Os agelastos, apreendi num delicioso livrinho de Milan Kundera, são os que não sabem rir. Não porque lhes falte sentido de humor, mas porque estão convencidos de que, sendo a verdade demasiado séria, ela impõe uma certa solenidade quando é dita, o que é incompatível com o riso. Pela sua parte, diz Kundera, sempre procurou manter-se longe das pessoas que apesar de serem inteligentes e dignas, não vivem “em paz com o cómico”.
O poder, nem todo, é certo, sempre teve uma certa inclinação para o agelasto. A sessão extraordinária sessão do Supremo Tribunal Federal do Brasil prometia tudo isso — o assunto era grave e sério, nada de brincadeiras. E, no entanto, apesar das becas, das fórmulas, das citações, das câmaras de televisão e do país inteiro a observar, a solenidade foi interrompida por Fábio Porchat.
Flávio Dino perguntou ao presidente do Tribunal, Edson Fachin, se tinha visto o vídeo de Porchat. Não tivera tempo: estivera ocupado com os ofícios que continuavam a chegar e que, numa escolha vocabular involuntariamente cómica, classificou de “hemorrágicos”. Dino explicou-lhe que devia ver o vídeo porque os ministros estavam, afinal, na mesma situação dos jornalistas. Ele próprio chegara atrasado à sessão porque estivera a decretar prisões. Era tanta petição, tanto papel, tanta urgência, que Porchat já não estava apenas a representar os jornalistas. Estava também a representar o Supremo.
O humor não resolve a questão de saber quem tem razão, mas reduz momentaneamente as proporções. Dá à vida numa nova perspetiva. Nesse momento, o homem de toga voltou a ser um homem. O ministro tem sono. O presidente não consegue ler os papéis todos. O jornalista quer ir para a cama. E uma instituição que discute os mais altos princípios constitucionais descobre, por alguns segundos, que também pode ser vista de fora — e rir-se de si própria, ao ver-se ao espelho. Só o poder inseguro precisa de estar permanentemente em pose. A autoridade que depende da ausência de riso já começou, de alguma maneira, a transformar-se em teatro.
Naturalmente, há precauções a tomar. O contrário do agelasto não é o engraçadinho. Há um humor que nasce da inteligência e outro que nasce da facilidade. Um descobre o ridículo escondido pela solenidade; o outro é a piada pronta e de efeito fácil. O primeiro introduz uma dúvida. O segundo procura uma claque com piada previsível, de efeito previsíveis,
Sempre desconfiei instintivamente dessa “afetação da solenidade” que precisa de fazer pose. Na maior parte dos casos ela serve para disfarçar a tolice dando-lhe a aparência de profundidade. Entre todos os mecanismos de controlo do poder — Constituições, leis, recursos, parlamentos, imprensa — existe um outro, muito mais frágil e que não consta de nenhum código: a possibilidade de rir e de surpreender o ridículo por detrás da solenidade. Porchat, de pijama, entrou por alguns segundos no Supremo Tribunal Federal. E o Supremo sobreviveu. Nada desabou.