Por Cleber Lourenço
Aos 84 anos, Benedita da Silva (PT-RJ) disputa uma cadeira no Senado com o argumento de que parte dos direitos que ajudou a construir ao longo de mais de quatro décadas de vida pública está novamente em jogo. Em entrevista ao ICL Notícias, a deputada federal afirma que uma composição mais conservadora da Casa pode colocar em risco conquistas trabalhistas e sociais e afetar temas que vão das cotas e dos direitos das mulheres à proteção dos povos originários, ao SUS e às universidades públicas.
“Estamos falando de direitos concretos que conquistamos e que correm o risco de ser cassados”, afirma Benedita. Ela lembra que participou da Assembleia Constituinte e foi relatora, décadas depois, da PEC das Domésticas. Agora, diz querer voltar ao Senado para “defender os direitos que conquistamos e avançar naquilo que ainda falta conquistar”.
Nascida no Rio de Janeiro, Benedita construiu sua trajetória política a partir da favela. Foi empregada doméstica e assistente social antes de se eleger vereadora, aos 42 anos. Depois, tornou-se deputada constituinte, deputada federal, senadora, governadora do Rio de Janeiro e ministra. Na entrevista, resume essa trajetória em uma frase: “Saí da favela, mas ela nunca saiu de mim”.
Na reta final da disputa, Benedita também endurece o discurso contra seus adversários Carlos Jordy e Carlos Portinho, associa os dois ao bolsonarismo e os chama de “lobos em pele de cordeiro”. A deputada ainda responde aos questionamentos sobre sua idade e diz estar preparada para cumprir um eventual mandato até os 92 anos. “Eu tenho saúde, trabalho todos os dias, cumpro agenda, viajo, vou à Câmara, faço campanha e tenho uma vida absolutamente ativa.”

Leia a entrevista:
ICL Notícias — A senhora tem 84 anos e uma longa trajetória na vida pública. Por que decidiu disputar agora um mandato de oito anos no Senado?
Benedita da Silva — Eu costumo dizer que não sou candidata apesar dos meus 84 anos. Sou candidata por tudo o que esses 84 anos me ensinaram. Eu vim da favela, passei por muitas privações. Fui empregada doméstica, criança eu já empurrava carrinho de feira de madame. Me formei assistente social antes de ser vereadora, aos 42 anos. Depois, me elegi constituinte, fui seis vezes deputada, senadora, governadora e ministra de Estado. Saí da favela, mas ela nunca saiu de mim. É por causa do povo pobre que eu ainda trabalho. Para transformar luta em direito.
A senhora espera que o eleitor leve em conta sua trajetória?
Não. Prefiro que elas pensem que a experiência que acumulei pode contribuir muito neste momento gravíssimo que vivemos. Para ajudar o meu país a se proteger do crescimento da extrema direita no Brasil e no mundo e para ajudar a eleger Lula presidente e Eduardo Paes governador para resgatar o Rio do domínio da criminalidade. O crime não tomou apenas as ruas e boa parte das comunidades do Rio de Janeiro. Ele também tomou espaços do aparelho do Estado.
A senhora vinha liderando as pesquisas com folga, mas nesta reta final as pesquisas Quaest e Real Time Big Data mostram uma disputa apertada, com crescimento de Carlos Jordy e Carlos Portinho. Como avalia esse cenário?
Eu nunca faço campanha olhando pesquisa. Pesquisa boa, para mim, é a que a gente vê na urna. Agora, o eleitor precisa entender que nesta eleição não estamos escolhendo apenas dois nomes. O Jordy e o Portinho representam o bolsonarismo. Um projeto que mistura política com religião e usa a mentira como estratégia de poder; que invoca o nome de Deus em vão, ao mesmo tempo em que, como foi o caso do Jordy, gasta verba de gabinete para ir a casas de saliência.
Portinho é outro hipócrita. Se diz contrário às BETs, mas quando foi relator de um projeto que proibia a propaganda das apostas, preferiu fazer um substitutivo flexibilizando a publicidade. Fez uma emenda de R$ 4,8 milhões para uma ONG investigada pela PF que tinha dois filhos de uma funcionária dele na folha de pagamento. São lobos em pele de cordeiro.
Mas para além disso. Estamos escolhendo quem vai votar as grandes questões nacionais nos próximos oito anos. Porque o Senado tem muito poder. Ele revisa projetos aprovados pela Câmara, tem atribuições exclusivas em temas fundamentais, que envolvem política externa, tem poder aprovar ou negar nomeação de autoridades e fazer o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. A composição do Senado terá consequências para o país muito além desta eleição.
Concretamente, o que poderia mudar no país com uma composição mais conservadora do Senado?
Vou te dar um exemplo. Eu estava na Constituinte quando conseguimos garantir o reconhecimento constitucional da profissão das trabalhadoras domésticas, mas só em 2013, décadas depois, conseguimos aprovar a PEC das Domésticas, da qual fui relatora, que ampliou esses direitos e garantiu a elas o FGTS. E quem foi o único deputado que se posicionou contra aquela PEC, no primeiro e no segundo turno de votação? Ele mesmo: Jair Bolsonaro.
Essa turma não gosta do povo trabalhador. Não querem a escala 5×2. Eles defendem sempre o patrão, nunca o empregado. Estamos falando de direitos concretos que conquistamos e que correm o risco de ser cassados. Estamos falando da política de cotas, da proteção dos direitos das mulheres e dos trabalhadores, da população negra, do direito dos povos originários às suas terras, do SUS, das vacinas, da universidade pública e da estabilidade das instituições democráticas. Eu quero estar no Senado para defender os direitos que conquistamos e avançar naquilo que ainda falta conquistar.
A sua idade virou um tema recorrente nesta campanha. A senhora considera que está sofrendo etarismo? Como responde a quem questiona se terá disposição para cumprir um mandato até os 92 anos?
Eu digo que podem ficar tranquilos (risos), porque meu pai viveu até os 107 anos, lúcido, e morreu dormindo. Eu tenho saúde, trabalho todos os dias, cumpro agenda, viajo, vou à Câmara, faço campanha e tenho uma vida absolutamente ativa.
Mas essa discussão revelou para mim uma questão ainda maior: quantos brasileiros chegam à chamada terceira idade e são tratados como cidadãos de segunda classe, como se não tivessem mais nada para oferecer? O Brasil está envelhecendo. Precisamos falar de saúde, trabalho, renda, autonomia, convivência e combate ao etarismo. Eu vou levar essa discussão para o Senado.