Demissões por voto espalham medo nas empresas e ameaçam direitos, dizem especialistas

Após eleição, denúncias levantam alerta sobre autoritarismo, discriminação e saúde mental no trabalho
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Por Cleber Lourenço

A onda de ameaças e denúncias de demissões motivadas pela escolha política dos trabalhadores após o segundo turno das eleições de 2026 revela um problema que vai além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL-RJ): o uso do poder econômico para punir opiniões pessoais. Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que essas práticas comprometem a liberdade de consciência, provocam medo no ambiente profissional e podem estimular outras formas de discriminação.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 530 denúncias de assédio eleitoral entre a noite de domingo (25), quando foi anunciado o resultado da eleição, e a tarde de terça-feira (27). O número representa 21,4% das 2.467 denúncias registradas pela instituição ao longo de 2026. Entre as situações relatadas estão ameaças de demissão, dispensas e incentivos publicados nas redes sociais para que empresários punam empregados por suas escolhas eleitorais.

Para a psicóloga Patricia Ansarah, especialista em saúde mental no trabalho e fundadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica, esses episódios representam uma tentativa de controlar não apenas o comportamento profissional, mas também as convicções pessoais dos funcionários.

“Quando um empregador transforma uma divergência política em motivo de punição ou retaliação, ultrapassa um limite ético e compromete direitos fundamentais que devem ser respeitados”, afirma.

Segundo a especialista, o impacto dessas atitudes ultrapassa os trabalhadores diretamente atingidos. Ao perceberem que suas opiniões podem colocar o emprego em risco, outros funcionários passam a esconder suas convicções para evitar represálias.

“Quando os trabalhadores percebem que suas opiniões pessoais podem colocar em risco sua permanência na empresa, aprendem rapidamente que o silêncio é a melhor maneira de se proteger”, explica.

O resultado, segundo Ansarah, é a deterioração da confiança nas relações profissionais e o fortalecimento de uma cultura em que a obediência se sobrepõe ao respeito. A psicóloga também alerta que a tolerância a esse tipo de comportamento pode abrir espaço para outras práticas de intimidação.

Quando o patrão quer controlar até o voto

Para Rafael Camilo, executivo com passagens por empresas como Google e X, antigo Twitter, e autor do livro Como Sobreviver aos Layoffs, as perseguições políticas revelam uma relação de poder na qual alguns empregadores passam a tratar os funcionários como se fossem sua propriedade.

“A gente está falando aqui de algo sintomático de uma coisa que tem se perdido no trabalho, que era essa ideia desse espaço de convivência entre diferentes”, afirma.

Camilo identifica nessas práticas uma ampliação da cultura de vigilância e controle sobre os trabalhadores, que também se manifesta no monitoramento de suas atividades nas redes sociais.

“Eu vendo o meu tempo e minha competência e a empresa não compra minha consciência, meu voto nem o direito de me caçar na rede”, resume.

O especialista considera particularmente preocupante a ideia de que a dependência econômica do empregado autorize o empregador a interferir em sua vida pessoal. Para ele, essa mentalidade reproduz uma lógica histórica de submissão nas relações de trabalho.

“Tem quase que um eco escravocrata nisso, essa fantasia de que o trabalhador pertence, de que discordar é traição, de que o poder econômico autoriza castigo”, avalia.

Na análise de Camilo, empresas que adotam essas práticas também prejudicam seu próprio funcionamento, ao destruir a confiança necessária para manter equipes e relações profissionais saudáveis.

A contradição também aparece nos critérios de contratação e desligamento de funcionários. O headhunter Fábio Salomon, sócio-diretor da BRAVA Executive Search, questiona o discurso empresarial de valorização do mérito quando decisões profissionais passam a depender de preferências ideológicas.

“Demitir alguém pelo voto expõe o que sempre esteve embaixo do tapete: muita empresa diz contratar por competência, mas decide por afinidade. Se o critério para sair é ideológico, qual foi o critério para entrar?”, questiona.

Demissão por convicção política pode ser ilegal

O Ministério Público do Trabalho considera que ameaças, dispensas e outras formas de retaliação motivadas pela preferência eleitoral podem configurar assédio eleitoral, inclusive quando ocorrem depois da votação.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, o órgão anunciou a investigação de possíveis demissões e represálias relacionadas ao resultado das eleições. No interior de São Paulo, foram registradas 80 denúncias de assédio eleitoral entre a noite de domingo (25) e a manhã de quarta-feira (28).

O procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, afirmou que o direito de administrar uma empresa não inclui o poder de determinar as convicções políticas dos empregados. O órgão poderá recorrer à Justiça do Trabalho nos casos em que identificar irregularidades.

As denúncias, contudo, ainda precisam ser investigadas individualmente para determinar se houve discriminação e responsabilizar eventuais envolvidos.

Trabalhadores que sofreram ameaças, constrangimentos ou retaliações podem procurar o MPT pelo site mpt.mp.br. Mensagens, publicações nas redes sociais, áudios e testemunhos podem ajudar a comprovar as circunstâncias das denúncias.

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