Nas redes, Nossa Senhora mobiliza 2,4 mi de publicações em meio à disputa eleitoral e judicial

Polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida soma 24,7 milhões de interações durante campanha eleitoral
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Por Gabriel Gomes

A circulação nas redes sociais da informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil transformou o debate religioso em uma dos principais assuntos políticos da reta final da campanha.

O senador negou a intenção, mas o episódio chegou à Justiça Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal (STF) e acumulou 2,4 milhões de publicações e 24,7 milhões de interações entre 24 e 29 de setembro, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX).

Na segunda-feira (28), em meio à repercussão, Flávio participou de uma caminhada em São Paulo ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e apareceu segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O gesto ocorreu depois de o candidato ter acusado integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de ajudar a disseminar a informação sobre a suposta retirada do título. A entidade negou a acusação.

Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas levantam imagem de Nossa Senhora
Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas levantam imagem de Nossa Senhora. (Foto: Reprodução)

Fake news vira um dos principais eixos

Segundo o DX, o enquadramento de “fake, mentira ou desmentido” reuniu 590 mil resultados, equivalentes a 24,4% do total monitorado. O eixo ganhou força principalmente depois de correção feita pela GloboNews e das decisões judiciais.

No recorte de perfis políticos e imprensa, 73% das publicações classificadas nesse eixo vieram de perfis identificados pelo levantamento como de extrema direita. O conteúdo passou a tratar a controvérsia como uma informação falsa criada ou impulsionada pela esquerda e pela GloboNews.

O relatório também identificou 621 publicações que apresentavam como fato a retirada da padroeira e outras 1.101 relacionadas à checagem e à negação da alegação.

Religião entra na disputa eleitoral

A discussão sobre Nossa Senhora Aparecida passou a ser associada diretamente à disputa pelo eleitorado religioso. O eixo “defesa da padroeira e impacto eleitoral” reuniu 364,2 mil resultados, enquanto o tema “retirada do título e eleição” somou outros 155,4 mil.

O levantamento mostra que a polêmica deixou de se limitar à existência ou não de uma proposta para alterar o título de Nossa Senhora. Ao longo dos dias, passaram a ocupar espaço as decisões judiciais, acusações de desinformação, manifestações da CNBB, declarações de Lula e Flávio e a mobilização de grupos católicos e evangélicos.

Entre 24 e 29 de setembro, o monitoramento identificou 6.555 publicações de perfis políticos e veículos de imprensa, que somaram 140 milhões de interações. A extrema direita respondeu por 45% das publicações, a esquerda por 43% e a imprensa por 12%.

Disputa chega ao Judiciário

A discussão ganhou dimensão política e religiosa depois que uma apuração da GloboNews associou a controvérsia a uma possível articulação de grupos evangélicos. A emissora posteriormente corrigiu a referência ao projeto, esclarecendo que o texto citado havia sido arquivado anos antes. A informação, porém, continuou circulando e passou a ser incorporada à disputa eleitoral.

Flávio também voltou ao centro da discussão por uma declaração feita durante a pré-campanha, quando afirmou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Em meio à repercussão, o candidato passou a apresentar a fala como simbólica.

O episódio ganhou uma nova dimensão quando entrou na Justiça. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a remoção de mais de 1,6 mil publicações que apresentavam como certa a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.

No dia 27, o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu a decisão e permitiu novamente a circulação dos conteúdos. Na noite de 28 de setembro, Luiz Fux tomou uma decisão em sentido contrário e restabeleceu a ordem de remoção.

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