Em despedida, chefe da ONU denuncia ‘coerção’ de potências e fratura do mundo

Antonio Guterres abre a Assembleia Geral da ONU em Nova York e acusa grandes potências de ter abandonado princípios e regras internacionais
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“As linhas de fratura do nosso mundo estão se alargando”. Foi assim que o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, iniciou seu discurso na Assembleia Geral em Nova York, nesta terça-feira (22).

Em seu discurso de despedida e sem citar líderes, ele não poupou críticas contra superpotências que, ao longo dos anos, passaram a minar o direito internacional e as instituições. Para ele, o poder precisa ter “regras e princípios”. “O maior poder não é dominar, é construir de forma conjunta o futuro”, alertou.

O português encerra em cem dias sua década no comando das Nações Unidas. Ao terminar seu discurso, foi aplaudido de pé. Mas deixa uma organização em frangalhos e imobilizada por uma decisão política de alguns de seus maiores atores. Apenas Donald Trump acumula uma dívida de US$ 4,2 bilhões com a ONU forçando a instituição a ter de demitir apenas em 2026 cerca de um quinto de seus funcionários.

Guterres apresentou uma lista dos desastres na humanidade e a explosão das guerras, enquanto a disputa pelo poder é explícita. “Não são crises isoladas”, afirmou Guterres. “São capítulos da mesma história. A história do poder. Quem o detém? A quem ele é negado?”

O chefe da ONU fez um alerta às potências. Segundo ele, o poder militar, isoladamente, não pode garantir a paz, assim como tampouco o poder tecnológico ou econômico.

“Devemos agir para garantir que o poder seja regido pela lei”, disse Guterres. “A força não pode ser o árbitro final sobre cujas vidas e cujo futuro importam”, alertou.

O secretário-geral da ONU afirmou que a paz no século 21 é mais do que a ausência de conflito. “É a presença da contenção”, disse ele.

Para ele, instituições continuam refletindo uma era que já passou e o desafio é construir uma nova realidade. Segundo ele, o Conselho de Segurança precisa ser reformado e uma das maiores incoerências é o de não contar com um país africano.

Inteligência Artificial controlando o mundo?

Guterres ainda alertou para como, de forma crescente, o poder hoje vem de algoritmos e tecnologia, e isso estaria concentrado em um número pequeno de pessoas e empresas.

“O perigo não é a tecnologia. Mas tecnologia precisa ter controle”, alertou. Para ele, os governos têm a responsabilidade de proteger suas populações e aqueles com maior poder tecnológico, tem uma responsabilidade com o mundo.

Guterres insistiu na necessidade de coordenação entre os governos para lidar com IA e insistiu que ela precisa ser “moldada pela humanidade, para toda a humanidade”.

Seu apelo foi claro: “Maquinas não podem decidir quem morre ou vive. Robôs assassinos não podem ter lugar no nosso futuro”, disse.

“Precisamos governar a IA antes que ela nos governe”, alertou.

Direitos de mulheres sob ataque

O secretário-geral da ONU afirmou ainda que mulheres e meninas em todo o mundo continuam a enfrentar “discriminação, violência e abuso”. “Seus direitos estão sendo cerceados, suas vozes silenciadas, seus corpos transformados em campos de batalha e suas liberdades tratadas como moeda de troca”, disse Guterres. “Isso é um ultraje e uma perda profunda para a humanidade.”

Ele ainda apelou ao mundo que não devam “perder de vista a situação devastadora em Gaza, nos territórios palestinos ocupados”. “O que se seguiu aos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 foi uma ofensiva contra os palestinos em Gaza com uma escala de mortes sem precedentes em meus anos como secretário-geral”, disse Guterres.

 


 

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