isso ajuda a colocar metas quantitativas em perspectiva: terminar 30 livros no ano informa quantos títulos foram concluídos, mas não revela sozinho o tipo de atenção, compreensão ou envolvimento dedicado a cada leitura. Algumas páginas podem exigir atenção prolongada, enquanto muitas outras podem ser percorridas rapidamente. Para criar um hábito de leitura, a meta pode funcionar como ferramenta de organização. Ela não precisa se tornar o critério pelo qual toda experiência com um livro é avaliada.

Veja mais: Leitura profunda em tempos de rolagem infinita: o que perdemos com o excesso de informação?

A economia da atenção disputa tempo com a leitura

Na economia da atenção, o tempo dos usuários se torna um recurso disputado por plataformas, anunciantes e diferentes formas de conteúdo. Foto: Getty Images 
Na economia da atenção, o tempo dos usuários se torna um recurso disputado por plataformas, anunciantes e diferentes formas de conteúdo. Foto: Getty Images

A dificuldade de manter o hábito de leitura também envolve o ambiente no qual a prática acontece. Quanto maior a quantidade de informação disponível, mais limitada se torna a atenção capaz de processá-la. Plataformas digitais transformaram permanência, dados e engajamento em elementos de seus modelos de negócio.

Feeds contínuos, notificações e vídeos curtos oferecem sucessivas oportunidades de mudar de assunto. A leitura de um romance, ensaio ou reportagem longa exige manter informações anteriores na memória, acompanhar argumentos e permanecer diante de uma mesma narrativa.

A leitura de conteúdos longos exige sustentar a atenção, reter informações apresentadas anteriormente e permanecer em contato com um mesmo raciocínio por mais tempo. Esse processo permite acompanhar argumentos extensos e construir uma compreensão do texto a partir das relações entre suas diferentes partes.

Essa dinâmica entra em atrito com o funcionamento dos feeds algorítmicos, organizados para oferecer uma sequência contínua de novos estímulos. A discussão também se amplia para a inteligência artificial: se ferramentas passam a resumir, interpretar e produzir textos sob demanda, parte do esforço envolvido tanto na escrita quanto na leitura pode ser transferida para sistemas automatizados. Nesse cenário, a questão envolve também quanto tempo permanecemos em contato com um argumento antes de substituí-lo por uma síntese ou por outro conteúdo.

A associação entre a dificuldade de manter-se concentrado e a dificuldade de cumprir tarefas que exigem leitura cuidadosa já aparece, inclusive, nos números. Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2025 já mostram uma piora nos índices relacionados à leitura. O estudo é realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) a cada três anos e avalia o desempenho de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências.

As últimas edições mostram uma queda no desempenho dos alunos quando o assunto é ler. Em 2018, os países membros da OCDE tinham uma média de 493 pontos nesse quesito. Em virtude da pandemia da Covid-19, a edição seguinte do estudo só foi realizada em 2022 e mostrou uma queda de 11 pontos. Já na edição de 2025, a competência leitora dos alunos obteve uma média de 466, a menor em toda a série histórica. O próprio estudo reconhece que existe uma relação entre a maior dificuldade de permanecer concentrado experimentada pelos jovens e a queda nos resultados.

Para quem tenta criar um hábito de leitura, esse cenário ajuda a explicar por que simplesmente reservar tempo pode não resolver o problema. Dez ou vinte minutos disponíveis continuam sujeitos a interrupções se forem divididos entre livro, mensagens, notificações e outras abas. Construir uma rotina passa, portanto, por criar períodos em que a atenção consiga permanecer no texto tempo suficiente para acompanhar seu desenvolvimento, ainda que a quantidade de páginas lidas seja pequena.

Reduzir distrações não exige abandonar as telas

Criar períodos sem notificações, manter o celular distante durante alguns minutos ou terminar um capítulo antes de abrir outra plataforma são formas de diminuir interrupções, em possibilidades para recuperar períodos de concentração.

Isso não coloca o livro físico e tecnologia em campos opostos. A definição de competência leitora da OCDE inclui a leitura em plataformas digitais, avaliação de fontes, distinção entre fatos e opiniões e construção de conhecimento.

A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Leitura (IPL) e pelo Ministério da Cultura, em 2024, também considera livros digitais. Entre brasileiros que já haviam lido nesse formato, a maioria declarou acessar obras baixadas gratuitamente na internet. E-books e bibliotecas digitais podem ampliar as possibilidades de acesso.

O hábito de leitura também depende de tempo e acesso

A dificuldade de ler no Brasil ultrapassa a organização individual.

A Retratos da Leitura no Brasil 2024 estimou 93,4 milhões de leitores, equivalentes a 47% da população com 5 anos ou mais. Em 2019, eram 100,1 milhões, ou 52%. Para a pesquisa, leitor é quem leu inteiro ou em partes pelo menos um livro nos três meses anteriores à entrevista.

A mesma pesquisa ajuda a observar como o tempo livre vem sendo ocupado. Entre 2015 e 2024, a parcela de brasileiros que declarou usar esse período para ler livros caiu de 24% para 20%, enquanto o uso da internet cresceu mais de 30% no período. A comparação não permite atribuir a queda da leitura ao avanço da internet, mas mostra que os livros passaram a disputar esse tempo com atividades digitais.

O acesso também faz parte das políticas públicas voltadas à formação de leitores. A Lei 13.696 de 2018, que instituiu a Política Nacional de Leitura e Escrita, reconhece o acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas como direito. A norma prevê ampliação de acervos, fortalecimento de bibliotecas e formação de mediadores.

Esse debate também já ocupa eventos dedicados ao livro. A Festa Literária Internacional da Mantiqueira (FLIMA 2026) incluiu em sua programação discussões sobre renda, educação, bibliotecas e políticas públicas relacionadas à formação de leitores. Festivais literários podem ampliar o contato entre público, autores e obras, enquanto políticas permanentes atuam sobre as condições de acesso ao longo do tempo.

Veja mais: FLIMA 2026 discute memória, censura e acesso aos livros

Uma rotina possível pode levar você mais longe do que uma meta perfeita

Criar um hábito de leitura não exige estabelecer um recorde pessoal logo no começo. As pesquisas sobre formação de hábitos sugerem um processo gradual, apoiado em repetição, estabilidade do contexto, escolha pessoal e tempo.

Para quem quer ler mais, isso pode significar começar com poucas páginas, associar o livro a um momento recorrente, escolher uma obra que desperte interesse e proteger aquele período de interrupções. Um dia sem leitura também não apaga as repetições anteriores.

No Brasil, esse esforço individual convive com outra questão: formar leitores exige acesso a livros, bibliotecas, educação e tempo disponível. A queda registrada pela Retratos da Leitura mostra que o desafio não se resume a convencer pessoas a ler.

Uma rotina pode começar com cinco páginas hoje e nenhuma promessa sobre quantos livros haverá na estante daqui a 6 meses. O hábito se constrói quando existe espaço para voltar ao texto amanhã, depois de amanhã e nas semanas seguintes.

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