Nos grandes veículos de comunicação, as eleições deste ano são tratadas como se fossem apenas mais uma efeméride no calendário democrático do Brasil. Flávio Bolsonaro segue sendo apresentado como candidato comum. Alvo de acusações de corrupção, como vários outros políticos, mas comum.
O foco das críticas da imprensa na reta final da temporada eleitoral de 2026 tem-se concentrado no que os comentaristas globais e os editorialistas classificam de ativismo judicial do STF.
Poucos jornalistas da grande mídia chamam atenção para o mais importante: o risco de ruptura democrática.
O maior problema de Flávio Bolsonaro não é o fato de ter tomado grana de Daniel Vorcaro. A corrupção de quem usa a politica para enriquecimento pessoal é algo grave, abjeto mesmo. Mas não é nada novo no histórico do presidenciável do PL, conhecido pela rachadinha na Alerj, pela compra de imóveis milionários com dinheiro vivo e outras mutretas.
O pior de Flávio é a intenção de destruir o arcabouço institucional do Brasil, implantar um governo autocrático e entregar a soberania do país numa bandeja a Donald Trump.
É a corrupção estrutural da democracia o grande perigo.
Poderia ser engraçada, se não fosse trágica, a repetida reclamação de jornalistas como Merval Pereira e Malu Gaspar de que a campanha deste ano não teve apresentação de propostas de governo.
As propostas de Flávio Bolsonaro são totalmente conhecidas. Quer libertar o pai, preso por tentativa de golpe; quer subjugar o Judiciário, numa ofensiva contra os ministros do Supremo que tomaram decisões que o contrariaram e, principalmente: quer entregar o controle do pais ao presidente dos Estados Unidos.
Se ainda há jornalistas que duvidam dessa intenção, é o caso de perguntar se não deveriam fazer algum teste de cognição. Que também examinem a memória, diante do rápido esquecimento de fatos tão graves quanto os que se sucederam em Brasília em dezembro de 2022 e janeiro de 2023.
Talvez falar em risco para a soberania, como Lula repetidamente faz em seus discursos e entrevistas, seja algo muito abstrato para tocar a maioria dos brasileiros.
Já os jornalistas deveriam saber a desgraça que isso representa e destacar esse perigo.
Se querem uma amostra do que será o Brasil caso se torne filial dos EUA, basta ver o que está acontecendo na Bolívia.
Responsável pela prisão do argentino Fernando Cerimedo, principal aliado dos EUA na tarefa suja de manipular uma máquina de desinformação contra adversários políticos na América Latina, o procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, foi detido na quarta-feira (30). Ninguém sabe ainda ao certo qual autoridade determinou sua prisão por policiais encapuzados. Foi, na verdade, um sequestro, já que não houve mandado judicial. Tudo com base em supostas acusações feitas pela Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA).
Em jogada combinada com o governo Trump, ao qual é rendido, o presidente boliviano Rodrigo Paz disse que nomeará um novo procurador-geral — o que é inconstitucional, já que a tarefa cabe ao Legislativo. Ao mesmo tempo, Marco Rubio comemorou e revogou o visto de 20 funcionários do governo da Bolívia.
Resumo: em resposta à autoridade que prendeu seu aliado na manipulação da política dos países da América Latina, o governo norte-americano colocou as instituições da Bolívia de joelhos.
E isso é só o começo.
Diante de ameaça de algo parecido (ou pior) acontecer por aqui, é incompreensível que Flávio Bolsonaro continue passeando pelo noticiário como se fosse político convencional. Tudo em nome de uma suposta isenção em que ninguém mais acredita.
Enquanto isso, figuras como Malu e Merval se concentram na malhação a Alexandre de Moraes pelo contrato de R$ 129 milhões da mulher do ministro com Daniel Vorcaro (sem duvida escandaloso), mas aliviam nas críticas às relações de André Mendonça e Nunes Marques com o banqueiro do Master.
Para esses jornalistas, a intenção de Mendonça era moralizar o STF. Para este colunista, o objetivo do ministro terrivelmente evangélico foi desgastar o colega de Corte, visto pelos bolsonaristas como principal inimigo, e facilitar a narrativa do filho 01 e seus irmãos de que a condenação de golpistas como Jair não teve legitimidade.
Se essa lógica estiver certa, Mendonça nada mais seria do que mais um integrante no time do golpismo, de que Flávio é o principal atacante.
Espero que não tenhamos que testar as teses na prática, e que, apesar da falta dos necessários alertas por parte da imprensa, as urnas nos livrem desse risco.
Afinal, a Bolívia é logo ali.