Por Amanda Cotrim (de Buenos Aires)
O segundo turno da eleição brasileira ganhou uma dimensão particular para os foragidos condenados ou investigados pelos crimes de 8 de janeiro. Centenas deles romperam as tornozeleiras eletrônicas e fugiram para países da região e para os Estados Unidos em busca de refúgio político. A Argentina é o principal destino. A escolha não é por acaso; o país é governado pelo presidente de extrema direita Javier Milei, aliado político de Jair Messias Bolsonaro, condenado por liderar a trama golpista.
Os envolvidos nos atos do dia 8 de janeiro que pedem refúgio político na Argentina acreditam que a eleição de Flávio Bolsonaro (PL) mudará os seus destinos.
“Estamos todos aflitos aguardando o resultado da eleição. Se o Flávio Bolsonaro ganhar, não vamos precisar mais de refúgio. Além disso, ele fez campanha defendendo o perdão dos crimes. Se Flávio ganhar, o perdão vem”, disse à reportagem Symon Filipe de Castro Albino, que fugiu para a Argentina em busca de refúgio político e hoje se encontra no Chile, segundo relatou.
Em novembro do ano passado, Albino foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão pela sua participação nos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.

Assim como ele, centenas de foragidos estão esperançosos com a eleição de Flávio Bolsonaro. O candidato já declarou que, se eleito, pretende conceder indulto aos condenados pela tentativa de golpe, incluindo o seu pai.
Flávio também afirmou que retomará o projeto de anistia, que atualmente está travado no Congresso. O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, já disse que vetará o projeto se ele avançar durante seu governo.
Juristas consultados pela reportagem explicaram que a anistia eliminaria os crimes e os efeitos da condenação, enquanto o indulto extinguiria a pena. O STF, entretanto, poderia contestar e anular um eventual indulto.
“A vitória de Flávio é a nossa esperança. Porque mesmo com um Congresso favorável, se ele não vencer, será mais difícil passar o projeto da anistia”, disse um foragido que pediu para não se identificar.
A reportagem apurou que, nos grupos de WhatsApp dos foragidos, circula a versão de que o STF, pressionado, negociaria a liberdade dos condenados para evitar um possível processo de impeachment de seus ministros, uma vez que o Senado — com mais força do bolsonarismo em 2027 — é o que pode aprovar o impedimento de ministros do STF.
Ao ICL, o advogado argentino Rodrigo Tripolone, defensor de dois foragidos presos na Argentina, disse que seus clientes aguardam o resultado do segundo turno no Brasil.
“Acreditamos que depois das eleições, o futuro deles será decidido”, afirmou.
“Tenho esperança também que vai sair o refúgio político depois do segundo turno, porque é uma decisão política e será mais fácil para Milei [se ganhar Flávio]”, completou.

Bolsonarista deixa de ser evangélico e vira “macumbeiro”
Albino, que foi pastor evangélico, disse à reportagem que os últimos quatro anos como foragido o fizeram “ver de verdade quem estava ao seu lado”.
“Mudei da água para o vinho. Sou macumbeiro agora. Da Umbanda”. Ele contou que mudou de religião na Argentina. “Quando eu era pastor, era visto como ‘Deus’; depois que fiquei foragido virei o diabo”, desabafou, referindo-se ao isolamento de familiares e amigos.
Segundo ele, que supostamente fugiu do Brasil com a ajuda de uma mãe de santo, a mudança de religião não interfere em sua posição ideológica. “Continuo bolsonarista. Quero voltar ao Brasil e defender que ser bolsonarista não tem nada a ver com ser hétero ou cristão.”
De acordo com Albino, há pessoas que não são cristãs no bolsonarismo, mas que escondem sua religião por medo. Questionado se seguiria pertencendo a um grupo que não respeita sua fé, disse que deixaria o movimento caso não fosse aceito.
“Te digo que 90% do bolsonarismo é evangélico e as pessoas se escondem. Eu quero mostrar que eu sou bolsonarista e da Umbanda. Mas, a partir do momento que eu sentir que o bolsonarismo não me aceita por causa da minha religião, eu caio fora”, disse.

Cinco seguem presos na Argentina
Em dezembro de 2025, o juiz argentino Daniel Rafecas autorizou a extradição de cinco foragidos presos no país em dezembro de 2024, após o STF enviar uma lista com 62 nomes ao país vizinho pedindo a extradição.
São eles: Joelton Gusmão de Oliveira, condenado a 17 anos de prisão; Wellington Luiz Firmino, também condenado a 17 anos; Rodrigo de Freitas Moro Ramalho, condenado a mais de 14 anos e Ana Paula de Souza, condenada a 14 anos.
Em dezembro do ano passado, Sirlene de Souza Zanotti, condenada a 14 anos pela tentativa de golpe, foi presa quando tentava deixar a Argentina. Até o fechamento desta reportagem, os cinco estavam em prisão domiciliar.
Joel Borges Corrêa, condenado a mais de 13 anos, não está preso porque conseguiu refúgio.

Argentina concedeu apenas um refúgio
Dos seis foragidos presos na Argentina, apenas um conseguiu refúgio político. Trata-se de Joel Corrêa, que teve o processo de extradição anulado e está protegido na Argentina. Segundo a defesa de Corrêa, que atende pelo menos mais 40 foragidos no processo de obtenção de refúgio, nenhum dos outros clientes conseguiram o documento até agora.
Na Argentina, há quem defenda que a concessão de refúgio é uma decisão política, já que a Conare (Comisión Nacional para los Refugiados) é vinculada ao Estado e conta com representantes do governo.
Corrêa foi condenado no Brasil a 13 anos e seis meses de prisão por crimes como abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio protegido e associação criminosa armada.
A Conare não divulga informações específicas sobre solicitantes de refúgio. Dados obtidos pela reportagem via Lei de Acesso à Informação mostram que, em 2024, foram registrados 181 pedidos de brasileiros, contra três em 2023. Esse aumento coincide com a fuga para a Argentina de condenados e investigados pelos ataques de 8 de janeiro.
Ao todo, o Supremo recebeu 1.345 denúncias relacionadas aos atos de 8 de janeiro. Dessas, 1.113 foram suspensas por decisão do ministro Alexandre de Moraes para permitir acordos de não persecução penal, nos quais os investigados reconhecem a culpa e cumprem medidas como prestação de serviços e pagamento de multa. As outras 232, relativas a crimes mais graves, como tentativa de golpe, associação criminosa armada e dano a patrimônio tombado, foram levadas a julgamento.